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Rio Branco - Acre, sábado, 11 de janeiro de 2003
Edvaldo Magalhães

Líder do governo nega que oposição fraca diminui o valor da Assembléia Legislativa

Tião Maia
Especial para o Página 20

Nos 40 anos de existência da Assembléia Legislativa do Acre, o deputado Edvaldo Magalhães (PC do B) é o único líder de um governo a permanecer os quatro anos na mesma função. O deputado poderá bater o próprio recorde se for reconduzido ao cargo no segundo mandato do governador Jorge Viana, o que deverá ocorrer.

Na seguinte entrevista, Magalhães fala de suas expectativas em relação ao segundo mandato de Jorge Viana, das eleições para a mesa diretora da Assembléia e afirma que não concorda com a tese de que a falta de oposição vai melhorar sua vida na liderança do Governo.

Deputado, o que se especula no meio político do Estado é que o senhor, como líder do Governo neste novo mandato, praticamente não terá trabalho na Assembléia Legislativa, por falta de oposição ou de expressão dessa oposição. O senhor concorda com isso?

Eu não sou dessa opinião. Penso que, do ponto de vista político, a oposição no Acre, representada pelo MDA, as forças conservadoras do Estado, no embate político nas eleições do ano passado, sofreram uma derrota sem precedente na história deste Estado. Mas também é fato que eles, essa oposição, não estão mortos. A expectativa que eu particularmente tenho – e temos discutido isso dentro da Frente Popular – é que haja uma reciclagem dessas forças políticas e permitam que a gente trave um debate sob outro conceito e novos patamares, num outro nível em que se discuta o Acre e não aquelas picuinhas, as coisas rasteiras. Eu acho que a oposição no Acre foi altamente prejudicada por causa daquele modelo anterior de fazer oposição, com base na agressão permanente e sem trégua.

O senhor diria que isso acabou no Acre?

Eu não diria que isso acabou. Diria que esse modelo foi duramente derrotado e se a oposição tiver vida inteligente, vai adotar um novo modelo, uma nova prática.

A que se deve essa derrota da oposição e o triunfo do Governo? Foi porque o Governo foi feliz em suas ações ou porque a sociedade decidiu por ela mesma dizer não que a sociedade entendeu que estava de fato na hora de mudar?

Eu acho que houve um encontro da sociedade com o Governo. O Governo acertou muito na medida em que trilhou o caminho de reconstrução do poder público no Acre, que estava destruído. Acertou também quando apontou rumos e criou esperança de retomada do desenvolvimento.O povo teve um encontro com essa verdade. Viu que havia sinceridade na ação do Governo. Então, a sociedade tomou para si a tarefa de manter essas conquistas. Foi algo parecido com uma greve em que uma categoria se mobiliza contra a retirada de seus direitos. Foi assim: a sociedade acreana fez um mutirão na eleição para dizer assim: nós não queremos e não vamos permitir que a conquista de um novo Governo, de um Governo que está reconstruindo o Acre, seja tomado da gente – isso, aliás, se materializou naquele episódio da cassação da candidatura do governador. Mas isso não quer dizer que o trabalho está diminuído. Pelo contrário. Eu acho que vai aumentar. Sabe por quê? Porque agora vamos ter que nos esforçar muito para dar mais conteúdo para o nosso debate. A Assembléia melhorou muito nesse sentido porque, com certeza, vai ter mais qualidade. Veja que o perfil dos parlamentares que foram eleitos e reeleitos elevou o traço de qualidade, de forma geral, da Assembléia.

Dos deputados de oposição, inclusive?

Eu acho que inclusive a oposição vai ser melhor porque terá menos ranço. Acho que a relação será melhor. E nós não queremos manter uma relação com a oposição de cooptação. Queremos manter uma relação de respeito, com a possibilidade de, tendo um problema posto na mesa, a gente chamar a oposição e a bancada de sustentação e discutir o problema. Mais que isso: juntos, levarmos esse problema para ser discutido no Palácio Rio Branco, com o governador. Nós estamos abertos a isso.

Com a oposição sentada à mesa?

Claro. Temos que chegar a esse nível de civilidade. Isso é que é o normal. O anormal é aquele outro modelo que estava posto até recentemente, com a agressões permanentes, com a discussão em que a veia do pescoço quase estourava. Isso não é modelo de oposição.

O governo vive a expectativa de reinventar suas próprias ações para ser um governo novo. O senhor poderia explicar como será isso? Como e qual será o nível de participação da sociedade na definição desses projetos?

O maior desafio que hoje está colocado para a Frente Popular do Acre é realmente fazer um novo Governo. Necessariamente você não faz um novo Governo só com a tese de que, para fazer o novo, é necessário um novo governador, novos secretá-rios e novos projetos. Na verdade, o que é necessário é uma nova forma de governar. No entanto, não quer dizer que a forma anterior estava errada. É que, para a nova realidade do Acre, a forma anterior não dá conta da demanda que está sendo imposta. Veja só: nós reconstruímos o Estado. Agora, temos que pôr esse Estado em marcha para o desenvolvimento e, ao final dos próximos quatro anos, apresentar marcas e certezas de que o desenvolvimento auto-sustentável é uma forma viável que gera renda, emprego e que melhora a qualidade de vida das pessoas em qualquer lugar deste Estado. Nós temos que mostrar resultados. O segundo prisma é que o governo precisa mudar de cima para baixo na sua forma de se relacionar com a sociedade. Temos que encontrar um meio – e é bom que se diga que não existe um modelo pronto – de que em cada ação de Governo as pessoas, a sociedade seja envolvida nesta ação. Um exemplo: no governo passado, nós vimos isso, o governo ia construir uma escola na zona rural. Chegavam lá máquinas e homens e a empresa para fazer a escola necessária e a professora da área ficava surpresa porque ela não estava sequer sabendo que sua comunidade iria ganhar uma escola nova.

Ou seja, a professora não tinha conhecimento do que o governo estava fazendo em relação à educação?

Exatamente. O governo realizou muito. Mas realizou para e não com as pessoas. O entendimento para este segundo governo é que nós temos que realizar com as pessoas, porque as pessoas têm muito que ensinar e o Governo tem muitas sugestões a apresentar.

Mas por que não aconteceu isso no primeiro Governo?

Porque nós tivemos que fazer em quatro anos ações que num outro Governo levariam no mínimo dez anos para ser feitas. O que foi feito aqui em três anos e meio, numa outra circunstância, seria tarefa de dois governos e meio. Nós tivemos que apressar as coisas porque o Acre ficou muito tempo no atraso. Tivemos que tirar o desconto, correndo mesmo. Fizemos um governo que, em alguns momentos, no propósito de bem fazer, chegou a atropelar algumas coisas.

Deputado, o que fica claro em posicionamentos como o seu, com a proposta de envolver cada vez mais a sociedade no projeto político da Frente Popular, é que há uma clara intenção de hegemonia política no Estado. É propósito da Frente Popular hegemonizar o Estado, passando pelas eleições municipais?

Eu acho até engraçado essa história do “tá tudo dominado”. Acho isso uma besteira. Na verdade, ao que parece, as pessoas ainda não conseguiram enxergar que está havendo um encontro do sentimento dos acreanos com ele mesmo. Quem está dominando o Acre é o próprio Acre. Esse projeto é o projeto que se identifica com o nosso povo e vice-versa. Portanto, ainda existem muitos espaços públicos que esse projeto precisa alcançar, que precisa levar ao poder.

Quais, por exemplo?

Esse projeto precisa chegar à Prefeitura de Rio Branco, precisa chegar ao poder em Cruzeiro do Sul, em Mâncio Lima, em Porto Walter, em Thaumaturgo, em Rodrigues Alves, em Senador Guiomard, no Bujari, em Sena Madureira. Há uma possibilidade muito grande de que este projeto transforme o Acre. Esse projeto, como a gente percebe, é bom para o Acre.

Dentro desse projeto, o senhor seria candidato a prefeito de Cruzeiro do Sul, como vem sendo colocado?

Penso. Não sei quando, mas penso. Mas eu acho que essa discussão da Prefeitura de Cruzeiro do Sul tem que passar por uma ampla articulação política que envolva todas as forças e que seja por consenso. Eu não disputo e não disputaria com ninguém posto de candidatura nenhuma. Acho que esse tempo da briga já passou. Estou fora disso. Se houver um chamamento, eu não sou de correr do pau, como se diz no popular.

Em relação à mesa diretora da Assembléia Legislativa, seu nome tem surgido como candidato a presidente. O que está ocorrendo de fato em relação a isso?

Há um pacto entre os partidos e os parlamentares da Frente Popular de tratarmos a eleição da mesa no período temporal que vai do dia 25 ao dia 30 de janeiro. Tomamos essa decisão para não ficarmos alimentando briguinhas e disputas rasteiras – e nós queremos romper com isso. Há ainda uma segunda questão: nós não vamos alimentar a pilantragem em relação às eleições para a mesa diretora. Não vamos alimentar aquele jogo de interesses. O que queremos é fazer uma discussão transparente e tranqüila. Nós temos que acabar com uma cultura existente no Acre de que no parlamento, para você se dar bem, basta não ter posição, ficando em cima do muro até os 44 minutos do segundo tempo para só então manifestar o voto e conseguir fazer a melhor jogada. Nós temos que romper com isso.

Foi isso que aconteceu na Câmara Municipal, que acabou com a aliança entre o PPB e o PMDB face à eleição do vereador Nuno Miranda?

Pelo menos em relação a alguns parlamentares. Com relação à Frente Popular, não. Nossa posição foi clara do início ao final.

O vereador Nuno Miranda teve ou não o apoio da Frente Popular para se eleger presidente?

Ele teve todo o apoio da Frente Popular. Nós não fizemos uma eleição – e aí, na minha opinião, acho que foi a cartada errada do MDA – em que não havia uma disputa entre a Prefeitura e a Câmara. Do ponto de vista do poder municipal, a eleição para a presidência da Câmara teria que se dar de uma forma que a Frente Popular não alcançasse a presidência porque isso transformaria o vereador presidente no vice-prefeito. Nós não pensamos nisso. Discutimos a Câmara partindo do princípio de que o poder está desmoralizado. Precisamos reerguer esse poder. Não queríamos um candidato para ser oposição ao prefeito. Queríamos um candidato que fosse a favor da Câmara. Enquanto nós pensávamos na Câmara, a bancada de sustentação do prefeito pensava em como impedir que a Frente Popular se aproximasse da Prefeitura através da mesa diretora da Câmara. Foi uma postura errada – tão errada que perderam as eleições. Dos 18 vereadores, só temos seis votos. E mesmo assim ganhamos. Isso demonstra a unidade da Frente Popular e uma profunda divisão na bancada de apoio ao prefeito. Na Assembléia, não vamos permitir esse tipo de coisa. Tenho certeza de que é possível termos uma chapa de consenso, inclusive com o apoio da oposição.

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