

No interior de sua embarcação, o estivador sonha com um futuro mais amplo para os filhos, que brincam nas barrancas sem saber a dureza do amanhã
Trégua na luta pela vida
sob o anoitecer da floresta
Rio Acre e estivador acreano fazem
acordo
temporário na incansável luta pela sobrevivência
Josafá Batista
Anoitece na capital acreana. A labuta, que outrora patrocinou suores e lágrimas, dá lugar ao sono. Aos olhos pesados, ao andar trôpego. O cantarolar dos insetos noturnos embala os pensamentos e os sonhos dos homens simples do cais. Somente a noite lhes é testemunha.
Uma xícara de chá fumegante e a garantia de que as crianças estão devidamente ao alcance dos olhos faz o capitão do barco puxar um tamborete. Sentado na proa, ele observa o horizonte, que, amanhã, deverá singrar pela enésima vez.
Mas é só amanhã. Hoje, agora, é hora de descansar. De cultuar o silêncio. De sentir a brisa fria, com cheiro de rio, invadir as narinas e a embarcação que há muito lhe serve de casa. Sob a vigilância auspiciosa da gloriosa bandeira acreana, o herói mergulha em pensamentos profundos.
Qual direção seguir? Os filhos estão crescendo, o mais velho já é quase adolescente. A educação fundamental da escolinha rural, a mais de 60 quilômetros do lugar onde ele se encontra agora, logo, logo não será mais suficiente. Como fazer para oferecer ao filho o que ele mesmo jamais teve?
FAMÍLIA - O olhar percorre o interior da embarcação. As crianças estão logo ali, na praia. Brincam distraidamente. Um aviso paterno sobre a necessidade de um banho urgente os leva quase que imediatamente para as águas barrentas do rio Acre.
A cena é inesquecível, mas ele não deve se enganar. O futuro é breve e a sorte, pouca. Além disso, o carregamento de bananas foi desembarcado com atraso hoje. Amanhã é dia de pagamento e de retornar, o mais rápido possível, para a colônia tão querida e para a mulher carinhosa.
Sonho que não se sonha só
Ele já esperava, mas a vinda do filho mais velho, de banho tomado e olhar preocupado, até a solitária proa da embarcação, é um presente que dissolve suas divagações, turbulentas como a água desse rio no inverno amazônico.
A xícara já está vazia, o negrume noturno já tomou conta da cidade. Automóveis e passos apressados dos retardatários e sempre estressados moradores da cidade grande são testemunhados, a poucos metros da ponte Sebastião Dantas, por esse ignorado trabalhador. “Pai, o senhor está triste?”
A pergunta entrecortada e tímida do pré-adolescente soa como mil bombas atômicas a explodir o peito desse homem, cuja prioridade sempre foi tornar os filhos, a continuidade dele mesmo, homens fortes para um futuro incerto.
“Seu pai não fica triste, meu filho. Estou pensando no que vamos
comer amanhã de manhã”, é a resposta. No momento,
o púbere não entende a profundidade do genitor. Mas enche-se
de orgulho e reforça sua confiança naquele homem cujos gestos
e palavras aprendeu, sem constrangimentos, a imitar.
E por alguns minutos ficam os dois, com o olhar perdido no horizonte e pensamentos divagantes. Nenhum deles sabe como será o próprio amanhã, apenas torcem para que suas vidas permaneçam sempre assim. Misteriosas, mas simples, com alguém para amar sempre por perto.