
Elson Martins *
Em junho de 1979, o jornal Varadouro fez uma longa entrevista com o médico e professor amazonense Marcos Barros, que acaba de ser convocado pela Ministra Marina Silva para presidir o Ibama. Na época com 31 anos, e barbudo (segundo explicou, para não se parecer com os médicos que mantêm a cara limpa e se vestem de branco enquanto praticam uma medicina tão perversa), ele traçou um duro e realista perfil dos profissionais médicos que atuam na Amazônia. Decorridos 32 anos desde a entrevista, parece que suas colocações permanecem atuais. Por isso, copiando a Globo e o jornalista Romerito Aquino, sugiro que “vale a pena ler de novo” alguns trechos da entrevista:
-As escolas de medicina brasileiras são forjadas dentro de um padrão europeu, que cria o médico para medicalizar. Ou seja, nas escolas se aprende como atender num consultório! Não existe nenhuma preocupação com saúde preventiva ou saúde pública.
-Em síntese, as escolas de medicina brasileiras formam médicos da seguinte maneira: 1) Você vai enfrentar o mercado de trabalho; 2) Saiba cobrar e cativar o cliente para que ele volte sempre; 3) e mais grave: “vá, meu filho, quanto mais pessoas adoecerem, melhor pra você enricar. Você terá seu Opala, sua fazenda à medida em que as pessoas adoecerem”.
-Esta ideologia é pregada até às claras. Daí, não estranho quando encontro colegas que enchem o peito e dizem – “pô, não pintou ninguém hoje no consultório!”, quer dizer, isso é a personificação da mercantilização da medicina. Ele quer dizer, em outras palavras, que as pessoas estão adoecendo menos e ele não pode faturar! Ora, esse médico está cumprindo exatamente o que aprendeu na faculdade, que é uma parte celular de um sistema opressor que utiliza o médico como atenuador das contradições deste sistema.
Não esquecer que Marcos Barros falou isso há 32 anos. De lá para cá, ele foi reitor da Universidade Federal do Amazonas e diretor do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Também se introduziu na política, não sei bem com que resultados. Mas, vamos ver mais alguns trechos de sua entrevista... O Varadouro perguntou qual era o papel do médico nessa história?
-Quando ele é consciente, pelos menos, ele não atrapalha a mudança. Mas 90 por cento ainda estão atrelados à mercantilização. E está acontecendo uma coisa interessante: com os institutos previdenciários (Inps,Inamps etc.) nem todos os médicos, entretanto, podem ter seu consultório. Eles estão apelando para todos os artifícios para manter o status mínimo de possuir o Wolkswagen e o relógio Seyko. Ele começa, então, a bicar: bica o Inps, bica na clínica tal, bica outra coisa qualquer, arranja um pequeno sítio para dar produtividade e lazer. Esse é o médico- padrão hoje (1979) no Brasil, com o devido respeito ético e com honrosas exceções”.
-Resultado: quem sofre é o paciente porque ele vai ser “despachado” pelo médico do instituto, ao invés de ser atendido. É mais uma vez o sistema capitalista que gera essa relação entre o médico e paciente. Acabou o tempo em que o médico se levantava do bureau para examinar o paciente, tirar a roupa dele e meter a mão na barriga para ver se o fígado está aumentado. Não, ele dá um super olhar biônico e pede: “hemograma completo, exames parasitológico de feses, urina, EAS...”Esse é o panorama geral da medicina urbana”.
Num outro ponto da entrevista, Marcos Barros diz que a noção de “doença” ou “medicina tropical” é uma noção colonialista, inglesa mais precisamente. Na sua opinião não existem “doenças tropicais”, mas sim doenças de países subdesenvolvidos. E apregoa:
-Na medida, por exemplo, que o Acre se tornar um Estado desenvolvido não haverá mais malária, não haverá mais diarréia que mata as crianças cagando fino. No Brasil, aliás, acima da malária, existe uma doença pior que se chama diarréia-infecciosa. Quer dizer, não faz sentido dizer que as doenças são mais na Amazônia porque a Amazônia está localizada nos trópicos, é mais quente ou mais frio. A Noruega, um país nórdico, enquanto era subdesenvolvido possuía 50 mil leprosos. Atualmente, existem apenas 13. Praticamente, só existe um país onde a malária foi erradicada e este país chama-se Cuba.
Varadouro perguntou a Marcos Barros que chances teria um médico de escapar do esquema mercantilista? – e ele respondeu que uma forma seria filiar-se à Secretaria de Saúde, no setor de saúde pública. Mas admitiu que esse médico pode entrar em conflito, porque o salário que o governo paga, ele acha pouco: “Ele vê o colega com o Opala e não pode ter um; a mulher do colega pode bater á porta de casa e mostrar para a mulher dele o brinco de esmeralda que o maridinho comprou pra ela; aí a mulher dele começa a aporrinhar, a chiar. Aí nosso médico começa a fazer bico..”.
É possível que o quadro tenha melhorado e que os médicos estejam hoje mais preocupados com a saúde das pessoas que com os brincos da esposa. Quanto ao Marcos Barros, médico e agora presidente do Ibama, ele tem como paciente a Amazônia e sua rica biodiversidade que todos queremos salvar. Será muito bom reencontrar nessa função, o profissional consciente que Varadouro entrevistou.
Trégua na luta pela vida sob o anoitecer da floresta
Josafá Batista