
Tião Maia
Dois fatos marcantes ilustraram com precisão na semana que passou a circunstância política vivida no Acre nos últimos anos: enquanto o governador Jorge Viana desembarcava em Cuba para encontrar-se com o lendário Fidel Castro, em Rio Branco, o projeto político derrotado pelo atual modelo de desenvolvimento que está sendo implantado no Estado, tentava arrumar seus próprios cacos fazendo uma série de alianças cuja base do acordo, para variar, passa pela cessão de cargos públicos aos novos aliados.
Enquanto o governador do Estado faz uma viagem oficial como representante do presidente Lula em busca do estabelecimento de programas de cooperação técnica com quem detém a excelência nas áreas de educação, saúde, esportes e biotecnologia, o prefeito de Rio Branco, liderança mais visível do que estou em pé daquele projeto político derrotado, se vê às voltas com problemas paroquiais envolvendo sua base de apoio e alguns cargos de terceiro ou quarto escalão na prefeitura.
Enquanto Jorge Viana trabalha em várias direções para inserir o Acre na República como de fato um Estado membro da Federação e a partir daí resgatar a enorme dívida social que o país tem para com a população acreana, a Prefeitura de Rio Branco abandona a cidade à própria sorte e o prefeito, que deveria limitar-se a tapar buracos, recolher o lixo, abrir e conservar ruas, torna-se refém de grupelhos políticos e deixa de cumprir as funções mais simples da municipalidade.
O resultado é o caos implantado em toda a cidade. Rio Branco vem sofrendo muito desde 1996, quando assumiu a Prefeitura o projeto político cuja derrota foi sacramentada nas urnas, no ano passado. É fato inquestionável que as obras herdadas pelo então prefeito Mauri Sérgio da administração de Jorge Viana, a grande maioria foi abandonada. De tudo o que então prefeito Jorge Viana construiu, salvou-se apenas o Terminal Urbano. Praças, parques, prédios e logradouros públicos, como que por birra ou estreiteza política, tudo foi abandonado.
A administração sucessora de Mauri Sérgio, cuja eleição se deu sobretudo pela força do dinheiro e não exatamente dos argumentos ou de um programa de Governo, continuou trabalhando para, como se fosse possível, apagar a memória da administração do PT no município. Não bastasse isso, o então prefeito Flaviano Melo não conseguiu viabilizar-se como administrador e encontrou na renúncia a pretexto de concorrer às eleições ao governo o caminho para sair da crise.
Derrotado e constrangido, o ex-prefeito passou a lutar para manter seus tentáculos numa Prefeitura da qual renunciou e o resultado é o previsível: o sucessor, Isnard Leite, que não tem força política para escolher o próprio motorista, é apenas gerente de uma crise sem precedentes na história do município. Há quem assegure que os oito anos de Mauri Sérgio/Flaviano Melo/Isnard Leite serão bem piores que a década perdida do interventor Fernando Inácio dos Santos, que administrou a cidade a partir de um pardieiro no subsolo do Palácio das Secretarias.
Acossado e perdido entre os labirintos construídos por um modelo político que a sociedade questiona e rejeita, o prefeito Isnard Leite, apoiado apenas em sua razoável biografia, tenta alguma reação mandando recados à sociedade. Recorre a números que, se verdadeiros, mostram que os munícipes não vêem em Isnard Leite os mesmos traços atribuídos a Mauri Sérgio ou Flaviano Melo.
Aceitam-no como homem probo mas começam a temer por seus vacilos em não romper com os grupos que a vida toda fizeram da política e das instituições autênticos nacos dos quais tiravam suas vantagens pessoais em detrimento das necessidades da população e das instituições as quais deviam zelar. Os recados de Isnard têm sido claros: vai administrar a Prefeitura com transparência a partir do que ele próprio chama de choque moral.
Nada mais oportuno. Ocorre que, além da transparência, o que a cidade precisa é de ação. E de ações simples como, por exemplo, a água prometida nas torneiras, o lixo recolhido e a mínima tragefabilidade em ruas e bairros abandonados. Não se concebe que numa cidade com pouco mais de 350 mil habitantes, por falta de ação da Prefeitura, a polícia tenha dificuldade de agir porque as ruas, algumas até em bairros considerados centrais, foram transformadas em autênticos valhacoutos.
A expressão “choque moral”, o conceito adotado pelo prefeito Isnard Leite para salvar o que lhe resta de dignidade política, é um desses atos falhos que passam à história. Ao revelar que a Prefeitura precisa de um “choque moral”, o prefeito mostra que ele e seus dois últimos antecessores administraram o órgão a partir de políticas, para dizer o mínimo, amorais.
E por amoral entenda-se, para citar só alguns exemplos, o sumiço de R$ 30 milhões enviados pela Fundação Nacional de Saúde para resolver o problema do saneamento básico e que desapareceram sem que houvesse solução para o caso; o abandono de logradouros públicos e o emprego constante de métodos condenados pela população na forma de administrar o município.
Longe de uma coligação, os partidos que montaram consórcio na administração do município, nada mais são do que instituições através das quais figuras carimbadas usam e abusam do dinheiro público para manter vidas nababescas através de empregos para si, para a esposa, para filhos, noras e genros. A Prefeitura nada mais é do que uma verdadeira familiocracia, autênticos feudos que a população condena e reprova.
É por isso que é absolutamente emblemático o fato de o governador ir a Cuba em busca de cooperação técnica que possam beneficiar o Estado e o prefeito da Capital se ausentar para Senador Guiomard apenas para dar oportunidade de o presidente da Câmara vir a se tornar prefeito da cidade num final de semana.
É a revelação de que a população, se quiser sair do casos, precisa se mobilizar ainda mais para enxotar de vez essa prática política imoral de uma instituição importante como é a Prefeitura. E isso é fácil. É pelo voto.
* Tião Maia é jornalista