
Deputado estreante diz que integração do Acre é a saída para o progresso
Moisés Diniz, 39, é o segundo deputado do PCdoB, eleito com 3.072 votos, a maioria do município de Tarauacá e adjacências. Oriundo da igreja Católica, ex-irmão marista, Moisés Diniz iniciou a sua militância aos 16 anos nos grupos de jovens da igreja, e, mais tarde, nas frentes sindicais e populares.
Professor militante, fundador do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Acre (Sinteac) em Tarauacá, formado em Pedagogia pela Ufac, Moisés elegeu-se vereador em 1992 e vice-prefeito em 1996, contribuindo para que Tarauacá fosse o primeiro município do interior, junto com Xapuri, a eleger um prefeito da Frente Popular do Acre (FPA).
Além de atuar na política, Moisés Diniz publicou dois livros e escrevido para jornais. Nessa entrevista, ele fala de seus projetos como deputado eleito. O que mais chama a atenção são as suas idéias de como fazer política nesses novos tempos em que vive o Acre.
Deputado, como se deu a sua eleição?
Nós tivemos 3.072 votos, dos quais 1.989 em Tarauacá, correspondendo a 19% dos votos do município. Se fosse em Rio Branco representariam 25 mil votos. Isso significa dizer que nós conquistamos um pedaço grande do coração do povo de Tarauacá. Citamos esses números para poder dizer que é possível, nós da esquerda, ganhar eleição sem utilizar esquemas financeiros, sem comprar voto.
Qual é o seu estilo de fazer política?
Pretendo trazer para Rio Branco, sem arrogância, esse jeito de fazer política, uma política que se faça a partir dos pobres e não apenas para os pobres. Uma política que saia do padrão da esquerda, que mantenha os princípios básicos, mas que saiba humanizar as relações, estreitar laços permanentes com os excluídos, infundir esperanças sinceras na alma do povo.
O senhor pretende imprimir uma marca ao seu mandato?
Se você olhar para a atual legislatura vai perceber que alguns deputados passaram sem ser percebidos e outros que imprimiram uma marca. Citaria quatro deputados. Ronald Polanco se destacou como um formulador de políticas de desenvolvimento sustentável, Edvaldo Magalhães como um articulador político brilhante, Naluh Gouveia como alguém que denuncia toda e qualquer injustiça e Sérgio Petecão que, mesmo não sendo de esquerda, soube conduzir tarefas que só um grande líder faria. Nós pretendemos, com absoluta cautela e humildade, contribuir para que os pobres participem do jogo político. Tirar os excluídos da arquibancada e colocá-los no gramado.
Como o senhor pretende fazer isso?
Acredito que é possível construir canais legítimos de comunicação entre o povo e aqueles que governam. Não temos soluções mágicas, apenas a vontade sincera de encontrar caminhos. Quero ser, sem arrogância, o deputado dos movimentos sociais [ONGs, sindicatos, associações, igrejas, cooperativas], daqueles que acreditam que é possível construir um mundo melhor para o povo a partir do próprio povo. Quero as suas idéias e sugestões, suas críticas. Quero, ainda, ajudar a organizar aqueles que estão desorganizados.
Seria uma espécie de gestão participativa com os setores sociais?
Sim. Quero, por exemplo, contribuir para que as idéias brilhantes que surgem, às vezes, no púlpito das igrejas, na sala de cafezinho da repartição pública, no bar de fim de semana sejam debatidas e aproveitadas. Eu sempre digo que as boas idéias que vêm do povo são como pedras preciosas que ficam escondidas sob a terra, até que aparece alguém e começa a procurá-las. Dá trabalho, é cansativo, mas é melhor fazer isso do que achar que uns três ou quatro iluminados vão encontrar todas as saídas de que necessita a humanidade.
Poderia citar algum exemplo?
Os cerca de 1.500 presidiários do Acre. Eles têm mães, esposas e filhas. Essas mulheres constituem uma massa gigantesca de discriminadas pela sociedade. Esta condena [com justeza] aqueles que cometem delitos, mas condena ainda ao preconceito e à discriminação os seus familiares. Uma mulher de presidiário tem dificuldade de encontrar emprego numa casa de família, seus filhos sofrem discriminação na escola, na igreja. Ora, se a sociedade discrimina até os seus familiares, como vai produzir a reintegração dos delinqüentes? Nós vamos organizar a Associação de Mães e Mulheres de Presidiários do Acre, excluindo aqueles envolvidos com o crime organizado.
E qual será o papel dessa entidade?
A associação vai discutir com a sociedade os caminhos da reintegração de seus filhos e maridos, a garantia de trabalho nos presídios, penas alternativas para aqueles que ainda não foram condenados por pequenos delitos, etc. Se você coloca nas mãos das famílias a prerrogativa de negociar, opinar, você reduz o potencial explosivo dos próprios presos que, muitas vezes, se rebelam sob o comando dos grupos mais perigosos. Nesse trabalho, envolveremos a Pastoral Carcerária e as igrejas.
Haverá outra fonte de participação no seu mandato?
Outro exemplo são os meninos de rua. Nenhuma política juvenil dará certo se não partir dos próprios meninos, de suas famílias, se não se construir a partir do local de onde eles saem [o bairro, a rua] para as suas aventuras perigosas. Convidaremos as associações de moradores, os sindicatos e as igrejas a nos ajudar.
Então a idéia é tornar o mandato democrático, aberto a críticas populares?
Eu não vejo outro caminho que não seja o da crença no povo e suas organizações. Por tantos anos de exclusão e luta, as organizações populares acumularam experiência e alguns sonhos foram testados. Eu tenho dito que os sindicatos e as associações de moradores, para começar a dizer a que vieram, precisam criar um Departamento de Políticas Infanto-Juvenis, dedicar tempo e recursos em políticas para as crianças do Acre. O sindicato da educação, da saúde, a CUT, dentre outros, precisam criar departamentos que cuidem do futuro, as nossas crianças.
Por que a sua ênfase na participação das igrejas?
Tenho dito sempre que, num bairro, você pode não encontrar um posto de saúde ou policial, um supermercado, mas você encontra sempre uma igreja. Por que não torná-las as grandes executoras da política infanto-juvenil do poder público? As igrejas têm mais sensibilidade social, carregam mais humanidade que o detentor de DAS que, muitas vezes, cuida mais do próprio bolso do que das crianças sob sua responsabilidade. A essência de tudo isso é construir uma concepção nova, uma atitude nova, que seja capaz de ser radical na hora de determinar que nenhuma política será duradoura sem a participação do povo, de compreender que a tão falada participação popular só é genuína e producente se se constituir a partir da decisão do próprio povo, nunca uma concessão dos que estão no andar superior. Eu vou apostar nisso.
Quais as suas perspectivas como deputado eleito?
Quero ser um defensor dos ideais da Frente Popular. Defenderei o Governo de Jorge Viana a partir da premissa de que o segundo mandato dele incluirá os pobres de um jeito diferente do anterior. Um governo de reconstrução, de travessia, como foi o primeiro governo, não podia se dá ao luxo de priorizar o diálogo com a sociedade. Imagine alguém demolindo velhas estruturas, uma casa abandonada, não dá para perceber uma planta valiosa lá no canto, um ninho de pássaro. Assim foi o nosso primeiro governo. Agora será diferente.
Como caminhará essa mudança?
No lugar de reconstruir, nós vamos construir. Dá para planejar, ouvir, polemizar, corrigir e até sonhar. Nessa nova forma de governar, serei um deputado intransigente na defesa do projeto da Frente Popular, mas serei também um deputado que não vai tolerar qualquer desvio de conduta ética na condução da coisa pública, seja de um partido aliado ou do meu próprio partido.
Mas na prática, como se processariam essas diferenças?
Num comício da Frente lá em Tarauacá eu disse que o primeiro mandato foi o governo do Jorge Viana e que o segundo será o governo do Jorge. Utilizei a onomástica para fazer uma metáfora. O sobrenome é quase impessoal, litúrgico. É utilizado na esfera profissional, no público, na cerimônia. Já o primeiro nome é utilizado na intimidade da família, dos amigos, da escola.
Seria uma espécie de aproximação íntima?
Veja, quando dizemos: “o governo do Jorge”, estamos afirmando que o novo governo estará mais próximo das pessoas, será mais humanista e dialógico, considerará como preciosa uma noite onde o Governador ou Secretário de Estado dormirá numa aldeia indígena, bebendo caiçuma e ouvindo histórias ancestrais. Esse novo jeito de governar e viver se tornou possível com o resultado das eleições de outubro, que permitirá à Frente Popular burilar o seu diamante sem correr o risco de perdê-lo.
O senhor não está sendo muito romântico?
Eu já vi muitos postos de saúde, escolas e praças destruídos não pelo tempo, mas pela ação dos próprios usuários. Acho que a gente, sempre que for realizar uma obra, deve duplicá-la, uma para os olhos e outra para o coração. Construir uma obra com tijolo e argamassa é fácil, difícil é colocar dentro das pessoas o significado, a importância, o simbolismo de um posto de saúde, um barco, uma escola, por exemplo. Por isso esse meu romantismo, acreditar que o povo precisa ver nos governantes, nos políticos, um exemplo de vida. Acho que viveremos melhor e mais felizes quando o povo perceber que aqueles que cuidam das suas vidas estão mudando de comportamento, de atitude.
Como isso se expressará em resultados concretos para o povo?
A mudança de atitude determina até os investimentos, onde, como e para quem. O Canal da Maternidade, por exemplo. A beleza, a amplitude social dessa obra em Rio Branco perderá substância se outras pequenas obras desse tipo não forem realizadas nos municípios. O cidadão do interior vai ver e vai saber dessa obra, elogios, interesse em conhecer. Na cabeça dele, lentamente, ele vai tomando uma decisão: vou morar em Rio Branco. Lá estão as coisas bonitas, os melhores empregos, as universidades, a melhor diversão.
Então acontece a migração...
Então ele vem para Rio Branco, mais um, dois, milhares. A cidade fica inchada, as periferias tornam-se campo de concentração, prende-se dois marginais no sábado, domingo surgem mais três. A mudança de atitude leva o deputado a passar o carnaval no município e não no nordeste, faz o secretário levar a família para conhecer o interior que sustenta o seu cargo. Com o tempo, e somente com o tempo, robustece-se uma nova cultura, onde as coisas simples do povo, do interior ou da periferia, desconhecidas e até primitivas, vão se tornando parte da nossa respiração, do nosso cotidiano.
O senhor defende, então, mais investimentos para o interior?
Os investimentos não resolverão todos os problemas. É preciso que, além do dinheiro, vá também para o interior a alma dos governantes, dos políticos. Que possamos beber de sua própria água, como diz Gustavo Gutierrez, respirar o ar que o interior respira. Quando isso acontecer, vamos descobrir que há centenas de famílias acreanas que sonham em voltar para casa, para a terra que os expulsou por falta de escola, saúde e emprego. Esse será a nobre tarefa da florestania: repatriar os acreanos.
Seria um programa para transferir as famílias de volta para o interior?
Seria uma nova atitude de todo o governo, uma vontade única, em todos os setores públicos, do governo aos tribunais, de diminuir a luminosidade da capital e acender luzes no interior. Com o tempo as pequenas cidades iriam se tornando atrativas para o retorno, para o repatriamento das famílias. Num segundo momento, as famílias retornariam aos seringais, às regiões rurais. A Europa funciona assim e vive muito bem. Teríamos um Acre produtivo, moderno, socialmente justo e desconcentrado.
Não é o caso de se investir na humanização da sociedade?
A concentração desorganizada e abrupta produziu o que há de pior na sociedade: a falta de solidariedade, a ganância, a insensibilidade. Nos seringais, uma caça abatida era dividida entre os vizinhos, a solidariedade e a afeição determinavam a vida e as atitudes. Acredito que a florestania, além da variável econômica, de geração de riquezas e de inclusão social, deve lutar pela reconquista desses valores.
Não seria possível organizar um programa de repatriamento?
Sim, provisoriamente, poderíamos determinar vantagens para quem retornasse ao interior. Uma família tarauacaense que mora na periferia de Rio Branco, desempregada, receberia uma casa em Tarauacá e uma ajuda financeira por determinado período. Ela voltaria com certeza. Veja o contrário dessa idéia: quando se constrói mil casas no Acre, 50% são na capital. Se começasse a sobrar moradias no interior, se os professores dos municípios isolados tivessem o auxílio-interior, os enfermeiros, os policiais. Ou seja, acender luzes no interior. Alguns vão considerar um debate romântico, mas eu não vejo as outras saídas, padronizadas, dando certo. A capital do Acre está virando um lugar de matar gente.
É possível o investimento produtivo, como fábricas, no interior?
Veja o exemplo de Xapuri e o seu pneu ecológico. A partir de agora, atividades como aquela vão deixar de ser experiências isoladas para se tornarem políticas públicas. Como deputado, vamos estar atentos para que essas políticas se concentrem no interior. Inaceitável que a quarta cidade do Acre, Tarauacá, não tenha balizamento noturno. Isso acontece porque as mulheres dos políticos, dos magistrados, quando têm uma complicação no parto, estão em Rio Branco. As mulheres do povo morrem nas mesas noturnas dos hospitais do interior.
Então não há condições...
Como é que vamos propor a instalação de uma fábrica no interior, quem é que vai pra lá? Quando sair o asfalto [e acreditamos que sai em quatro anos], quando tivemos uma boa infra-estrutura de energia, telefonia e água no interior, pode ter certeza, os investimentos produtivos vão florescer no interior.
O senhor tem uma proposta exclusiva para a sua região?
Sou deputado de uma região que compreende três municípios [Tarauacá, Feijó e Jordão]. Este último é umbilicalmente ligado a Tarauacá. Quanto a Feijó, está distante apenas 48 quilômetros. Os três municípios têm uma população conjunta de 60.000 habitantes, uma espécie de Cruzeiro do Sul conjugada. Defendo investimentos conjuntos para os três municípios. Um conjunto de investimentos seria feito entre Tarauacá e Feijó, a cerca de 20 km de cada uma das cidades, às margens da BR 364.
Quais itens teriam esse pacote?
Um campus universitário, um aeroporto internacional, um hospital regional, uma penitenciária, uma usina de geração de energia, dentre outros investimentos que demandem muitos recursos. Além da economia de recursos e da unificação de políticas entre os dois maiores municípios, estaríamos construindo um espaço privilegiado para futuros investimentos como fábricas para agregar valor aos nossos produtos da floresta.
Haveria uma prioridade na implantação de todas essas obras?
Todo e qualquer investimento passará necessariamente pelo prisma da unificação de investimentos, se essa for a vontade das populações dos três municípios. Por exemplo, o Centro de Florestania deverá fazer parte desse projeto amplo de se criar entre Tarauacá e Feijó uma espaço de infra-estrutura para o futuro. Será o nosso Vale do Silício, onde faremos uma bela experiência de tecnologia florestal e inclusão social, a nossa florestania.
Já existe uma proposta na área de investimentos produtivos?
Vou sinalizar com uma idéia que parece absurda, mas eu aprendi que a gente não deve nunca deixar de sonhar e lutar para testar esses sonhos. Com a estrada do Pacífico, nós vamos ficar de frente para a Ásia e o maior mercado do mundo, a China. Tarauacá e Feijó concentram um potencial gigantesco na extração do látex. Apenas um seringal de Tarauacá, o Alagoas, tem capacidade para instalar 700 famílias de seringueiros.
Mas como se daria a atração dos migrantes do êxodo rural para esses locais?
Imagine uma fábrica de pneus de bicicleta instalada na região, utilizando a nossa matéria-prima abundante, com o objetivo de suprir as demandas chinesas, o país das bicicletas. Quando tivermos a infra-estrutura necessária [asfalto, energia, água, telefonia], não custará nada encomendar um estudo de custos. Nós entraremos com a matéria-prima e parte da mão-de-obra e eles entram com a tecnologia e os investimentos. Isso está sendo feito no mundo todo, o Acre também poderá fazê-lo. Será o nosso choque de capitalismo.
O que o senhor define como choque de capitalismo?
Se você olhar para o Acre vai descobrir que vivemos, aqui, um capitalismo de estado involuntário. A iniciativa privada, toda somada, representa uma parcela muito pequena do nosso PIB. Aqui, o nosso PIB é público. Os empresários não sabem o que é viver sem o guarda-chuva do Estado, não porque gostem ou queiram, mas porque precisam. Se você olhar mais longe, vai perceber que, daqui a 15, 20 anos, o Acre vai se tornar inviável. Se contássemos lá fora que 10% dos acreanos são funcionários públicos, ninguém acreditaria.