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Rio Branco - Acre, terça-feira, 14 de janeiro de 2003
Idéia luminosa

Francisco Dandão *

Projetar individualmente dez anos no futuro parece muitíssimo distante, quase na linha do horizonte, quase nunca, uma verdadeira eternidade disfarçada de finitude. Talvez por ninguém jamais saber o que vai acontecer no minuto seguinte, talvez por pura insegurança quanto ao que virá.

Olhar dez anos para trás, entretanto, parece quase nada, grão de areia na imensidão de uma orla oceânica, coisinha de nada, tantinho só. Um simples piscar de olhos, flash disparado na fração do instante, galope atropelado na escuridão da noite, “parece que foi ontem”, costumamos todos dizer.

As ilações esvoaçantes (como, de modo geral, é característica de todo e qualquer pensamento) me ocorrem por conta de uma conversa com o artista plástico Dalmir Ferreira, agitador da cena cultural acreana, eternamente inquieto, pensador em tempo integral dos mistérios da vida, esta e as outras.

Pois o Dalmir, filosofando sobre a velocidade com que atualmente se multiplicam os cabelos brancos no alto das nossas cabeças (só para ficar no local mais evidente), saiu-se com exata afirmação: “Dandão, eu acho que o que acelerou o tempo foi a energia elétrica e a invenção da lâmpada”.

Ao meu olhar indagador, procurando um apoio (mesmo que não muito firme) para a afirmação dele, o Dalmir continuou: “Quando não existia a lâmpada, a gente dormia cedo, ali pelas oito e meia da noite, e, por conseguinte, acordava antes de o sol sair. Vivia-se mais. O tempo passava mais devagar”.

O Dalmir, destaque-se, fala com conhecimento de causa. Nascido em 1952, no seringal Bom Destino, durante toda a infância esse nosso artista viveu sob a luz de lamparinas, candeeiros e aladins. Pode, neste sentido, gabar-se hoje de ter vivenciado duas épocas: antes e depois da eletricidade.

Não posso deixar de pensar em Santo Agostinho, que morreu e não conseguiu resolver o paradoxo do tempo. Ele, a propósito, costumava dizer que sabia exatamente o que era o tempo, desde que ninguém o mandasse definir. E dizia também que se lhe perguntassem ele já não saberia.

E nessas de Santo Agostinho, acabo por não resistir e, andando mais um pouco para trás, corro para a antiga Grécia (dizem as línguas que atualmente por lá só transitam turistas e ladrões), para as tragédias, o alvorecer do pensamento teórico, a oposição ao saber arcaico, cuja essência era o mito.

Para eles, o tempo se manifestava como um deus de duplo sentido, ambíguo: a criatura que estabelece a paternidade a todos os homens, mas, simultaneamente, os leva à inevitável destruição. Dá a vida, mas não deixa ninguém existir impunemente. Metafísica pura, mas vá lá que seja.

E nessas de transitar entre épocas (do alto da minha fantasia e credulidade eu nem preciso de máquina alguma que me transporte pelos séculos adentro), sempre tendo como marco o que já passou (e que também está escrito), deixo a Grécia antiga e dou uma espiada na Idade Média.

O tempo para eles? Um monstro provido de três cabeças (passado, presente e futuro), sempre em busca de abocanhar o próprio rabo (não sou eu quem o diz, está tudo nos compêndios, é só procurar), e dotado de quatro asas (as estações do ano), com plumas em número de doze (os meses).

Alegoria digna de Joãozinho Trinta, enredo de carnaval, avenida colorida, convidando Baco a uma evolução movida a embriaguez. Redemoinho avassalador que arrasta na passagem tudo o que encontra pela frente, folião despreocupado, profeta do Apocalipse ou circunspecto cientista.

Volto à teoria do Dalmir. E fico pensando que os gregos, toda a turma da Idade Média, Santo Agostinho e outros menos cotados que se preocuparam com o assunto deram muito azar. Não tinham uma lâmpada para acender sobre as suas cabeças quando lhes ocorria uma idéia. E por aí se perderam no tempo.

* fdandao@zipmail.com.br

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