
José Augusto Fontes *
Amanhã, de manhã, vou pedir aos deuses da ilusão que me permitam continuar tendo a visão da moça, com pernas de louça, belos dedos molhados e olhar dissimulado. Olhar que passava de mim, à toa, sem notar o outro, que o procurava. Com algum esforço, até um empurrãozinho, vou pedir para tê-la na minha rede, ao alcance do desejo, que já se mostra constante, até o próximo devaneio. Amanhã, de manhã, vou pedir aos céus muita chuva, para que ela prefira não ir embora. Vou pedir sorte, para que meu perfume agrade à bebida dela, enquanto a roupa pendurada, calada, apenas escute a música do nosso querer e continuar, do nosso duelo repetido, quase sangrento.
Hoje, quero apenas olhar, imaginar, sabendo que ainda não há muita chance, que não há acesso, que a louça é muito fina para colocar-se ao sem-modos, que estava mesmo, por agora, sem roteiro e sem direção. Sem enredo e sem modos para cercar e atacar. Caçador sem munição, ao lado da presa, depois atrás, dando voltas em torno de rostos que não mais interessavam, notando um insistente norte, que só apontava para o portão de saída, na busca de um amor mais antigo, enquanto não viesse amanhã. E a presa ali, enquanto isso não vinha, bem perto, dando a impressão de que poderia ser abatida, não fosse a falta de jeito. Espírito desarmado e expectativa ausente. A bebida não tem culpa, é certo. Refletir, ceder à razão. Contudo, custa pouco mudar para Campari, da cor da paixão. Lavar o peito com o encarnado gelado, deixá-lo cumprir sua missão. Por hoje, é só.
Mas amanhã, longe desta multidão, afastada de tantos olhares que a procuram e que a cegam de mim, poderei tê-la, se assim o acaso quiser, e se a ilusão entrar em campo com trajes de surpresa. Diria o poeta, um chute na rede do improvável. Mas ela virá, é quase certo, depois da próxima chuva. Se ela vier vestida para matar de amores, então que me abrace a morte lenta, que o sangue corra apressado, fugindo para suas cavernas de mistério, um pouco triste, morrendo com um amor tão breve, um pouco eufórico, embriagado de rock e gelo seco, já quase feliz. Um amor vermelho, lábios carnudos, sugando o Martini, engolindo a fantasia que não vinha de mim, mas isso ontem, porque daqui prá frente, tudo vai ser diferente.
Num amanhã desses, um raio vai desviar o olhar e o querer daquela moça e os trará para mim. Com cuidado, não quebrarei suas pernas de louça, que ainda passam e desfilam, sem notar a possibilidade, que estaria por chegar, se instalar e acontecer, para viver um grande amor. Qualquer dia desses, acordando sob o mesmo lençol, nós e o acaso que nos apresentou, vou pedir um café da manhã, vou pedir muita chuva, vou tragar aqueles lábios carnudos, vou fazer e acontecer, mas agora, preciso muito saber, onde posso encontrá-la? Preciso agarrá-la, pernas e lábios. Frente a frente, refeitos do susto de descobrir que fomos feitos sob encomenda, é possível encantá-la com palavras vãs que não meçam palavras, fantasia com bebidas vermelhas, amor com mentiras poéticas.
Navegar nas curvas virtuais, desvendar o e-mail, encontrar o endereço, resolver o desejo encarnado, freqüentar seu pensamento, estar na vontade dela, ser seu desejo constante, arrancar gemidos, suspiros, amanhã, conquistarei aqueles olhos, fazendo-os inertes, parados, estacionados na frente dos meus. Não passarão de mim, vou cravar estaca e selo. Aqueles dedos molhados no gelo do meu próximo copo, digitando meus segredos, deletando os limites. Vou dar as mãos para a senhora dos anéis e conduzi-la, com a varinha mágica, para a câmara secreta. Aconteceu, o acaso nos uniu, poções e magia, realidade dura, louça fina e delicada, com a vara e com afeto, retiro dos lábios um grito, uns gemidos. Penetro mistérios, a semente da paixão está depositada, é a pedra filosofal de um novo ser, acendo um cigarro. Tragamos juras de amor eterno, em nosso cálice de fogo. Devagar, a paixão escorre pelos lábios vermelhos, saciando a fantasia embriagada e a razão já sonolenta, enquanto esperamos por outro amanhã, que trará um novo grito.