
Moradores precisam se virar com
sacolas nos pés
e encaram a chuva como um tormento
Quando o céu anuncia tempo de chuva, Berenice Freitas inevitavelmente pensa: “Ai, meu Deus. Vai começar o tormento outra vez”. É assim desde que ela chegou no bairro Jorge Lavocat, há 6 anos. Vinda do interior do Estado, Berenice se mudou para Rio Branco na expectativa de encontrar um bom emprego e melhores condições de sobrevivência. Porém, na capital, tudo o que ela, o marido e a filha conseguiram foi uma casa de madeira apertada localizada num bairro abandonado pela prefeitura.
Para a família de Berenice, assim como para centenas de outras famílias que sobrevivem nos bairros periféricos de Rio Branco, o período de chuva é sinônimo de preocupação e até desespero.
“É um sufoco horrível. Desde que eu moro aqui, nunca vi fazerem nada para melhorar a situação do nosso bairro. O pior é saber que isso acontece em muitos outros lugares, e por vezes as pessoas nem conhecem essa situação. É realmente uma vergonha”, lamentou Berenice.
Para pegar ônibus, ir à escola, comprar comida ou até mesmo conversar com a vizinha, sapatos nos pés nem pensar. A lama grudenta e suja que toma conta das ruas sem asfalto obriga os moradores dos bairros a usarem sacolas nos pés para se protegerem ou então, a andarem descalços. Os sapatos, sempre seguros entre os dedos.
REFÉNS - Os problemas que afligem os bairros periféricos de Rio Branco são quase sempre o mesmo. Falta de água, falta de rede de esgoto, iluminação pública precária e inacessibilidade das ruas pela polícia e pelos caminhões de lixo. Na chuva, surge mais um: alagação. As poças invadem as casas tornando os moradores reféns do tempo.
“Quando começa a chover, eu corro para dentro de casa colocar meus móveis em lugares altos e cubro todos eles com plástico para não estragarem. Aí só nos resta esperar a chuva passar, porque esperar a boa vontade da prefeitura não dá mais”, disse Berenice.
Jovem entregador sofre no
trabalho com a chegada da chuva
O corpo magro e franzino nem parece capaz de carregar mais de 20 quilos nas costas diariamente. Mas Jone Xavier de Souza, de 16 anos, carrega. Ele trabalha há mais de três meses como entregador de botijão de gás, galão de água e compras para os moradores do bairro Montanhês.
O trabalho lhe rende 40 reais por mês além de muito cansaço. Andando de um lado para o outro todo o dia, levando e trazendo compras, botijão vazio e cheio, Jone não pode nem contar com a ajuda de sua bicicleta para fazer o trabalho nesse período. Ele explica: com a chuva, as rodas da bicicleta afundam e não andam.
“O jeito é mesmo carregar as coisas a pé”, conformou-se o jovem. Sem sapatos, ele percorre as ruas repletas de barro como se já conhecesse cada buraco. Na lama, ele aproveita para lavar o barro acumulado nas pernas. “Tive que me acostumar com esse trabalho. É dele que eu tiro um dinheirinho para ajudar minha casa”, disse Jone.
Mesmo com os passos cautelosos como se já conhecesse cada metro das ruas alagadas, o jovem entregador conta que já sofreu muitos acidentes durante o trabalho. “Caí muitas vezes e me machuquei bastante. Uma vez quase quebrei a perna porque estava com um botijão na cabeça. Mas não posso parar”.
Ônibus modificam rotas de
circulação por causa dos buracos
Como se não bastasse a dificuldade do percurso a pé pelos bairros periféricos durante o período invernoso, a chuva que invadiu a cidade ontem impediu a circulação normal do meio de transporte mais utilizado pelos moradores. Os ônibus que circulam na rua principal e percorrem outras ruelas do bairro precisam desviar seu percurso normal para evitarem o desgaste do veículo.
Temendo um estrago maior e um possível desconto de salário caso danifiquem o veículo pelo qual estão responsáveis, os motoristas das linhas de ônibus da periferia da capital desviam de sua rota diária, obrigando moradores a percorrerem longos trajetos a pé para alcança-lo.
“Nessa época a gente precisa andar pelas ruas com muito cuidado. A prefeitura tem que colocar asfalto e não barro o tempo todo, como fazem hoje. Quando chove, quando a gente passa por qualquer buraco, a mola do ônibus já era, e o conserto sempre é descontado no nosso salário”, afirmou o motorista da linha Alto Alegre, Hermilson de Lima Silva.
E os buracos não impedem apenas a passagem de veículos. Com profundidade desconhecida, os moradores dos bairros também não se arriscam a passar pela cratera.
Famílias sonham em se mudar de casa
Há sete anos, Maria de Nazaré da Silva achava que estaria realizando um dos maiores sonhos de sua vida: a compra da casa própria. Depois de muito trabalho em casas de famílias como empregada doméstica, ela e o marido se mudaram para o bairro Tancredo Neves, numa casa de madeira simples, mas sem aluguel. Hoje, o que seria o sonho realizado, se transformou num tormento.
“Me enganaram. Quando me venderam a casa, disseram que aqui não alagava mas ano passado teve um temporal forte e a água tomou conta de toda a casa. Perdi um colchão, um liquidificador e o sofá ficaram totalmente estragados”, lamentou Nazaré. Segundo a moradora, a alagação é ainda pior por causa do esgoto aberto que há meses está sem reforma. “O cheiro fica insuportável”, afirmou.
Hoje, tudo o que Maria de Nazaré sonha é com a venda da casa e uma mudança para outro bairro melhor estruturado. “Meu sonho é poder me sentir segura numa casa. Quero ir embora daqui. Eu, meu marido e minha filha de quatro anos que não sai de casa por causa da sujeira que toma conta das ruas nessa época”.
Ano letivo de crianças é prejudicado com o aguaceiro
A chuva que durou toda a madrugada e manhã de ontem ilhou centenas de rio-branquenses em casa. Sair só mesmo em caso de extrema necessidade. Nas condições das ruas invadidas pelo lamaçal, as crianças costumam ser uma das principais prejudicadas. As poças tornam-se uma ameaça para as brincadeiras e o caminho de barro e lama muitas vezes impede o percurso a pé de casa até a escola.
“Minha filha estava cursando a primeira série, mas perdeu o ano por causa da chuva”, lamentou Luzia Nonato da Silva, moradora do bairro Jorge Lavocat. Sua filha estuda no Montanhês e, segundo Luzia, costuma levar meia hora para chegar até a escola. “Como ela vai andar sozinha e descalça nessas ruas alagadas? Não tem condições. É até perigoso”.
Simone Freitas de Souza, de 18 anos, também desistiu de terminar o Ensino Médio no ano passado. Para ela, o empecilho não foi o trajeto, mas a necessidade de ficar em casa cuidando dos pertences para não ficarem encharcados.
“Aqui em casa, quando dá uma chuva mais forte, precisamos ficar o tempo todo atentos nas goteiras do telhado”, afirmou. “Eu pretendia prestar o vestibular para Jornalismo neste ano, mas na casa onde estou, não tive condições para isso. Quem sabe ano que vem...”.