© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, sexta-feira, 17 de janeiro de 2003
Vida e morte na Idade dos Extremos

Como a caça às bruxas tornou-se um dos
mecanismos medievais de dominação sociopolítica

Fabiano Pacheco

O que diria uma pessoa comum nos dias atuais ao presenciar o julgamento de uma serie de indivíduos acusados de bruxaria? Ou pior como reagiriam ao vê-los um a um sendo queimados em fogueiras ou enforcados e decapitados?

Certa manhã uma garota acorda após uma noite atordoada, perturbada por terríveis pesadelos, sonhara que a senhora sua mãe, uma mulher pacata viúva de uma única filha, cujas posses se estabeleciam com uma vasta área de terra situada em uma cidadela, era repentinamente acusada de praticar bruxaria.

No sonho a menina não entendia o porque de tudo aquilo já que sua mãe foi sempre tão boa, inclusive há poucos dias cedera parte de suas terras para a igreja. Na cidade todos comentavam os fatos e todos por uma só voz espalhavam o boato, logo vieram alguns homens pareciam padres, todos vestiam preto. Levaram-na.

Em um segundo momento do sonho a garota via sua mãe sendo castigada, diante da população, os homens de preto exigiam que ela confessasse algo... é queriam que ela admitisse o fato de estar praticando rituais de magia negra, e ela relutava em dizer não. Julgaram-na bruxa, como sentença a morte... A garota chorava escondida... A população gritava bruxa! morte! morte a bruxa.

A menina acorda assustada se recupera aos poucos e comenta: “Que sonho maluco. Onde já se viu julgar alguém dessa forma?”

Pois bem, o fato supracitado atualmente pode ser tido como impossível de ser aceito, mais nem sempre foi assim, o que acima é julgado anormal no mundo contemporâneo, seria justo no período determinado pela eqüidistância entre o século IV e XVI o tempo dos extremos, a idade média.

Espiritualidade exacerbada para solapar cidadania

Para melhor entendimento desse período, se faz necessário estabelecer relações que perpassam pelo conhecimento da real intenção da personalidades que viviam naquela época.
Primeiramente convém direcionar o raciocínio a algo interessante nessa relação a “espiritualidade exacerbada” da fase, a tida prioridade do espírito com relação as condições terrenas, a igreja seguindo esse pensamento se estabelecia como mantedora da ordem de seus princípios e justiça, o caráter de dar a cada um aquilo que é seu, claro que de acordo com seus dogmas, a faculdade de julgar o direito e melhor consciência, o poder conquistado pela hegemonia do saber.

A nobreza neste contexto também exercia seu papel dominador, detentora de títulos subjugava a todos, os filhos dos nobres estudavam em mosteiros, e com passar dos anos se tornavam sacerdotes passando a compor o alto clero os demais pontífices... bom os demais não eram grande coisa, nesses também era comum observar o teor vingativo, o castigo pela infidelidade ou aqueles que ousassem desobedecer, a promoção da reparação a todo custo, o senso de justiça mesmo que em algumas situações injusto.

Se na idade média por um lado existiam a exuberante riqueza, o poder e a maledicência, por outro existiam a miséria, a ignorância e a passividade, o rei, os nobres e a igreja em detrimento de todo o resto, a união da autoridade, influência, repressão, ponderação em síntese o domínio. Em traçado paralelo se via a ingenuidade plena demonstrados pela crença, evidenciado por grandes manifestações de fé e atribuição do inexplicável a um ser supremo, divino e a malícia e esperteza, a perversidade, a racionalidade constituída pelo saber.

Maniqueísmo contaminava até políticas públicas

A era sem meios termos. Assim pode ser definida a idade média. A divisão de um todo marcante entre os extremos, a abstração do conhecimento contida por poucos, a justiça e a injustiça, a vida e a morte, o povo e a igreja, o divino e o profano, o bem e o mal, a difusão do cristianismo, da fé na santa igreja católica, da libertação do espírito pela comercialização da vida eterna e o monopólio do conhecimento, da ciência.

Cabe então aqui entender a apropriação indevida “de alguns poucos” da capacidade de compreender o mundo e perceber como as coisas se processam.

Tudo no período medieval possuía um sentido, uma significância as cores, os símbolos, as orações, os rituais, os sons tudo envolvia favores e retribuições, os mínimos detalhes mostravam-se relevantes.

Foram tiradas lições importantes desse período algumas não mais repetidas outras permanecem viva ainda hoje... a idade interessante... a idade da consistência de ideais... a idade dos extremos.

A grande pergunta então é: existe grande diferença entre a idade medieval e os dias atuais? Ao ligar a televisão todos os dias o que ver o homem da atualidade? Atrocidades... mortes... violência e qual a reação? Espanto, medo, indignação? Pode ate ocorrer tais reações mais que não tiram os olhos isto é verdade parecem enfetiçados entram em êxtase.

* Enfermeiro e aluno do 2° período do curso
de História noturno da Universidade Federal do Acre.

Colunas
Cotidiano
Expediente
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal