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Rio Branco - Acre, sábado, 18 de janeiro de 2003
Jorge Tufic

Escritor acreano de renome nacional quer firmar convênio com poetas do Estado

De Fortaleza (CE), Rose Farias

Romancista, contista, ensaísta, historiador e poeta, o premiado escritor acreano Jorge Tufic é o personagem principal desse feliz encontro, para felicidade dos que amam as letras. Tufic reside em Fortaleza há 11 anos.

A equipe de reportagem foi encontrar o versátil escritor para um tête-à-tête, num apartamento localizado no centro da capital cearense. Chegamos para a entrevista no horário combinado, às 9h15, do último dia 14. Ficamos aguardando na sala de espera, enquanto Tufic se preparava para a entrevista.

Logo em seguida o escritor acreano adentrou pela sala trajando uma alinhada e simples vestimenta e carregando nas mãos algumas de suas publicações, - ao todo são mais de quarenta, algumas com edições esgotadas. Cumprimentamo-nos e Tufic, rodeado por um ar calmo, passou a autografar seus livros para nos presentear.

Aos poucos estendemos a conversa. Tufic, com uma voz pausada, foi manifestando ares de saudosismo pelo Acre e lançando a idéia, entre tantos projetos, de realizar um intercâmbio literário com escritores acreanos, um propósito que o persegue há anos e que, segundo o escritor, esse talvez venha ser o momento de amadurecê-lo.

Jorge Tufic nasceu em Sena Madureira, em 1930. Fez sua formação literária em Manaus, onde, em 1954, ajudou a fundar o Clube da Madrugada. É jornalista profissional e estreou nas letras com o livro de poemas Varanda dos Pássaros. Depois vieram Pequena Antologia Madrugada, Chão sem Mácula, Faturação do Ócio e Poesia Reunida.

Na prosa de ficção constam títulos como O Outro Lado do Rio das Lágrimas (contos), Os Filhos do Terremoto (contos) e Existe uma Literatura Amazonense? (ensaios), entre outros. Sua última publicação intitula-se Curso de Arte Poética (edições Livro Técnico). No livro, Tufic, além de mostrar sua criação, também ensina.

O livro é um roteiro técnico, no qual o poeta abre com a disciplina dessana e tukana, algo que vem da sua meninice assimilado nos igarapés acreanos.

O escritor, em entrevista ao jornal Página 20, fala sobre a ‘centelha’, o início de sua inspiração poética, que, segundo ele, deu-se aos cinco anos em Sena Madureira. E comenta sobre o momento que vive a poesia no Brasil e de sua vontade de retornar ao Acre para realizar um projeto literário com escritores acreanos, entre outras considerações sobre criação poética.

Como aconteceu o seu encontro com a criação poética?

A centelha que deflagra o resto deve ter começado ali mesmo em Sena Madureira, com a chegada dos soldados da borracha. Naquele tempo eu tinha uns cinco anos de idade, em 1935. Eu costumava ficar ouvindo os desafios e a primeira coisa que entrou na minha cabeça foi exatamente o ritmo da trova do desafio, o galope à beira-mar. Isso deve ter ressurgido depois em Manaus, em 1945.

Deflagrou o ritmo da criação poética?

De repente caiu em minhas mãos um suplemento literário onde constava um soneto ‘branco’, de Cecília Meireles. Li aquilo e fiquei empolgado. E no Mercado Municipal de Manaus circulavam famosos fiscais da prefeitura. Conhecia todos e me dava muito bem com um deles, que era um intelectual. Ele me surpreendeu lendo aquele suplemento literário e ficou assustado: ‘Menino, você entende isso?’. E eu falei logo: ‘Não somente entendo, como gostei dessa poesia’. E ele me desafiou logo: ‘E você é capaz de escrever uma igual?’. Ousei logo: ‘Igual não, vou escrever uma diferente’. Ele puxou do bolso uma caneta-tinteiro: ‘Então, tá aqui, quando voltar quero ver o que você escreveu. Isso é um soneto, hein?’. Na verdade, quando ele voltou eu tinha escrito o meu primeiro soneto, dedicado a Cecília Meireles. Ele pegou, enrolou e botou no bolso. Não tenho esse escrito. Tudo começou por aí.

E os livros?

Já em 1946 tinha um livro inédito, mas que não passou disso. Alguém pegou e disse: ‘Isso é uma mixórdia, uma mistura de tanta coisa, não é poesia’. Então queimei. Depois as coisas foram acontecendo e houve o encontro com a turma do Clube da Madrugada. Muitos estavam voltando do Sul do país. Reuni meu primeiro livro em 1952 e foi publicado somente em 1956. A dificuldade era grande de publicar. Foi assim que comecei...

Quantas publicações se somam ao seu acervo poético?

Umas 42 - crônicas, contos, ensaios, até paradidáticos, hai-kais. E preponderam muitos sonetos.

Como o senhor define o seu trabalho? É uma mistura. Tem um pouco das origens libanesas, a infância em Sena Madureira, o Acre?

Essas reminiscências subliminares de origem e essas memórias e reminiscências também do Acre estão, por exemplo, num livro que se intitula a Casa do Tempo. De forma que tudo volta e está subjacente. E agora ultimamente estou publicando e escrevendo alguma coisa que vou intitular de ‘Diarinho do Zé’, tudo é de Sena Madureira, está tudo ali na beira do barranco, no coreto, é uma recolha exatamente de coisas perdidas na memória. Isso pesa muito. O passado, como dizia o Camilo Peçanha, é alguma coisa que ninguém pode se livrar dele: ‘Trago um cadáver podre às minhas costas’. Esse é o passado, mas com uma diferença: que não considero podre (risos).

É uma inspiração?

Sim. E como!

O senhor retornou ao Acre?

Em 1967e 1988. Em 67 fui a serviço do Ministério do Trabalho e dei uma esticada até Sena Madureira. Em 88, também a serviço, fui a Sena Madureira. E tive o prazer de conhecer o Chico Mendes, em Rio Branco, mas infelizmente foi o ano em que ele foi assassinado. Tiramos uma foto, que se perdeu. É o que mais lamento essa foto com o Chico Mendes ter escapado das minhas mãos.

E o trabalho de criação poética em Fortaleza?

Existem muitos valores. A fermentação cultural é grande, mas tudo limitado pelo meio, pela falta de leitores e apoio à cultura.

É algo de Brasil.

Sim. Em todo o Brasil. Tudo é igual, com algumas diferenças. Mas, no fundo e na forma, o carrossel é o mesmo.

É lamentável, pois temos tantos talentos, isso em todas as artes, mas o incentivo é quase nada.

É muito precário. Hoje, felizmente, posso lhe dizer que qualquer texto meu que queira publicar às expensas de uma editora, eu consigo. Mas hoje, depois de 70 anos. Sem parar. Esse último livro, Curso de Arte Poética, não foi preciso nada. Passei para o Sérgio Braga, que é dono de uma rede de livrarias aqui em Fortaleza. Ele disse: ‘Vai ser publicado agora mesmo’. Em 11 anos de Fortaleza já publiquei uns sete livros.

O brasileiro lê pouco. E poesia principalmente, que é algo mais refinado e raro. E o incentivo à leitura fica à mercê. Que análise o senhor tira dessa realidade? Houve algum avanço?

Proporcionalmente continua igual em número de leitores. Cresceu muito foi o número de poetas. Após a Semana de 22, com a abertura e a queda dos cânones tradicionais, a poesia se popularizou, o que facilitou o surgimento de poetas. Até hoje existe uma abundância, mas que na verdade não são poetas, tudo pela facilidade de escrever e jogar como o verso. Como é um gênero subjetivo, pode ser enigmático, hermético, onde somente o poeta entende. A poesia, como expliquei no livro Curso de Arte Poética, abriu para tudo, para o hermético, para aquele que joga com as palavras, para o marginal, foi muito boa essa abertura, mas é bem mais difícil a seleção de bons poetas e de leitores também. Continua mais ou menos na mesma, com a população muito maior, um Brasil também, um mundo muito maior, por isso a poesia devia ter um espaço bem maior.

Existe uma receita para essa mudança?

Bem, a receita é exatamente política, para ver se isso muda por meio da educação e da cultura. Pelo menos que venha para a cultura a metade do apoio que vai para o esporte, predominantemente o futebol. Quando se fala em esporte no Brasil, só se lembram do futebol, mas existem cinco mil outras modalidades. Até aí vemos a discriminação.

E para a criação poética existe uma receita?

Não. Escrever é um ato entre você e você mesmo e Deus. É um momento muito difícil, a gente não sabe definir nem o que escreve quando não é o momento, quando não se está sobre aquele estado de graça.

Quando ela acontece?

A qualquer momento. Numa mesa de bar, de madrugada. Normalmente quando você está inquieto, angustiado, bebe e não vê o resultado, e você vai embora, volta, senta, escreve e está pronto. É tipo um parto difícil que quer sair, mas que a gente não dá atenção. De repente senta, as coisas vão nascendo e tudo vai ficando aliviado.

E poesia?

Poesia é um atributo da sensibilidade. Sentir e perceber o mundo que nos cerca como um fenômeno que necessita definir-se por uma linguagem poética, por um código rico de sugestões interiores, por uma linguagem indireta. Talvez não seja privilégio de ninguém, mas representa um aviso a que nunca se deve ficar indiferente.

Isso o conduziu aos versos poéticos?

Sim. Porque todos os meus caminhos sempre foram diferentes do caminho que conduz à literatura. Um grande esforço me colocou frente à frente com essa opção pelas letras. Tive que fazer muitos sacrifícios para poder me dedicar à leitura dos grandes poetas.

Esse encontro se deu como?

Ainda muito jovem sempre gostei de ler poesia. Gostava de recortar e guardar sonetos, poemas, quadrinhas e outros gêneros da arte. Ninguém começa fazendo essas coisas assim de estalo. Os nossos primeiros versos são geralmente trôpegos, carentes de sentido e até meio ridículos. Ninguém nasce sabendo o vocabulário do nosso idioma e é da língua que depende uma boa literatura. O conhecimento do idioma pátrio é uma condição essencial para o escritor dominar sua linguagem própria e formar seu estilo pessoal.

Como o senhor definiria o seu estilo?

Se me perguntam pelos poemas de amor, direi que se foram na voragem dos tempos, sem nunca terem sido publicados, salvo alguns, quando tinha meus 16 anos. Me refiro à poesia de amor romântico, produzida por alguma paixão pelo sexo oposto. Com o passar dos dias, meus poemas foram adquirindo os subsídios da experiência verbal e metafísica, tornaram-se muitas vezes herméticos, outras vezes simples demais, mas sempre concebidos por uma grande necessidade de escrever, de comunicar.

E os temas?

A vida, os momentos que passam, a juventude e a morte são os temas que me impressionam. Uma casa antiga, uma ponte solitária, uma rua deserta, tudo quanto se deixa envolver pela solidão e pelo mistério motiva para mim a necessidade de fixar alguma coisa no papel. Nem sempre, contudo, as palavras traduzem poesia. No entanto, só o gesto de perseguir uma forma cheia de conteúdo poético me deixa satisfeito. Porque a matéria-prima do poeta é a palavra. E nem todas as vezes a poesia se deixa revelar por meio das palavras.

O senhor pensa em voltar ao Acre?

Sim, a passeio. Algo bem demorado, ver tudo com os olhos de hoje. Isso é que é bonito.

E a história do intercâmbio com os escritores e poetas acreanos?

Gostaria muito de firmar esse projeto. Nós aqui podemos divulgar a poesia acreana e seria interessante também que nosso trabalho fosse divulgado no Acre. Uma das pessoas que não nos esquece é o Clodomir Monteiro e nós também não o esquecemos. Ele é um poeta que dentro de uma determinada escola fez algo primoroso. É autor de um livro muito bom, que ele levou às últimas conseqüências utilizando os últimos recursos fônicos e fonéticos da poesia. É muito bonita a poesia dele. Ele poderia ser uma das pessoas para firmamos o intercâmbio.

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