
Elson Martins *
Eu cultivo a mania de guardar papéis impressos, novos e velhos, embora saiba que isso caiu de moda nestes tempos eletrônicos e virtuais. Os novos jornalistas, na maioria, consideram isso bobagem e perda de tempo.“Está tudo na Internet”, argumentam, com um indisfarçável gesto de mofa. Eles podem estar com a razão, até porque são hábeis internautas e navegam na web com a desenvoltura que eu não possuo. Em outros textos, já publicados, expliquei como me atrapalho e ao mesmo tempo mantenho cisma com a modernidade da comunicação global. Perco muito tempo (perco?) com meus alfarrábios, a maior parte amarelada e roída pelos cupins, mas de vez em quando descubro preciosidades que não estão na memória dos portais eletrônicos de nenhuma parte do mundo.
Dou como exemplo o maravilhoso livrinho “Os Cantares Seringueiros”, que reúne poemas do nordestino/cruzeirense Amâncio Leite. Possuo um exemplar de uma edição restrita feita pela Universidade Federal do Acre em 1977. Ganhei de presente da Leila Jalul, uma acreana que sabia valorizar as coisas da sua terra e curtia a vida com alegria irradiante. Desse livrinho, editado originalmente em 1930 nas oficinas de “O Rebate”, o bravo e histórico jornal editado por João Mariano em Cruzeiro do Sul, reproduzi versos de Amâncio Leite na revista “Outraspalavras”. Eram versos de humor fino e alto valor sociológico sobre um seringueiro que se deparou com o Mapinguari.
O livro é inteiro uma preciosidade que devia ser reeditado e espalhado pelos seringais, bibliotecas, botecos, batelões, tapiris e mais onde possa se encontrar uma viv’alma no embrenhado das matas e nas cabeceiras dos rios. É florestania pura, sentimento com gosto de rapadura e mandi frito que se come numa cuia com chibé. O próprio Amâncio, que foi seringueiro, guarda-livros e depois fez literatura na cidade, modestamente, imaginou que a sua obra iria ter uma vida acanhada nos centros urbanos: “Eu bem sei que estes Cantares/ Nada levam de elegantes.../Pois são violas gementes...O’ meu livrinho, jamais/ Te acolherão as estantes”!
Mas sabia que podia contar com uma clientela imensa afeita ao seu linguajar, aquela que vivia nas matas acreanas e guardava a memória apaixonada dos sertões nordestinos: “Tu vais ser lido...por aquele ignorante/De qualquer literatura.../Que foi criado com queijo,/ Carne assada e rapadura.../Por quem tem Silva no nome/E acredita em lobisomem.../E contente, feijão come/Temperado sem gordura”!
Até aí Amâncio estava pensando nos hábitos nordestinos. Mas o livrinho seria lido também “Por aquele seringueiro/Da paragem mais remota.../Que nunca foi à cidade,/E chama a esquerda canhota/E acha amargosa a cerveja.../E nunca entrou numa igreja/Nem da vila sertaneja/Nem seu pé, já calçou bota”!
Quando ouço o governador Jorge Viana falar em “reinvenção” do Governo da Floresta, penso que um caminho é desencavar essas coisas lindas e fortes que nossos antepassados construíram enquanto construíam o Acre. De certa forma, eles reinventaram a sociedade e tiveram que reinventa-la porque, como escreveu outro poeta nordestino/amazônida, o Abguar Bastos, os que saíram dos sertões para a Amazônia “mudaram da seca para o dilúvio”. E para sobreviver, precisaram reaprender tudo: uma tarefa para cabras-machos. Como era preciso ser muito macho para sobreviver aos processos exploratórios da borracha conduzidos pelo capital internacional.
Teses de mestrado e de doutorado dissecando essa exploração
existem muitas, mas conhecemos pouco da força social, antropológica
e cultural que os povos de floresta desenvolveram ao ponto de impor Chico
Mendes, Marina Silva, Jorge Viana e tantos outros filhos da floresta ao mundo.
Esse, na minha opinião, é um veio inexplorado de onde podemos
extrair uma riqueza humana nova e original que pode nos proporcionar felicidade
e auto-estima. Creio que estaremos reinventando muita coisa se nos preocuparmos
menos em seguir a risca realidades tão diferentes da nossa e se nos
contentarmos, orgulhosos, com o que aprendemos a sentir e fazer vivenciando
a natureza.
Bem ensina o poeta Amâncio Leite quando ordena ao seu livrinho:
“Vai! Meu livrinho querido, /Para longe das cidades/Divertir os seringueiros/Com as tuas simplicidades.../Lá, de certo, serão lidas/Estas páginas sentidas/Onde as matas são batidas/Por terríveis tempestades...
“Lá! O’ filho de minh’alma,/Nos recessos do sertão/Tu vais ter muitos amigos/Desde a choça ao barracão./Nos lares dos extratores/Vais ter alguns amadores.../Ter centenas de leitores/E por estante – um caixão”.