
Esta semana, mais precisamente no dia 24, o Acre comemora os cem anos da vitória dos revolucionários acreanos frente ao exército boliviano em Porto Acre. Por isso, hoje deixaremos ao próprio Plácido de Castro a tarefa de contar o que aconteceu durante esse combate transcrevendo um trecho do livro de Genesco de Castro que traz alguns apontamentos do Comandante em chefe do exército acreano. Durante a próxima semana traremos outras informações acerca da importância e do significado do combate de Porto Acre para a longa revolução que tomou conta dos altos rios há um século atrás. Assim poderemos lembrar e homenagear os muitos homens e mulheres anônimos que deram sua vida por uma terra que nunca chegariam a possuir, mas que não deixaria jamais de ser nossa como eles ousaram sonhar um dia.
Comando em Chefe do Exercito
do Estado Independente do Acre
ORDEM DO DIA N.1
Ao romper d’alva do dia 15 do corrente o Exercito Revolucionário marchava de acordo com o plano de ataque previamente assentado, quando, ás 8 e meia horas da manhã, uma descarga uniforme de fuzilaria, pelo lado de baixo, inaugurou o ataque de Porto Acre, sendo incontinente secundada pela linha de atiradores da margem direita do rio, comandada dignamente pelo Coronel Hyppolito Moreira.
O inimigo previamente preparado coroou de fuzis a eminência que dominava, dirigindo seus fogos para a linha de baixo e para a da margem direita, quando subitamente recebe uma saudação do batalhão revolucionário comandado pelo Tenente Coronel Brandão, que acabava de estender linha de atiradores pela parte de cima.
Nesse momento mandei executar o toque de carga para a brigada e confesso que senti passar por toda a linha revolucionaria uma corrente elétrica, derramando em cada cidadão um entusiasmo que só se aninha nos corações daqueles que, cegos ao próprio instinto de conservação, envolvem-se no manto das mais nobres e generosas utopias, dele fazendo, muitas vezes, a sua gloriosa mortalha.
A passo acelerado, o circulo de fogo dos nossos atiradores diminuía rapidamente de diâmetro, chegando com 20 minutos a avançar á mínima distancia a que podia chegar em campo limpo diante das trincheiras inimigas, sem um grande sacrifício de vidas improfícuo. Nesse ponto a linha inteira deitou corpos, esperando a noite para matar a sede ardente e a fome, que já nos oprimiam, e, sobretudo, pensar os feridos e sepultar os que haviam sacrificado a vida no sagrado altar da liberdade; figurando entre estes três oficiais da fina flor do exercito, os Tenentes José Faustino, João Ferreira e Leopoldo, todos feridos em cheio, na fronte, como si a própria morte os quisesse ferir no lugar onde os heróis recebem a coroa.
A noite inteira foi consumida num trabalho insano, porém, na manhã seguinte todos se achavam entrincheirados. Até o dia 18 ás seis e meia da manhã, sitiados e sitiantes disputavam a palma da vitória. Nessa manhã, um tanto brumosa, forcei a passagem do porto, a bordo do vapor “Independência”, armado em guerra, cuja direção náutica confiei ao Senhor Piloto João Correia, assumindo eu em pessoa a direção das baterias.
Á manobra da volta de “Porto Acre”, sucedeu a primeira descarga da fuzilaria de bordo que foi também sinal aos sitiantes, já prevenidos, que romperam, a um só tempo, mortífero fogo sobre o inimigo.
Os vivas entusiastas irromperam por todas as nossas linhas com o luminoso rufar da fuzilaria. Os atiradores de bordo tanto atiravam como soltavam gritos de cego entusiasmo; o corneteiro tocava marchas de guerra; enfim, o navio apitando sem interrupção, — formavam o conjunto de uma verdadeira orquestra guerreira.
A perspectiva que apresentava Porto Acre, circunscrito por uma grinalda de fumo, ornada aqui e ali pelas nossas bandeiras, parecia dar a nota mais bela desse quadro sublime que poucas vezes nos é dado apreciar e que, apesar de se nos apresentar empolgante, seria talvez apreciado com horror por um observador calmo e alheio ás paixões que nos levaram a levantar a bandeira separatista.
O vapor passou. Pela tarde de 23 de Janeiro foram erguidas pelos sitiados, bandeiras brancas em torno de suas trincheiras, sendo incontinente suspensas as hostilidades por ambas as partes.
Como emissário do Delegado boliviano, apresentou-se-me o Dr. Santivañez pedindo, em nome daquele, uma suspensão de hostilidades para sepultar os mortos, ao que me neguei porque compreendi que outra era a intenção do inimigo.
O emissário voltou, rompendo em seguida, novamente, as hostilidades.
Sem diminuir o valor e a dedicação de muitos, devo agradecer a abnegação de alguns oficiais que, como o tenente-coronel Brandão e Majores Daniel e Andrelino, entraram para suas trincheiras e suportando a ação de um sol abrasador e noites chuvosas, só as abandonaram quando puderam erguer a nossa bandeira, já vitoriosa. Decidido amor a revolução mostraram também outros, como o tenente-coronel José Antônio e o Major Basilio de Lyra. Enfim, revelaram também notável bravura o Capitão Salinas e os três inditosos Tenentes finados no primeiro dia de ataque, mas, sobre todos, o Sargento José Barros que encarnou em sua nobre alma toda a dedicação revolucionaria, indo como que alucinado por sua fé, morrer sobre o parapeito das trincheiras inimigas, ficando o seu nome para nós como um sinônimo de abnegação e bravura.
Longe iria a lista desses abnegados, si os tivesse de nomear um por um, mas, passemos adiante.
O sol de 24 de Janeiro apareceu através de espessa cerração, mostrando-nos inúmeras bandeiras brancas circundando as trincheiras inimigas.
Momentos após, 7 horas da manhã, o mesmo emissário do inimigo vinha propor a rendição da praça, sob condições que este comando retificou, reduzindo os oito artigos de que constava a dois somente, que são os que constituem a ata de capitulação firmada algumas horas depois.
No momento em que o Delegado boliviano me comunicava que estava a força as minhas ordens para a cerimonia da entrega das armas, fiz-lhe ver e aos oficiais superiores, que sendo o nosso intuito conseguir a independência do Acre, como uma condição da nossa liberdade, outra cousa não aspirávamos senão a sua realização e que, quanto ás aparatosas cerimonias em tais momentos usadas pelos principais países do mundo, não satisfaziam o nosso espirito, visto que no meu pensar serviam mais para aumentar o infortúnio dos já infortunados pela derrota, com os quais o vencedor nobre devia ser generoso. Assim procedendo, pensei interpretar os sentimentos dos meus concidadãos e, sobretudo, dos meus comandados, que mais de uma vez tem demonstrado para com o vencido a grande delicadeza de seus nobres sentimentos.
Porto Acre está tomado, e o mesmo sol que iluminou esta vitória ha de iluminar a vitória final, que será o reconhecimento da nossa soberania como Estado Independente do Acre.
Viva a Revolução!
Viva a almejada independência!
Porto Acre, 30 de Janeiro de 1903.
(Assinado) J. Plácido de Castro.
* Á pagina 207, do “Campañas del Acre”, diz o Sr. Azcui, tratando deste combate: El valor y serenidad de los contendores, caracteriza el seguinte pasaje. El 17 por la noche a horas 9 p. m., en un momento de tregua que sobrevino después de un continuo y incesante câmbio de fuegos entre las filas combatientes, uno de los nuestros, al saber que en grupo contrario estada el artista Avilio, empleado de Joaquim Victor, le grita en portuguez: “Abi]io (*), face el favor de tocar su flauta”.
— Bon, contesta el aludido, y les obsequia con la «Siciliana» ejecutada con maestria y sentimiento musical y escuchada por ambos contendores con silencioso recogimiento. Al finalizar, la bestia humana recobra sus brios y se reanuda el combate con mayor impeto.”
Transcrição das páginas 77 a 79 do livro O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro, Rio Branco, Fundação Cultural, 1998 - Genesco de Castro