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Rio Branco - Acre, terça-feira, 21 de janeiro de 2003
Conversas na redação

Francisco Dandão *

Josafá Batista, o atual editor-chefe do Página 20, e eu costumamos conversar longos minutos, no fechamento das diversas edições, sempre depois das 21 horas. No papo rola de tudo, principalmente assuntos que a gente pouco ou nada entende, como nanotecnologia e mecânica quântica.

Os diagramadores Rodrigo Torres e Fernando Castro se divertem. Eternamente gozadores, fingem que não estão escutando, mas disparam a rir quando as nossas teorias (minhas e do Josafá) enveredam pelo lado do absurdo. “Esses caras ainda vão sair daqui direto para o hospício”, costumam dizer.

O Josafá, barba sempre por fazer, olhos vermelhos e ar introspectivo, carregando para todos os lados uma espécie de mochila cheia de livros e papéis, apesar de ainda não ter criado coragem de freqüentar um curso superior, é um sujeito que lê compulsivamente tudo que lhe cai às mãos.

Quanto a mim, não creio que eu pudesse pintar um bom auto-retrato sem exagerar ou esmaecer os tons (além do quê, o espelho me mostra uma imagem sempre invertida). Mas, tal qual o meu parceiro de devaneios de final de expediente, também sou muito chegado a uma leitura (qualquer que seja).

Um dia desses atrás (dia para a frente só na melhor ficção do cinema hollywoodiano, salvo melhor juízo), para completar o quadro de conversadores de abobrinhas pouco aproveitáveis, deixamos de ser uma dupla e passamos a ser um trio, com a presença do Marcos Vinícius, o historiador.

Nesse dia, eu vou dizer uma coisa: os dois diagramadores quase têm um troço. Lá pelas tantas, dividindo linhas tortas nas páginas e escrevendo títulos faltando letras, o Fernando não resistiu e sapecou: “A cachaça que esses caras beberam de ontem pra hoje só podia estar estragada”.

A conversa nesse dia foi, realmente, pesada. Teorias sobre a ética dos dinossauros, os códigos de comportamento dos indivíduos de acordo com a carga genética recessiva após a ingestão de ervilhas bombardeadas por raios laser e até, pasmem, especulações sobre a clonagem de anjos caídos.

O tema da ética dos dinossauros, eu me lembro bem, quem levantou foi justamente o Josafá. Para ele, o mundo perdeu demais com o meteoro assassino que extinguiu os referidos bichinhos. Não fosse isso, segundo o editor, os humanos não estariam hoje por aqui fazendo tantas bobagens.

De certa forma, embora eu prefira ter nascido gente, depois de passar nove meses num útero aconchegante, a ter saído de um ovo e viver com aqueles dentes todos estraçalhando gargantas de outros bichos, o Josafá não deixa de ter razão. Pelo menos eles, os “dinos”, não fabricavam bombas.

Já o papo da clonagem dos anjos caídos foi coisa minha mesmo. Parece absurdo? Pode até parecer, mas é só porque ninguém (será mesmo?) parou para pensar nisso. Anjos caídos fazem parte da turma de seguidores do guerreiro da luz (Lúcifer, viu?). Pois então... Einstein poderia explicar isso.

(Aliás, a propósito de clones e de anjos, prepare-se, leitor: não demora você pode deparar-se consigo mesmo atravessando a rua e vindo na sua direção. Mesmo que você seja filho único da biologia e do prazer do seu pai e da sua mãe. Nesse caso, relaxe. Mas não goze, chame o seu anjo da guarda.)
Viagens no tempo (há quem afirme que a Nasa já mexe com isso, só não pode espalhar), visitantes alienígenas (Carl Sagan dizia que não passavam de embustes), civilizações perdidas (Platão jurava aos ventos que a Atlântida não era uma lenda)... São enormes os mistérios entre o céu e a terra.

Ao final de cada sessão dessas de conversas que não levam a lugar nenhum, basicamente só permanece uma certeza: a de que a gente não sabe mesmo nada. Mas nem isso pode ser tido como uma conclusão original. Na Grécia de algumas centenas de anos antes de Cristo, a filosofia já sabia desse detalhe.

* fdandao@zipmail.com.br

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