
Francisco Dandão *
Josafá Batista, o atual editor-chefe do Página 20, e eu costumamos conversar longos minutos, no fechamento das diversas edições, sempre depois das 21 horas. No papo rola de tudo, principalmente assuntos que a gente pouco ou nada entende, como nanotecnologia e mecânica quântica.
Os diagramadores Rodrigo Torres e Fernando Castro se divertem. Eternamente gozadores, fingem que não estão escutando, mas disparam a rir quando as nossas teorias (minhas e do Josafá) enveredam pelo lado do absurdo. “Esses caras ainda vão sair daqui direto para o hospício”, costumam dizer.
O Josafá, barba sempre por fazer, olhos vermelhos e ar introspectivo, carregando para todos os lados uma espécie de mochila cheia de livros e papéis, apesar de ainda não ter criado coragem de freqüentar um curso superior, é um sujeito que lê compulsivamente tudo que lhe cai às mãos.
Quanto a mim, não creio que eu pudesse pintar um bom auto-retrato sem exagerar ou esmaecer os tons (além do quê, o espelho me mostra uma imagem sempre invertida). Mas, tal qual o meu parceiro de devaneios de final de expediente, também sou muito chegado a uma leitura (qualquer que seja).
Um dia desses atrás (dia para a frente só na melhor ficção do cinema hollywoodiano, salvo melhor juízo), para completar o quadro de conversadores de abobrinhas pouco aproveitáveis, deixamos de ser uma dupla e passamos a ser um trio, com a presença do Marcos Vinícius, o historiador.
Nesse dia, eu vou dizer uma coisa: os dois diagramadores quase têm um troço. Lá pelas tantas, dividindo linhas tortas nas páginas e escrevendo títulos faltando letras, o Fernando não resistiu e sapecou: “A cachaça que esses caras beberam de ontem pra hoje só podia estar estragada”.
A conversa nesse dia foi, realmente, pesada. Teorias sobre a ética dos dinossauros, os códigos de comportamento dos indivíduos de acordo com a carga genética recessiva após a ingestão de ervilhas bombardeadas por raios laser e até, pasmem, especulações sobre a clonagem de anjos caídos.
O tema da ética dos dinossauros, eu me lembro bem, quem levantou foi justamente o Josafá. Para ele, o mundo perdeu demais com o meteoro assassino que extinguiu os referidos bichinhos. Não fosse isso, segundo o editor, os humanos não estariam hoje por aqui fazendo tantas bobagens.
De certa forma, embora eu prefira ter nascido gente, depois de passar nove meses num útero aconchegante, a ter saído de um ovo e viver com aqueles dentes todos estraçalhando gargantas de outros bichos, o Josafá não deixa de ter razão. Pelo menos eles, os “dinos”, não fabricavam bombas.
Já o papo da clonagem dos anjos caídos foi coisa minha mesmo. Parece absurdo? Pode até parecer, mas é só porque ninguém (será mesmo?) parou para pensar nisso. Anjos caídos fazem parte da turma de seguidores do guerreiro da luz (Lúcifer, viu?). Pois então... Einstein poderia explicar isso.
(Aliás, a propósito de clones e de anjos,
prepare-se, leitor: não demora você pode deparar-se consigo mesmo
atravessando a rua e vindo na sua direção. Mesmo que você
seja filho único da biologia e do prazer do seu pai e da sua mãe.
Nesse caso, relaxe. Mas não goze, chame o seu anjo da guarda.)
Viagens no tempo (há quem afirme que a Nasa já mexe com isso,
só não pode espalhar), visitantes alienígenas (Carl Sagan
dizia que não passavam de embustes), civilizações perdidas
(Platão jurava aos ventos que a Atlântida não era uma
lenda)... São enormes os mistérios entre o céu e a terra.
Ao final de cada sessão dessas de conversas que não levam a lugar nenhum, basicamente só permanece uma certeza: a de que a gente não sabe mesmo nada. Mas nem isso pode ser tido como uma conclusão original. Na Grécia de algumas centenas de anos antes de Cristo, a filosofia já sabia desse detalhe.