
Bananas fritas, saltenhas,
quibes e outros lanches são
reajustados: lucro de pequenos comerciantes despenca
“É um absurdo! Fui obrigado a aumentar o preço do meu produto para não ficar no prejuízo.” O desabafo indignado é do autônomo Antônio Barreto da Silva, 50.
Antônio é um dos vários comerciantes que se viram na obrigação de repassar o aumento abusivo do gás para o consumidor. Ele diz que, dos quinze anos em que vende bananas fritas, nunca se viu em tão grande dificuldade como nesse último aumento.
Segundo ele, criou os seus quatro filhos só com as vendas de bananinhas, mas que agora, as coisas estão ficando cada vez mais difíceis uma vez que com o aumento da banana frita, as vendas baixaram e não tem outro recurso para sustentar sua família. Ele não vê a hora de ter que procurar outro “bico” para fazer, para não ter o desgosto de ver seus filhos terem que sair para trabalhar e assim, relaxar nos estudos.
“Infelizmente as pessoas deixaram de comprar mais, pois tive que aumentar o preço da banana de 50 centavos para 75. Não queria perder a clientela, mas não tive outra opção. Por mais que esteja dificil, não quero que meus filhos saiam de casa para trabalhar, pois quero vê-los estudar para ser alguém nessa vida,” diz.
O gás de cozinha pode chegar até a 40 reais, principalmente em lugares mais carentes ou mais distantes da cidade, onde as pessoas, a maioria de baixa renda, não têm outra opção de compra.
A outra opção: manter os
valores e não perder a clientela
Com medo de perder seus fregueses, alguns comerciantes preferem ficar no prejuízo e esperar mais um pouco para ver até onde vão agüentar, como é o caso de Justino Ribeiro da Silva.
“Não posso ficar sem vender, prefiro ficar sem lucrar até ver no que vai dar toda essa situação. Se não resistir, infelizmente vou ter que procurar outra coisa para fazer, mas no momento, meu preço vai permanecer”, lamenta.
Justino também é vendedor de bananas fritas, há quatro anos. Ele afirma que já tentou largar essa vida há bastante tempo, mas que pela falta de instrução, teve que continuar, mas que agora, a situação está ficando cada vez pior, pois não consegue emprego em lugar algum.
“Eu já fui vigia há bastante tempo, quando saí da última empresa em que trabalhei, não consegui encontrar mais nada. A cada dia que passa, fico sem saber o que fazer. O mercado está exigindo curso disso e daquilo e eu nunca tive e nem tenho condições financeiras para fazer cursos. E mesmo que eu faça, pela minha idade, as pessoas já não aceitam mais no mercado de trabalho”, explica.
Uma outra comerciante que também decidiu agüentar o trampo, foi a proprietária da lanchonete Estrelão, Silvana Aires. Ela afirma que no momento não aumentou os preços de tudo o que vende, pois não quer perder a clientela.
“Não aumentei o preço de tudo, apenas a marmita que de 3 reais passou a 3,50. Mas o resto, principalmente os salgados, continuam no mesmo valor. Mas se o gás aumentar novamente esse mês, não sei se vai dar de segurar mais”, diz.
Alternativas criativas para driblar o aumento
Como nem todo mundo consegue agüentar tanta pressão, algumas pessoas estão apelando para o primitivo fogão a lenha, como é o caso do agricultor Vicente Pereira Vilarinho da Silva, que nesses tempos de aperto, está utilizando carvão.
“Com esse aumento diário, não tem quem suporte. O salário congelou, os preços estão subindo e nós estamos ficando praticamente sem dinheiro para dar entretenimento a nossa família. Desde que eu soube que aumentou novamente o gás, eu decidi usar o fogão a lenha e só usar gás mesmo, em extrema necessidade”, reclama.
Pelo gás ser um gênero de primeira necessidade, segundo o economista Rogério Gonçalves Bezerra, é extremamente difícil as pessoas deixarem de compra-lo mesmo que seu preço esteja aumentando periodicamente.
“Pelo gás ser um derivado de petróleo, e pelo petróleo aumentar ou baixar seu valor de acordo com o dólar, infelizmente ele está propício a aumentar constantemente, já que os comerciantes só sabem aumentar os preços mesmo com o dólar baixando, quem é diretamente atingido com tudo isso, é a classe mais baixa, que é obrigada a gastar o seu mísero salário para compra-lo, pelo menos a cada dois meses. Cabe à própria população cobrar uma política mais séria do governo”, ressalta.
Rogério lamenta por não haver muitas maneiras do consumidor economizar o gás, mas deixa sua dica: “Nunca deixe o fogão aceso por instantes sem necessidade. Se possível, use fogão a lenha (principalmente pessoas de baixa renda), ou fique revezando, use a lenha para fazer comidas mais demoradas e o gás para esquentar algo”, finaliza.