
Padroeiro de Xapuri, São
Sebastião faz 17 mil romeiros
comungarem da fé e da esperança no santo-guerreiro
A cidade de Xapuri foi palco da maior festa de São Sebastião dos últimos anos. De acordo com a Polícia Militar, mais de 17 mil pessoas compareceram, em plena segunda feira, para demonstrar a fé no padroeiro da cidade. As festividades desse ano marcaram a 101ª edição do encontro. Foi um momento que ultrapassou a barreira das relações entre Igreja e fiéis. Falar sobre esse evento em Xapuri é falar de um fato que antecede a construção da própria cidade.
“Esse movimento de fé e de união se confunde com a construção da história de Xapuri”, afirmou o coordenador paroquial, Joscires Ângelo. “E não é exagero afirmar que a cidade amadureceu junto com a festa.” De fato, a festa é mais velha que o próprio município. À medida que a procissão se desenvolvia pelas ruas, mais pessoas se juntavam. Um aspecto que chamou a atenção da festa deste ano foi a quantidade de jovens presentes.
As crianças não se intimidavam em repetir as ladainhas, mesmo sem ter muita consciência sobre o que estavam falando. Mas estavam presentes e faziam questão de acender velas ou desfilar com as fitas vermelhas cruzadas no peito.
Na praça central da cidade foi que se teve uma real idéia da quantidade de romeiros. O pequeno palco instalado nas proximidades da igreja imitava uma casa de seringueiro. Dali, não se via o final das pessoas que assistiam ao ritual da eucaristia, enquanto mais gente se juntava ao grupo.
Um soldado pela fé
Entre todos os fiéis que fizeram parte da procissão, um chamava a atenção, inclusive, pela semelhança física com o santo. O policial militar Clébio Barbosa da Silva conheceu Xapuri quando da morte do líder seringueiro Chico Mendes. Depois do contato com a cidade, a primeira festa do santo, lembra o soldado, marcou a sua fé. Ontem, ele levava uma vela à mão e a certeza de que tinha sido abençoado com a graça da saúde por São Sebastião. “Minha saúde foi salva pelo santo e com ele me seguro”, e sentenciou o policial-romeiro que, “um homem não pode viver sem fé”.
Outra fiel que há mais de 20 anos comparece na procissão é a produtora rural Francisca Carvalho dos Santos. Com o rosto marcado por muitas idas e vindas do Seringal do Pinga para “rezar por quem intercede por nós”, a extrativista não se fazia de rogada. “A fé é boa porque deixa a gente com uma alegria danada”, confessou.
Muitas pessoas, se vestem com uma espécie de bata branca com uma faixa vermelha atravessada ao peito como uma demonstração de que alguma graça foi alcançada. Algum pedido feito por intermédio do santo diante de Deus e que foi atendido, segundo eles mesmos dizem. Juceline Moreira de Lima disse que “quase morre em Rio Branco de anemia e de lupus, mas o são Sebastião conseguiu uma cura sem explicação”.
Xapuri é um celeiro de mitos
A região do município de Xapuri é pródiga em criar mitos, sejam eles históricos, políticos ou religiosos. A festa de São Sebastião demonstra que a força da religiosidade popular ainda é grande. E a Igreja tem sabido trabalhar de forma criativa e benéfica para alimentar essa realidade mítica. “Nós temos que nos alimentar da fé e tentar ao mesmo tempo estabelecer novos caminhos de convivência porque todos nós ainda não conseguimos concretizar um pacto de união, de comunhão e de fraternidade”, diagnosticou o padre Luiz Ceppi. “Estamos nessa busca.”
A região do município de Xapuri, desde o final da década dos setenta, foi buscar nos líderes seringueiros, os motivos de renovação da esperança de dias melhores. O primeiro desse time foi Wilson Pinheiro. Na cidade de Brasiléia, conseguiu fazer com que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais dali fosse um dos mais atuantes de toda a Região Norte. Após Pinheiro, o outro grande nome foi o de Chico Mendes, que até hoje está no imaginário de todo cidadão da pequena cidade do Vale do Acre.
São Sebastião, assim como os líderes seringueiros, foi morto pela causa alheia. Lutavam por uma idéia e alimentavam a esperança de que a história poderia ser mudada, sobretudo no combate à injustiça e à toda forma de desumanidade. Essa mistura de engajamento político com fé pode ser explosiva em alguns lugares do mundo, mas aqui no Acre tem demonstrado que é possível ter uma relação construtiva na mistura desses dois elementos. “Nós temos que acreditar que podemos viver sem o estigma da violência”, afirmou o padre Ceppi.
Emocionado, o prefeito de Xapuri, Júlio Barbosa, falou para a multidão que o Acre pode ser um exemplo de como a união é capaz de fazer a diferença para se fazer o que é bom para o coletivo. “Tenho certeza de que podemos aproveitar esse clima de união presente aqui hoje para fortalecer a idéia do quão injusta é a fome e de que podemos combatê-la com a prática da solidariedade”, disse.