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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 22 de janeiro de 2003
É em briga de comadre que a verdade aparece

Tião Maia *

“Ele já vai tarde. Esse rapaz não tem currículo, tem é folha corrida.” A frase, que está sendo publicada em reportagem deste Página 20, foi dita pelo dirigente do PMDB, Pedro Maia, referindo-se ao vereador Márcio Oliveira, que está de malas prontas para desembarcar no PPS. A troca de partido ainda tem a ver com o imbróglio das eleições para a mesa diretora da Câmara Municipal, da qual o vereador e o próprio PMDB saíram gravemente chamuscados.

Para quem não lembra, o vereador Márcio Oliveira foi acusado pelo colega Chicão Brígido de traição ao PMDB por votar em Nuno Miranda, que acabou sendo eleito por um desses milagres que só a política é capaz de explicar - a vitória de alguém apoiado pela minoria. Por conta disso, Oliveira teve sua expulsão solicitada por Chicão Brígido. O fato só não se consumou porque o presidente exercício, deputado federal eleito João Correia, sabe que, à altura do campeonato, um ato desses só fragilizaria ainda mais o PMDB velho cansado de guerra. Ainda que protegido pela tentativa de panos quentes sob o escândalo, o vereador sentiu-se incomodado e encontrou abrigo no PPS, o que irritou profundamente o combativo Pedro Maia.

Para quem não sabe, Márcio Oliveira é sobrinho e tinha tudo para herdar o espólio político do ex-prefeito Mauri Sérgio, um dos próceres do PMDB e, até recentemente, protetor gratuito de Pedro Maia. Em que pese isso, o dirigente do PMDB não poupou o vereador e chegou a comemorar sua saída com aquela frase que reproduzi no início desse artigo.

Não pretendo aqui, de forma alguma, sair em defesa do vereador Márcio Oliveira – até porque acho que ele não precisa e nem merece. O que quero é chamar a atenção do leitor para o que foi dito pelo dirigente do PMDB. Quem tem folha corrida, se não me trai a língua portuguesa, é bandido, assaltante, ladrão, assassino ou picaretas menores. No caso, seria isso, resumidamente, o que pensa Pedro Maia de seu ex-aliado.

A frase do dirigente peemedebista é grave porque o vereador Márcio Oliveira, se é que alguém já esqueceu, foi o secretário de planejamento da Prefeitura enquanto o dirigente máximo do PMDB, o ex-prefeito Flaviano Melo, mandava nos destinos da Capital.

Da forma como o então prefeito tratou a Capital, ninguém tinha dúvida de que havia alguma coisa errada lá para as bandas do paço municipal. Além da gravidade de termos na administração das finanças do município o secretário Raimundo Nonato de Araújo, o município teve à frente da secretaria de Planejamento, segundo a revelação de Pedro Maia, um cidadão do mesmo nível do homem que está condenado a 18 anos de prisão por ter funcionado como tesoureiro da conta fantasma “Flávio Nogueira”, um dos maiores escândalos financeiros da história do país. Se é que alguém já esqueceu, a conta “Flávio Nogueira” consistia no desvio puro e simples de dinheiro público para as contas privadas do então governador Flaviano Melo e dos secretários que faziam parte de seu bando, que eram mantidas no Banco do Brasil em nome de pessoas fictícias ou fantasmas.

É por isso que o prefeito Isnard Leite, que sucedeu Flaviano Melo, vive seu atual inferno astral. Enquanto não se livrar de vez dessa turma do PMDB está condenado a ser apenas um gerente de crises e os munícipes obrigados a assistir a essas brigas sempre com essa sensação de embrulho no estômago. É por isso que se diz que, nessa briga, Pedro Maia e Márcio Oliveira têm razão. É que, segundo o dito popular, é em briga de comadre que a verdade aparece.

* Jornalista

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