
Antônio mostra que vida de
sucateiro pode ser lucrativa
para quem recicla e para a população em geral
Samara Castro
Fotos: Regiclay Saady
Diferentemente do que muita gente pensa, latinhas de refrigerantes, pedaços de fios, baterias descarregadas e outros materiais descartáveis podem dar muito dinheiro. É delas que vive - e muito bem - a família do microempresário Antônio Carlos Ribeiro da Silva, 33. Ele é dono da Sucata Ribeiro.
“Eu nunca trabalhei com outro tipo de coisa. Desde pequeno trabalho com reciclagem e graças a Deus nunca faltou nada para mim ou minha família”, explica.
Antônio é natural do Mato Grosso do Sul e aprendeu com o pai, um perito na área de reciclagem, a desenvolver a profissão. O aprendiz passou a mestre em pouco tempo. Por conta disso, nunca passou um aperto financeiro que o fizesse, por exemplo, procurar outra coisa em que trabalhar.
Como o pai teve que trabalhar em Porto Velho há quase quatro anos, Antônio aproveitou a ocasião e resolveu se mudar com a esposa e os dois filhos para a capital acreana. Queria montar sua própria sucataria. E se deu muito bem, tanto que hoje exporta toneladas todos os meses para Rondônia.
“Quando eu era criança ajudava meu pai a trabalhar na reciclagem. Hoje vivo bem com o trabalho e estou ensinando meus filhos a fazer o mesmo serviço. Lógico que não vou obrigá-los a viver disso, eles poderão escolher suas profissões. Mas se por acaso faltar trabalho, saberão como se virar. Graças a Deus hoje eu exporto uma média de 800 toneladas de alumínio todos os meses para Porto Velho”, ressalta Antônio.
O profissional explica que a profissão é bastante tranqüila quanto à segurança, tanto que, em mais de 20 anos de profissão, nunca sofreu qualquer acidente.
Profissão é pouco requisitada, mas gera lucro
O ambiente de trabalho é barulhento e a atividade, monótona, mas o lucro é garantido. Antônio passa o dia inteiro pesando sacolas cheias de fios, pedaços de telha de alumínio, latinhas de refrigerantes, panelas velhas e outras variedades de alumínios.
Depois de pesado os produtos são separados. O material, explica ele, não pode se misturar para poder ser colocado na prensa hidráulica (máquina de reciclagem). Depois de todo esse ritual o material reciclado é organizado em fardos numa lona. Cada fardo pode chegar a até 20 quilos.
“Depois que tudo isso é feito colocamos na carroceria do caminhão e enviamos para Porto Velho. De lá o material é fundido pela firma que compra da gente e segue até São Paulo, onde é distribuído para empresas. O curioso desse processo é que o produto volta em forma de latas, ou seja, outro tipo de objeto de alumínio, novamente”, esclarece Antônio, que diz ainda gostar do trabalho que faz.
Falta de apoio e leque de impostos impedem lucros
O microempresário explica ainda que nesse processo todo a média de lucro seria bastante satisfatória se não fosse pelos impostos que a prefeitura o obriga a pagar.
Ele paga 1,8 real pelo quilo e já repassa o produto para a firma, que receberá o material com o valor que ele estipulou. Mas com os impostos e taxas, boa parte desse dinheiro fica no meio do caminho.
“É um absurdo ter que pagar para reciclar alumínio. Ao contrário, deveriam incentivar o serviço tirando todas essas taxas. Se não fosse a reciclagem, como estaria a cidade hoje? Onde colocariam toda essa sujeira?”, argumenta.
E haja sujeira. Antônio diz que há alguns dias em que fica apreensivo: a demanda é demais e não há, na empresa, funcionários suficientes para suprir as necessidades. Em conseqüência de tantos encargos desnecessários é que a empresa não tem como gerar mais empregos.
“Não há como empregar mais pessoas para trabalhar comigo, uma vez que o dinheiro que eu poderia usar para pagar outro funcionário está na prefeitura sendo gasto ninguém sabe com o quê”, desabafa.
Do lixo ao luxo: com a reciclagem,
todos saem ganhando
“Às vezes tiro o dia para catar latinhas e comprar algo que falta lá em casa. Principalmente agora, que estou de férias, tenho mais tempo para procurar por lugares mais distantes”, afirma Edmundo Lázaro Gomes de França, morador do Triângulo. Ele é hoje um dos maiores vendedores de alumínio de Antônio.
Edmundo tem 12 anos e sempre que pode sai de casa bem cedo para catar latas ou qualquer outro tipo de material em alumínio para vender a Antônio.
O pai trabalha no roçado de uma fazenda e o que ganha no final do mês mal dá para comprar comida para os filhos. Vendo que a situação financeira da família não é muito boa, Edmundo toma a atitude de homem e sai para arranjar dinheiro com o objetivo de ajudar nas despesas de casa.
“Ele vem sempre aqui. Vez ou outra eu o vejo rondando por aqui com a sacolinha na mão catando algo para me vender. Já vieram aqui dizendo que estou explorando-o, mas é mentira. Eu compro, sim, dele, mas eu só compro porque sei o que ele faz com o dinheiro que ganha aqui. E outra: o garoto está trabalhando porque quer. Melhor ele trabalhar do que ficar por aí cheirando cola ou roubando”, ressalta Antônio.
Edmundo está na quarta série e não pensa em largar os estudos por nada. Tanto que quando está estudando consegue administrar seu tempo, o que não é muito comum nas crianças de hoje em dia, pois, apesar de trabalhar com a venda de latas, não permite que sua infância seja cortada pelas dificuldades que enfrenta diariamente.
“Quando estou estudando, chego do colégio e vou brincar um pouco. Depois começo a procurar latinhas na rua para vender. Quando chego em casa à noite, vou fazer minha tarefa do colégio. Quero fazer faculdade e ganhar muito dinheiro para não ver meus filhos passando necessidade”, diz.
Com tantos anos de experiência na área, Antônio afirma que Edmundo é um grande exemplo de que, quando se quer, consegue-se o que comer diariamente. Diferente do que muita gente afirma, não tem emprego.
Antônio diz que é possível qualquer pessoa tirar o que comer com esse trabalho, basta “tirar diariamente um tempinho para catar latas por aí e vender”.
E continua: “Tanta gente reclama que não tem emprego, mas, se pararmos para pensar, tem tanta coisa para fazer aqui... O problema é que as pessoas têm vergonha de serem vistas catando lixo nas ruas. Isso não é vergonhoso, vergonhoso é roubar, isso sim. Catar latinhas por aí é a maior prova de que alguém quer realmente trabalhar”, reclama Antônio.
O depósito de Antônio fica no Segundo Distrito. Quem quiser vender alumínio para ele, é só ligar 221-7943.