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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 23 de janeiro de 2003
Favelado

Aldo Nascimento *

Há um ano vejo o Acre do Rio de Janeiro. De Maricá, Região dos Lagos, para ser mais praiano e exato. E não da Rocinha.

Por falar em Rocinha, minha audição sensibilizou-se quando ouviu em dezembro Gilberto Gil cantar em plena favela.

Minha acreana esposa se encantou com o show. Simone viu que no Rio de Janeiro ministro de Estado mata a fome do povo, também, com cultura.

Em outra favela, a do Vidigal, também na zona sul, um grupo de teatro recebeu o convite para fazer o filme Cidade de Deus. Jovens favelados cariocas, portanto, são atores de um dos melhores filmes brasileiros.

O grupo AfroReggae, outro exemplo. Criado na favela de Vigário Geral há dez anos, jovens negros dividem o palco com Caetano Veloso, em plena Copacabana. Detalhe: à beira mar, a entrada é franca.

As favelas me cercam. O Rio é favela. Aonde vou, ela se faz presente no samba, no cinema, no teatro. A cultura do negro pobre rasga a terra de forma autêntica. Trata-se de uma identidade antropofágica.

Mas o negro pobre também expele violência. E sua visibilidade arregalou nossos olhos no dia 12 de junho de 2000, quando o ônibus 174 parou em São Conrado.

Jornalismo e Cinema - Cultura no Rio flui. Só na Barra da Tijuca existem 41 salas de cinema. Em Botafogo, em uma única rua, na Voluntários da Pátria, são 6 salas. Em uma destas salas, assisti ao documentário Ônibus 174.

Revi aquele trágico dia pelo olhar do cinema, e 12 de junho de 2000 se reapresentou a mim de forma oposta às imagens editadas pelas TVs.

O documentário nos faz refletir não só sobre a violência no Rio de Janeiro, mas sobre o papel da imprensa enquanto cultura de massa.

Quando terminou o filme (quase 3 horas de duração), pensei sobre repórteres que acreditam revelar a verdade quando cobrem os fatos, ignorando que "cobrir" implica uma subjetividade antecipada.

Fora isso, o fato esconde a verdade, como o filme mostra. Em Ônibus 174, a arte cinematográfica, essa sim, problematiza o fato e questiona a imprensa. A arte sabe que a realidade não diz muito, e muitos repórteres estão presos a ela.

O marginal Sandro Rosa do Nascimento, de 21 anos, protagonista do ônibus, não representa o que a imprensa noticiou na época, muito menos a violência é o que os repórteres editam.

Pena que esse belíssimo documentário não chegará a Rio Branco. Cidade de Deus é mais comercial. Tá na moda.

* sisifu@uol.com.br

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