
Rotina diária de Daiane
para manter a mãe cega
e três irmãos mais novos é de um operário braçal
O dia começa mais cedo para Daiane Ferreira Fernandes, 10, moradora do bairro Jardim Eldorado, que desde que a mãe, Valdenice Ferreira Fernandes, 35, natural de Rondônia, ficou cega, há seis anos, precisa sair com freqüência para conseguir dinheiro para o sustento da família.
“Eu saio por aí juntando sacola, garrafas plásticas e latinhas para vender em lugares onde reciclam. Mas esses dias, as coisas estão ficando difíceis, está cada vez mais raro encontrar alguém que compre, e normalmente onde eu sei que compram, fica muito longe de casa e não temos dinheiro para gastar com ônibus”, diz Daiane.
A rotina da pequena guerreira é sempre a mesma, acorda bem cedo para fazer o café, cuidar de seus três irmãos mais novos, lavar a louça, cuidar da mãe, arrumar a casa e ir para o colégio. Ao sair da escola a garota se dirige para casa onde vai preparar o almoço para toda a família. Após fazer as tarefas do colégio, vai para as ruas catar lixo para vender.
Valdenice explica que, por necessidade, a filha teve que aprender a cozinhar aos oito anos de idade e que se não fosse por ela, não sabe o que seria de sua vida e de seus filhos mais novos.
Ela ainda diz que uma senhora lhe fez uma oferta para morar em uma fazenda, mas que não aceitou porque acha que a vida na fazenda não seria bom para os seus filhos, pois quer que todos estudem e que tenham um bom emprego para não terem que passar necessidades futuramente.
Daiane também tem o mesmo pensamento. Apesar da idade, pretende estudar em primeiro lugar para que, quando crescer, possa ter dinheiro e ajudar a mãe. “Eu quero estudar para ter um bom emprego e ter dinheiro para ajudar mamãe e meus irmãos”, diz.
Má gestação tirou a visão de Valdenice
Devido um problema de gravidez, Valdenice perdeu totalmente a visão, e hoje depende de um mísero salário de 200 reais que, segundo ela, mal dá para pagar as contas. Ela diz que foi casada durante 20 anos, mas que depois que perdeu a visão, o pai das crianças a abandonou e não dá o mínimo de assistência para os filhos.
“Quando eu estava grávida de dois meses, comecei a passar mal, e comecei a vomitar um vapor quente, sei lá, era muito estranho, foi uma sensação terrível. Eu desmaiei e perdi a visão. O médico que cuidou de mim na época, disse que foi problema de pressão. Agora sou dependente dos outros e de meus filhos, pois o que eu ganho no mês não dá pra quase nada e o pai deles não está nem um pouco preocupado com nossa situação”, explica Valdenice.
Ela conta que só não passa mais necessidade, porque depois de ter feito um apelo na imprensa, várias pessoas tomaram a iniciativa de ajuda-la dando alimentos e que os vizinhos sempre ajudam quando precisa. E apesar deles ajudarem com pouca coisa, por serem pessoas de baixa renda, é grande a diferença que faz: “Só o pouco que eu recebo deles, já é muito”, afirma com ar de satisfação no rosto.
Ela conta que logo que ficou cega, o médico que cuidou do seu caso, afirmou que a única forma dela voltar a ver novamente, seria fazer um tratamento no Japão, mas como é custa muito caro, cabe a Valdenice esperar até o recurso chegue no Estado.
“Eu não tenho condições de ir para lugar algum fazer tratamento. Mas também fico triste em saber que tenho que esperar tanto tempo pra me ver curada dessa cegueira”, lamenta.
Filhos problemáticos deixam
Valdenice sob ameaça da justiça
Apesar de Valdenice ter ao todo sete filhos, apenas quatro vivem com ela. O mais velho, de 19 anos, vive em Porto Velho com a avó. Os outros dois de 14 e 15 anos são problemáticos, pois são viciados em drogas e de vez em quando acabam detidos na Pousada do Menor.
Ela reclama que recentemente os filhos estavam presos e que só soube quando a imprensa foi à sua casa fazer uma matéria. Ao comparecer à Delegacia do Menor, foi ameaçada de que se não tomasse uma atitude quanto aos filhos, seria presa.
“Eu fui saber de meus meninos na delegacia, e a juíza falou que se eu não cuidasse deles, eu é que seria presa. Agora eu pergunto, que culpa tenho eu se meus filhos não prestam para nada, que posso fazer se eles ficam fazendo desordem na cidade? Eu não posso responder por eles, eu sou cega e se os coloco dentro de casa, eles saem, não tenho como segurá-los. Cabe às autoridades segurá-los, pois essa responsabilidade é deles. E se meus filhos estão dando problemas, eu não vou impedir a justiça de fazer o que é certo”, desabafa.