
A partir de hoje, o jornal Página 20 publica uma série de reportagens sobre a visita do governador Jorge Viana à Ilha de Cuba e as implicações diplomáticas, comerciais e culturais que essa aproximação traz para o Acre ainda neste ano. A viagem foi a primeira com caráter oficial realizada por um governador aliado ao presidente Lula a Cuba. Na viagem, Jorge Viana foi recebido não só como o “governador do Estado do Acre”, mas como um representante de um governo central com abertas relações diplomáticas com a política adotada pelos dirigentes da Ilha. O que impressionou a todos os integrantes da delegação acreana na viagem foi a maneira como o povo cubano está comprometido com a idéia da “Revolução”. O principal atrativo de Cuba hoje está além do famoso charuto “Havana” e da romaria intelectual dos admiradores de Ernest Hemingway. Cuba, desde o reveillon de 1959, mostra ao mundo a idéia concreta da “Revolução” teorizada e pensada por Jose Martí e concretizada por Fidel e Che Guevara. É sobre essa história que o jornal Página 20 se debruça até domingo com reportagens especiais sobre uma relação que nasceu da cooperação direta entre o Governo do Acre e a república da América Central que mais avançou nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e qualidade de vida.
O encanto da Ilha
Viagem de comitiva acreana a Cuba
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acordos importantes para o desenvolvimento da região
A viagem de dez dias do governador Jorge Viana para Cuba trouxe elementos práticos que já serão concretizados no primeiro semestre desse ano. O de maior impacto diz respeito à instalação de uma fábrica de medicamentos no Estado. De acordo com o Ministério da Saúde Pública de Cuba, o acordo para a produção de fármacos com o Acre pode ser efetivado ainda no primeiro semestre desse ano.
“Nós temos muito a aprender com os acreanos e tenho certeza de que também podemos contribuir para crescermos juntos nesse processo de aproximação”, afirmou um dos principais cientistas do país e diretor do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba, Luiz Herrera.
“Cuba ainda não conseguiu uma experiência internacional que mostrasse todo o seu potencial científico na área de farmácia e creio que o Acre será uma boa oportunidade para que nós consigamos conciliar as tecnologias cubanas na área de farmácia e o potencial de nossa floresta para desenvolver a região”, afirmou o governador Jorge Viana na saída do Centro de Engenharia Genética. A assinatura desse acordo bilateral é o começo de um processo em que os dois povos podem ser beneficiados e vamos trabalhar para que isso se torne uma realidade”, afirmou a ministra de Colaboração Econômica, Marta Lomas.
O Secretário de Planejamento, Gilberto Siqueira fez uma análise estratégica da aproximação entre Acre e Cuba, sobretudo na área de produção de medicamentos. Pelo acordo firmado em Havana, técnicos do Acre e de Cuba pretendem criar uma empresa com linha de produção totalmente voltada para a elaboração de medicamentos naturais que valorizam toda a diversidade fármaco-terapêutica existente na Floresta. “O Estado do Acre dá um passo pioneiro na relação comercial com Cuba e a concretização dessa indústria de remédios é a primeira caminhada para poder ampliar no futuro o leque para outros produtos”, afirmou Siqueira.
Uma Ilha de excelência social
Cuba possui uma das práticas médicas mais avançadas no mundo. Paralelo a esse fato, a biotecnologia e a engenharia genética foram se desenvolvendo a tal ponto que ganham destaque em todos os indicadores sociais da Ilha.
Cuba se orgulha de ter um dos mais baixos índices de analfabetismo da América Latina. Um levantamento feito por entidades internacionais aponta para 0,02% o índice de analfabetos no país. Quase todas as crianças freqüentam as escolas estatais: 97,5% das crianças com menos de 14 anos estão nas escolas. Em todo o sistema de ensino são 2,3 milhões de estudantes. A expectativa de vida é semelhante à de um país de Primeiro Mundo com uma média de 76 anos.
“Ser cultos para ser livres” é uma frase de José Mártir, ideólogo da Revolução de 59, que está estampada em todos os centros de pesquisas avançadas da Ilha. Pela frase do líder, se tem uma idéia de como o universo científico é valorizado como um instrumento de valorização da condição humana em cultuar a liberdade, não com o enfoque voltado para o consumo, mas como um processo que se conquista pela valorização do coletivo.
“Em Cuba, você não é educado para ser o primeiro em tudo, mas para fazer parte de um grupo; fazer parte de uma coletividade”, verificou Aníbal Diniz, um dos integrantes da comitiva oficial que acompanhou o governador Jorge Viana. “E essa forma de educação é tão presente no povo que todos se sentem fortalecidos mesmo com todas as dificuldades econômicas que a Ilha enfrenta”, afirmou Diniz.
“Ganha o Acre e ganha Cuba”, afirma deputado
O deputado estadual e líder do governo na Assembléia Legislativa, Edvaldo Magalhães, um dos integrantes da comitiva que foi a Cuba, afirmou que “ganha o Acre e ganha Cuba” com os acordos firmados em Havana. Magalhães ficou impressionado com a capacidade de persuasão que a Revolução tem nos cidadãos. A deputada federal, Perpétua Almeida (PC do B) afirmou que “o povo de Cuba é vitorioso na Saúde, na Educação e nas relações entre o Estado e o cidadão que se estabelece da forma mais verdadeira como nunca vi”, afirmou a deputada.
A simbologia da Revolução de 1959
Um período ditatorial apoiado pelos Estados Unidos e dirigido pelo general Fulgêncio Batista tornava a Ilha de Cuba uma extensão dos interesses norte-americanos na América Central até a segunda metade da década dos cinqüenta. O povo cubano vivia em um regime de exclusão e de miséria em meio ao requinte da elite americana, freqüentadora dos grandes hotéis e cassinos então existentes na Ilha.
Um grupo de jovens liderados por Fidel Castro e Che Guevara iniciou uma revolução que conclamou toda a população local do interior até chegar à capital, no reveillon de 1959. A partir daí, o movimento dos “rebeldes” influenciou toda a geração da década dos sessenta como um dos movimentos mais libertários até então assistidos.
O mundo assistiu atônito à chegada ao poder dos “barbudos rebeldes” que falavam em uma revolução estruturada em teorias marxistas, em pleno regime de pré-Guerra Fria. Cuba então se tornou o satélite da então União das Repúblicas Socialistas Soviética na América. Era o que o cantor e compositor Raul Seixas chamou de “mosca na sopa”. Uma vitrine de um modelo socialista bem sucedido ao lado do maior exemplo do moderno capitalismo do século XX.
A União Soviética injetou muito dinheiro na Ilha com subsídio de toda a produção feita pelos revolucionários. Era uma forma de a “Grande Ursa” (como era conhecida ironicamente no meio diplomático a Rússia) mostrar ao mundo que o socialismo podia ser uma alternativa boa para todos os povos.
Com o fim da Guerra Fria e a derrubada do Muro de Berlim, em 1989, muitos conceitos foram revistos e muitas políticas foram abaixo. A “Glasnost” e a “Perestroika”, encabeçadas por Mikail Gorbachev, mostraram a transparência de um regime viciado e que já não respondia pelas vontades de um mundo já com as fronteiras, os hinos e os heróis diminuídos.
Com o contexto de crise soviética (desmembramento de suas repúblicas), inflação e crise social, a Rússia cortou drasticamente os repasses de dinheiro para Cuba. Desde então, a política norte americana de tornar concreto o “embargo econômico” a Cuba, colocou a Ilha em um contexto muito diferente das décadas dos sessenta, setenta e início dos oitenta.
Só uma ideal de Revolução muito sólido incutido no povo pode explicar a não quebradeira generalizada em Cuba. Quem sustenta o país é o povo com a Revolução na cabeça e a figura histórica de Fidel Castro, o grande “Comandante”. Todo o cubano tem orgulho de ser cubano. Tem orgulho de “estar contribuindo com a revolução” que ainda hoje é viva. O embargo dos Estados Unidos a Cuba já dura mais de uma década e o povo resiste. A Revolução resiste.
Indicadores sociais de Cuba mostram forte investimento da Educação e Saúde Pública
Analfabetos 0,02%
Crianças na escola (crianças com até 14 anos) 97,5%
Estudantes em todo o sistema de ensino 2,3 milhões
Expectativa de vida 76 anos
Centros universitários 58
Mortalidade Infantil 6,2/1000