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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 24 de janeiro de 2003
Walter Suiter

“Jorge vai deixar um marco na história”

Altino Machado Repórter Especial
 
Altino MachadoO secretário-executivo do Conselho de Manejo Florestal (FSC) Walter Suiter, 63, considera que o governador Jorge Viana vai deixar uma marca na história com a criação das florestas estaduais de produção.

O FSC é uma organização não-governamental internacional independente e sem fins lucrativos, sediada no México, responsável pela expedição do mais respeitado título de certificação florestal mundial. O Acre é o estado que possui os dois únicos certificados de manejo florestal comunitário.  

Os princípios e critérios preconizados pelo FSC para o bom manejo florestal foram estabelecidos por meio de um processo de consulta mundial que durou dois anos e são válidos no mundo inteiro, independente do país onde se encontram as florestas a serem certificadas.

Walter Suiter, que foi professor de Jorge Viana na faculdade de engenharia florestal na Universidade de Brasília, está animado com a política ambiental no país e no Acre.

“Tenho muita esperança no meu discípulo. O governador tem a sensibilidade. Ele sabe o que é uma floresta, sabe como nasce, como cresce uma árvore, e o que produz uma árvore. Nós contamos hoje com um ingrediente muito expressivo, que é a figura do Jorge à frente do Estado, e ele tem condições de fazer do Acre um estado com economia florestal”, afirma.

Leia os melhores trechos da entrevista:

Qual a importância do Acre hoje do ponto de vista da certificação florestal no país?

É o único estado que tem dois manejos comunitários certificados. O Acre é pioneiro nesse aspecto, mas também existem outros movimentos no sentido de indústrias certificarem as suas florestas. Isso significa que existe madeira certificada e está em processo de preparação a certificação da castanha e do óleo de copaíba.

Por que existe um movimento de aceleração da certificação florestal na Amazônia?

Isso ocorre porque existe uma pressão da fiscalização governamental e da sociedade exigindo que seja feito bon manejos.

Apesar disso, o processo de certificação ainda é encarado pelo setor produtivo como algo sobre o qual incide um custo pesado.

Essa questão do custo é mistificada. Estou numa batalha para desmistificar a certificação. Na realidade a certificação está de acordo com a legislação. Qual a atividade que se possa considerar produtiva no país que não esteja dentro da legalidade? Então é perfeitamente possível fazer a certificação sob o ponto de vista de investimento. Não se trata de custo, mas de investimento. Sempre é feito um planejamento competente da área, o que facilita e melhora a questão da comercialização. Com isso, se obtém preços melhores para os produtos.

 O novo governo se declara comprometido com o desenvolvimento sustentável do país. O que o senhor acha desse novo cenário?

Nós tínhamos um ritmo nesse sentido, de certificar e de torna esse país um pouco mais honesto. É claro que com essa filosofia isso será facilitado e acelerado. Existem hoje condições propícias para que a gente acelere um pouco o desenvolvimento do manejo sustentado.

As experiências no Acre podem servir para multiplicar essas experiências?

Hoje na área de meio-ambiente as pessoas que definem o desenvolvimento de políticas públicas na área florestal são pessoas que viveram as experiências positivas daqui. São pessoas do Acre. Isso é muito bom. Nós temos chance de dar passos bem largos no sentido da legalidade florestal no país.

O que o senhor acha das florestas estaduais de produção criadas pelo governo estadual?

Toda vez que a gente faz uma mudança existe uma certa reação por desconhecimento ou simplesmente porque alguém quer ser contra gratuitamente. Estavam equivocados aqueles que pensaram que as florestas acreanas seriam vendidas. Muito pelo contrário: as florestas estarão protegidas com mais segurança. Elas deixaram de estar sujeitas à exploração predatória e foram incorporadas ao patrimônio do Estado, com o controle da sociedade.

Sabemos que precisam ser mudados os hábitos dos consumidores de produtos florestais, especialmente nos países ricos que consomem a nossa matéria-prima. Qual o cenário da certificação no mundo?

A questão do consumo está modificando rapidamente. O mercado europeu, por exemplo, hoje está muito mais sensível aos produtos florestais certificados do que há anos. A gente constata uma evolução. É lógico que isso é um processo. Não será com um decreto que se vai mudar o hábito ou a preferência do consumidor, mas a gente constata que cada vez mais os produtos certificados. Sempre vai existir mercado para produtos sem certificado, mas já existe uma mudança de hábito. Essa mudança é favorável a quem tem oferta de produtos certificados.

Existem estimativas de que o país dispõe hoje de US$ 30 milhões em madeira de mogno apreendida ilegalmente. Qual o destino que o senhor daria, caso tivesse poder para decidir, a esse volume de madeira?

Na realidade essa é uma pergunta difícil de responder. Pessoalmente acho que essa madeira não deve ser deixada apodrecendo nos pátios. O mal pior já foi feito ao se derrubar ilegalmente as árvores. Por outro lado, corremos o risco de criar uma clientela de madeira ilegal que depois é esquentada através de leilões. Sou favorável que essa madeira seja comercializada e os recursos sejam destinados a um fundo para fortalecer a fiscalização e o manejo certificado.

O desenvolvimento sustentável ainda esbarra em resultados práticos para atender, no caso da Amazônia, populações exploradas secularmente. O senhor acredita que os benefícios sociais e econômicos possam ser mais visíveis em curto prazo?

Acredito que isso seja perfeitamente possível. Na realidade nós temos que fazer aquilo que tem sido defendido pelo próprio governador Jorge Viana: não deixar as pessoas vir ganhar dinheiro no Acre, mas ganhar dinheiro junto com os acreanos. A sociedade precisa desfrutar desses bens da floresta.

 Que papel o Acre pode desempenhar em relação às escassas reservas mundiais de mogno?

O Acre tem algumas reservas de mogno e pode ser o diferencial no mercado futuro oferecendo mogno certificado. Isso quer dizer que o mogno que futuramente o Acre poderá oferecer ao mercado provém de área manejada de floresta e que no futuro continuará existindo mogno. Não será como hoje que simplesmente se derruba e se depreda as florestas de mogno.

O senhor foi professor do governador Jorge Viana quando ele cursava a faculdade de engenharia florestal na Universidade de Brasília. Como o senhor encara o cenário para a certificação florestal?

Tenho muita esperança no meu discípulo. Tenho muita esperança no Acre porque o governador tem a sensibilidade. Ele sabe o que é uma floresta, sabe como nasce, como cresce uma árvore, e o que produz uma árvore. Nós contamos hoje com um ingrediente muito expressivo, que é a figura do Jorge à frente do Estado, e ele tem condições de fazer do Acre um estado com economia florestal.

Para que isso aconteça que conselho o senhor daria ao governador?

Quem sou eu para dar um conselho a um governador. Um governador não vê apenas a parte técnica. Ele tem que ver a política também. Mas como técnico, como professor, ouso sugerir que ele deixe perpetuada a criação dessas florestas estaduais de produção.

Por que o senhor considera esse legado algo tão marcante?

Porque é uma maneira de colocar à disposição dos empresários a matéria-prima. O empresário sabe desdobrar a madeira. Ele não quer ser um latifundiário. Ele não quer se tornar proprietário da floresta. Ele quer ter garantido o suprimento da sua indústria. As florestas estaduais de produção permanecerão como patrimônio do povo acreano, sempre aptas a fornecer matéria-prima. O Jorge vai deixar um marco na história.

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