
Wânia Lília Maia Viana *
Muito se fala sobre os direitos da mulher, as conquistas que tem alcançado ao longo dos anos.
Por outro lado, em pleno século XXI, onde o computador deixou de ser novidade (para muitos) e o homem brinca de ser deus, afirmando já ter criado o clone humano, a relação homem/mulher, ainda, em muitos casos, baseia-se na dominação do primeiro.
O relato bíblico, no livro de Gêneses, é encarado por muitos homens ao pé da letra – a mulher saiu do homem e a este pertence.
Assim, o namoro, o casamento ou outro tipo de união já pressupõem a esse homem uma relação onde a fidelidade da mulher a ele é requisito básico. Fidelidade que vai desde a agir conforme o companheiro deseja, como se fosse o “chefe” da relação (citamos, como exemplo, lares onde o homem é quem decide o que comprar, como e onde, sem a participação da mulher), até o fato da mulher dever ao homem obediência, respeito e fidelidade (não trair). Se deve existir fidelidade, em todos os sentidos, que esta seja recíproca.
“Todos são iguais perante a lei’ é um preceito legal que acaba sendo verdade apenas para alguns. E o pior – muitas mulheres acabam acreditando e aceitando a posição dominadora do homem como algo natural, certo.
A situação se complica, sai do campo apenas da redução da capacidade decisória da mulher, de sua anulação para a vida/renúncia em prol do companheiro, quando o homem utiliza-se da força, da violência para demonstrar e exigir essa dominação.
Muitas mulheres, que procuram a Delegacia especializada em atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica, chegam abatidas, machucadas, por dentro e por fora, envergonhadas, deprimidas, com um conflito interior que se constitui nos sentimentos de amor, medo, dúvida, pena...Amor excessivo que leva a perdoar o companheiro, medo de morrer ou perder os filhos, por exemplo.
E tem homem que fala “eu não bati nela, eu bati no atrevimento dela”.
Isso tudo não está distante de nós pois formamos a sociedade em que vivemos e nossos conceitos, idéias acabam sendo o pensamento que domina.
Baseado nisso, infelizmente, ainda existe como “desculpa”, para agressões de homens a mulheres, a explicação ‘eu desconfiei que ela me traía”, “eu a flagrei com outro” e, quando se ouve coisa desse tipo, logo há remissão ao comportamento da mulher, há um julgamento da ação dela e a agressão recebida fica em segundo plano.
Quando ocorre o contrário, quando o homem trai a mulher, esta deve se resignar pois quem sabe um dia “ele baixe o facho’.
Homens e mulheres não aceitam a traição feminina. A masculina é normal. E este é um país, relembro, que prega a igualdade entre homens e mulheres. A lei emana do povo mas, no fundo, o que está no papel difere do que é o comportamento, costume e pensamento de grande parte da sociedade.
Prova disso é que, até a década de 70, era comum o homem argüir a tese de legítima defesa da honra, para justificar o assassinato da mulher. Tirava-se a atenção, o foco do crime em si e a partir daí iniciava-se o ‘julgamento” da vítima, se esta ingeria bebida alcóolica, se já tinha praticado aborto, sobre possíveis amantes.
A frase ‘matei por amor’ era aceita pela sociedade como um motivo justo.
Ainda na década de 70, com a luta do movimento feminista, a frase “quem ama não mata” passou a ser o novo pensamento, em reação à frase anterior.
Apesar da tese da legítima defesa da honra estar em extinção (assassinato de mulher pelo companheiro), visto que os tribunais, na maioria das decisões, não têm aceito esse argumento, o “imaginário” popular (sociedade) ainda faz seus julgamentos e questiona o modo de viver da vítima.
Numa outra oportunidade, trataremos dos sentimentos que, ao meu ver, estão presentes nessa relação de dominação – ciúmes, posse, orgulho...
Delegada de Polícia Civil
Atualmente lotada na Delegacia Especializada em apurar crimes contra Mulheres
Formada em Letras e Direito e concluindo o curso de Ciências Sociais,
todos pela UFAC