
Entre o desânimo e o estímulo, produtores apontam boas perspectivas numa atividade, que, com apoio, poderia ser bem mais doce
Flaviano Schneider
A cana-de-açúcar encontra na terra acreana excelentes condições para seu cultivo, e embora o Estado tenha uma variada gama de produtos feitos a partir dela, como acúcar, gramixó ou mascavo, rapadura, mel, alfenim, batida e garapa, as quantidades são irrisórias, talvez porque somente se destinam ao mercado local.
No entanto, isto pode mudar, especialmente porque o açúcar gramixó, e assim também a rapadura, além de adoçar tem amplas vantagens sobre o açúcar branco, contém cálcio e fibras, é um produto natural e integral, é energético e seu consumo vem aumentando gradativamente no Brasil.
O Acre produziu em 2001 (dado oficial mais recente conhecido) 165 toneladas de açúcar gramixó, sendo o Vale do Juruá o maior produtor, com destaque para Cruzeiro do Sul (60 toneladas), Feijó (50), Marechal Thaumaturgo e Rodrigues Alves (16 toneladas cada).
Em abril de 2000, a Secretaria de Produção (Sepro), em parceria com o Sebrae, elaborou um plano estadual do açúcar gramixó, com ação estratégica para a regional do Juruá. O objetivo era tornar o açúcar gramixó uma alternativa segura para geração de renda.
O plano aponta para a necessidade de ações de caráter geral, como a de dotar a região de produção de infra-estrutura: estradas, eletrificação, assistência técnica, crédito, armazenagem, saúde pública e educação.
De caráter específico, intervindo diretamente na cadeia produtiva, o plano prevê como prioridade o aumento da área plantada, que terá como conseqüência o aumento da produção e a introdução de variedades mais produtivas de açúcar, contando com parceiros como Embrapa, Basa e BB.
O plano aponta também para a necessidade de melhoria na qualidade do açúcar produzido, definindo padrão e rigor absoluto na higiene. Outra necessidade seria a organização da comercialização, baixando custos e ampliando mercado. O estudo aponta para a necessidade de parcerias com órgãos como Sebrae e associações de produtores.
Pontos fortes e fracos
O açúcar gramixó tem tudo para se tornar um importante produto de fixação do homem ao campo, pois, além de ser alimento, é também fonte de renda. A terra acreana é boa para a cultura e os colonos têm tradição no cultivo, que exige menos capinas.
O produto gera renda para mão-de-obra familiar e ainda ocupa mão-de-obra contratada. A produção é rápida, não necessita de agrotóxicos (são poucas as doenças na cultura) e o bagaço pode ser aproveitado como adubo orgânico.
Ainda como vantagens pode-se citar a diversificação da produção agrícola, a necessidade de poucos investimentos para produzir e o processo bem simples de fabricação.
Mas também existem problemas que deverão ser sanados para o triunfo da cultura em larga escala no Acre. O acesso ao crédito é complicado, faltam ramais com trânsito perene. Também existem problemas com doenças (broca da cana) a assistência técnica é insuficiente, não se aplicam técnicas eficientes para recuperação de solos que vão se esgotando e o produtor não tem como fazer análise do solo.
Existem ainda problemas técnicos, como o desconhecimento do rendimento da cana a falta de equipamentos modernos para o processamento e a falta de padrão no produto final.
Ainda pode ser citado que a mão-de-obra para o fabrico do gramixó é cara, tornando seu custo de produção elevado. A distância da lavoura para o engenho também é uma dificuldade adicional, pois geralmente o produtor não tem um meio de transporte eficiente.
Mutum tem vários produtores
que dependem da atividade
O ramal do Mutum concentra alguns produtores de derivados da cana-de-açúcar. E se existem aqueles que estão satisfeitos com a atividade, também há quem ache que não vale muito a pena, pois, embora dê lucro, dá também muito trabalho.
Na altura do km 8, José Alberto Soares produz especialmente rapadura e batida, geralmente às sextas-feiras, uma quantidade aproximada de 50 quilos. Ele conta que mora no local há 20 anos e produz rapadura há 10. Ele não demonstra interesse em aumentar a produção. No sítio, desenvolve várias atividades agrícolas, todas contribuindo um pouco para sua manutenção. O bagaço da cana, que segundo ele é ótimo como adubo, é doado para produtores de hortaliças que vão apanhar o estrume no seu sítio.
Vizinho a ele, o casal Roberval e Jaci Bonfim se mostra bem mais animado com a produção de derivados da cana. Eles contam que a fornalha de sua propriedade atende três produtores. Cada um deles, quando faz a moagem da cana, produz aproximadamente 100 quilos de rapadura e batida, os produtos principais.
Os produtores preferem fazer a rapadura e a batida porque dá menos trabalho. O gramixó (açúcar preto) e o alfenim são considerados muito trabalhosos.
Roberval conta que trabalha produzindo rapadura há 20 anos e, apesar de ser muito trabalhoso, vale a pena no orçamento familiar. A cana é de plantação própria.
Sua produção é toda vendida para um comprador que repassa o produto para supermercados locais à razão de 1,80 real o quilo. Quando vende no próprio engenho, uma peça de batida custa 1,50 real e a rapadura custa 70 centavos.
A confecção da batida é uma arte que só se aprende depois de muita observação, pois depende de perceber o “ponto” certo para que ela não se quebre, ficando todas as peças aproximadamente do mesmo tamanho.
Roberval e Jaci trabalhavam ontem em condições adversas devido às fortes chuvas. Seu negócio é uma pequena criação de gado e a produção de rapadura e batida. A casa da fornalha está em estado lastimável, mas eles garantem que no verão, época em que a produção aumenta muito, vão melhorar as instalações físicas.
No seu entendimento, se tivessem apoio do governo para melhorar as condições de produção, poderiam aumentá-la, pois mercado para tal existe.
Dona Jaci comenta que tudo o que produzem é vendido. Não dá para quem quer.
Comercialização enfrenta problemas
Em certas ocasiões é até difícil encontrar produtos originários da cana de boa qualidade. No mercado do terminal rodoviário há um pequeno comerciante que vende diversos produtos derivados de cana há mais de dez anos.
Ele reclama que no inverno não encontra produção no Acre para comprar e revender.
O gramixó que ele tem à venda ao preço de 2 reais é muito preto, o que desestimula os fregueses, que querem um produto mais amarelinho, mas o pior de tudo é que ele vem do Amazonas.
A rapadura vendida no estabelecimento tem duas procedências: do próprio Acre e do distante Ceará. O comerciante, que preferiu não dizer o nome, conta que já comprou um partido de 3 mil rapaduras do Ceará. Contou ainda que a rapadura do Ceará é mais bem feita e dura muito mais tempo. Segundo ele, o produto feito no Ceará é muito superior ao feito no Amazonas, onde o pessoal não limpa a garapa corretamente durante o feitio do mel e da rapadura.
O comerciante diz que não é por falta de cana que o produto é tão escasso. “Tem gente com plantação de cana já madura, mas não encontra alguém disposto a beneficiá-la.”