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Rio Branco - Acre, domingo, 26 de janeiro de 2003
Paulo e os livros da vida

Archibaldo Antunes

Não nos vemos faz bem quatro anos, desde que me mudei de Macapá, e nesse intervalo trocamos poucas correspondências. Eis que nesta semana me chega uma longa carta de Paulo dando-me notícias suas, da cidade, das angústias literárias. Um trecho do texto me tocou sobremaneira, justamente este que reproduzo aqui.

Outro dia terminei de ler mais um livro, eram duas horas da madrugada. A rua, óbvio, estava vazia e quieta, e então comecei a pensar nas noites em que estive aqui sozinho, livro aberto, a ler o mundo. Tu sabes muito bem o que é isso, não é mesmo? A gente leva anos ouvindo o que nos têm a dizer Dom Quixote, Bentinho, Joseph K., Aureliano Buendía, Ana Karenina, os irmãos Karamazovi. Personagens que atravessaram as décadas e até os séculos para nos vir povoar as madrugadas insones, nos preencher o vazio da alma, nos dar à vida algum sentido.

Pra que ter lido tantos livros quando muito pouco me adianta, por exemplo, saber sobre as obras de Dostoievski? O que ganhei conhecendo as angústias de Graciliano Ramos, sua infância tão sem carinho, os personagens que criou à semelhança dos traumas que eram seus? Que herança acaso me deixou José de Alencar, esse escritor magnífico que me encheu de significado a juventude?
Olho pra estante e me surpreendo que venha, há tantos anos, investindo meu minguado dinheiro em livros. Um dinheiro que às vezes me fez falta pra outras coisas mais urgentes, como uma camisa nova ou um par de sapatos.

E o que nos deram em troca os livros que lemos, Ark? Talvez a certeza de que a literatura é uma catarse, uma fábrica de esperanças. Mas cansei das esperanças que não se realizam. Cansei de me saber um estranho entre os que nunca precisaram de leitura pra viver suas vidinhas simples (e em alguns casos até mais interessantes do que a minha, do que a sua vida).

Tenho alimentado a ilusão de que a literatura há de me salvar de uma existência medíocre, a mim talvez destinada desde o berço. É o que me dizem essas duzentas obras na estante, quando as encaro no fim da noite e descubro que não tenho a quem segredar meus temores. É o que me dizem quando me percebo com saudades de um luar que perdi, de uma namorada que nunca tive, de um abraço que jamais resgatarei do meio das coisas não acontecidas – justamente porque estava ocupado em ler algum desses livros.

Às vezes não me orgulho da obras que acumulei, antes me condenando pela reclusão a que me obrigo quando as leio. E as leio unicamente pra me encontrar fora de mim mesmo e de minhas miudezas existenciais. Leio-as quem sabe pra transcender uma condição que reconheço menor, a vil condição de um carpinteiro das palavras.

Li naquela revista que tu me mandaste sobre os agricultores pobres do interior do Acre, gente capaz de se privar do mínimo que possui pra ofertar aos recém-chegados. E me pergunto: quantos de nós, escribas e leitores, são capazes de oferecer a própria cama a um desconhecido que veio ancorar o batelão no barranco da nossa miséria humana?

Espero, meu grande amigo, que não tenhamos passado uma existência inútil entre livros que acaso nada de bom nos puderam ensinar.

A carta poderia ter sido escrita por mim, e enviada a ele. Seguiria apenas sem as referências elogiosas a José de Alencar - que desde minha adolescência acho um chato de galochas, fraque e monóculo.

* Cronista/ark30antunes@bol.com.br

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