
Esta semana comemoramos o centenário do Combate de Porto Acre. Tido por muitos como o final da Revolução Acreana, este combate na verdade representou somente o fim da fase mais sangrenta do movimento revolucionário, mas não da Revolução propriamente dita. Seriam necessários ainda onze meses até que o Barão do Rio Branco conseguisse negociar um acordo definitivo com o governo boliviano. Nesse meio tempo o exército de seringueiros acreanos precisou resistir ao avanço do general Pando que, apesar de na época ser o presidente da Bolívia, veio pessoalmente à frente de seu exército com o objetivo de invadir o Acre; teriam que suportar também a ocupação militar brasileira que tratou muito mal toda a população que aqui habitava, como se fossem todos bandidos da pior estirpe; precisaram, enfim, os acreanos manter viva a chama revolucionária até que a ameaça representada pelo Bolivian Syndicate estivesse totalmente afastada.
Mas não podemos esquecer que o combate de Porto Acre foi especialmente importante se levarmos em conta que confirmou a força do exercito de seringueiros comandado por Plácido de Castro e outros seringalistas, além de coroar uma sangrenta e penosa campanha militar que resultou em aproximadamente 500 mortos (5% de toda a população do vale do Acre na época). Para ressaltar essa importância, hoje traremos aos leitores um resumo da campanha militar que teve início em 06 de agosto de 1902 e que conheceu a vitória em 24 de janeiro de 1903, fazendo ressurgir o Estado Independente do Acre.
Tomada de Xapuri - 06 de agosto de 1902
Durante três anos os brasileiros do Acre lutaram contra a dominação estrangeira. Desde 1o de maio de 1899, na 1a Insurreição Acreana, até os inesperados acontecimentos da Republica do Acre e da Expedição dos Poetas.
Com a ameaça concreta do Bolivian Syndicate, em 1902, era preciso mais que nunca lutar. Por isso, ao amanhecer do dia 06 de agosto, dia da festa de independência da Bolívia, Plácido de Castro a frente de trinta homens invadiu Xapuri e tomou os três locais onde estavam os bolivianos. O Intendente, ao ser acordado tão cedo, ainda exclamou: “És temprano para la fiesta”. Ao que Plácido de Castro respondeu: “Não é festa, Sr. Intendente é Revolução!” Começava assim a fase mais sangrenta e radical da longa Revolução Acreana.
1o Combate da Volta da
Empresa - 18 de setembro de 1902
Ao receber a notícia do deslocamento de tropas bolivianas pelo varadouro das Missões em direção a Volta da Empresa (atual Rio Branco) Plácido de Castro avançou com um pelotão de 63 homens tentando surpreender os bolivianos.
No dia 18 de setembro, ao entrar no campo da Volta da Empresa, Plácido e seus homens foram atacados de surpresa pelo exército boliviano que havia chegado primeiro ao local. Melhor posicionados, os 150 soldados bolivianos comandados pelo Coronel Rozendo Rojas, levaram vantagem sobre os acreanos que foram obrigados a bater em retirada, deixando pelo menos vinte brasileiros mortos e outros tantos feridos ou prisioneiros na Volta da Empresa. O impacto dessa primeira derrota foi arrasador para a Revolução.
Combates do Telheiro e do Bom
Destino – 23 e 24 de setembro de 1902
Com a ocupação da Volta da Empresa o exército boliviano consolidou seu domínio no Médio Acre. Era preciso agora tomar o seringal Bom Destino, que bloqueava a movimentação militar boliviana. Para tanto parte das tropas aquartelada em Puerto Alonso atacou os seringais Telheiro e Bom Destino.
No dia 23 de setembro um pelotão boliviano composto por 50 homens comandados pelo Coronel Canseco atacou de surpresa o Telheiro matando sete brasileiros e prendendo outros seis. Porém, ao tentar atacar o seringal Bom Destino, no dia seguinte, os bolivianos encontraram ali 250 seringueiros entrincheirados que rechaçaram o ataque e derrotaram o pelotão boliviano obrigando-o a fugir de volta para Puerto Alonso.
2o Combate da Volta da
Empresa - 05 a 15 de outubro de 1902
O exército boliviano havia fortificado sua posição na Volta da Empresa. Além de varias linhas de trincheiras, o acampamento militar recebeu também forte alambrado de arame que o tornava quase inexpugnável.
No dia 5 de outubro o exército de seringueiros brasileiros cercou o campo da Volta da Empresa e deu inicio ao difícil ataque da cidadela boliviana. Os brasileiros precisaram escavar trincheiras em zigue-zague para se aproximar e tomar as trincheiras bolivianas. Mas a luta permaneceu equilibrada por vários dias enquanto ambos exércitos sofriam pesadas baixas. Até que, no dia 15 de outubro, os bolivianos decidiram se render para evitar a investida final acreana que era anunciada nas trincheiras como implacável.
Combate do Bahia – 11 de outubro de 1902
Enquanto Plácido de Castro enfrentava o exercito regular boliviano no médio Acre, os revolucionários do Xapuri comandados por José Galdino enfrentavam os bolivianos do Alto Acre. No rio Tahuamano, Don Nicolas Suarez, havia reunido campesinos bolivianos e formado a Coluna Porvenir.
Por isso, 80 revolucionários brasileiros deixaram Xapuri, sob o comando de Manoel Nunes, e marcharam até a barraca do Bahia. No dia 11 de outubro, os brasileiros foram atacados de surpresa pela Coluna Porvenir, às margens do igarapé Bahia. Os bolivianos apertaram o cerco e incendiaram o barracão protegido pelas trincheiras brasileiras. Para não serem queimados, os acreanos tiveram que abandonar suas trincheiras, sendo mortos pelas balas inimigas.
Combate de Santa Rosa – 18 de novembro de 1902
Para estabelecer o controle dos varadouros que vinham desde os rios Beni e Madre de Dios – e que eram utilizados para abastecer de homens, armas e mantimentos o exército boliviano – Plácido de Castro marchou de Capatará até as margens do rio Abunã, em pleno território povoado por bolivianos.
No dia 18 de novembro o exército revolucionário atacou de surpresa o Barracão Santa Rosa, o mais importante daquele rio e rota do comércio de gado boliviano. Depois de algumas horas de intenso combate o barracão foi tomado pelos brasileiros, sendo então incendiado. Em seguida, os bolivianos que ali moravam foram dispersos e suas trincheiras destruídas, consolidando o domínio acreano do médio Acre.
Combate de Costa Rica – 08 de dezembro de 1902
Plácido de Castro planejava atacar Palestina que era o mais importante arsenal boliviano no rio Órton, mas desistiu e voltou para o Xapuri. No caminho, danificou todas as pontes e varadouros que cortavam a região dos campos por onde viajavam o gado e os soldados bolivianos para o Acre.
Dias depois, Plácido já se encontrava nas proximidades de Costa Rica, as margens do rio Tahuamano. Era dia de Nossa Senhora, 8 de dezembro. Assim mesmo 300 homens atacaram de maneira fulminante o barracão Costa Rica que não conseguiu opor resistência. O massacre de brasileiros do igarapé Bahia estava vingado e o domínio revolucionário no Alto Acre garantido. Só faltava conquistar Puerto Alonso, ultimo reduto boliviano no baixo rio Acre.
Combate de Porto Acre – 15 a 24 de janeiro de 1903
Ao amanhecer do dia 15 de janeiro o povoado de Puerto Alonso estava cercado pelas bandeiras dos revolucionários acreanos. Foi deflagrado então o combate que decidiria o destino do Acre.
O quartel general boliviano era protegido por linhas de trincheiras e alambrados e a passagem pelo rio Acre era impedida por uma grossa corrente e um canhão. Depois de três dias de muitas mortes, os acreanos conseguiram romper a corrente que bloqueava o rio e passar com o vapor Independência.
Brasileiros e bolivianos guerrearam sem tréguas nas trincheiras alagadas pelas abundantes chuvas de janeiro. Até que, no dia 24, depois de seis meses de guerra e centenas de homens mortos, os militares bolivianos se renderam e entregaram definitivamente o Acre para os brasileiros.
* A síntese dos combates aqui publicada foi feita com a colaboração do acadêmico de história Ney Ricardo que também é estagiário do Departamento de Patrimônio Histórico