
“Por mim, as calçadas seriam de ouro”
ALTINO MACHADO,
Repórter Especial
O prefeito Isnard Leite (PPB) aguarda apenas a confirmação da data para se reunir e abrir com o governador Jorge Viana (PT) uma relação institucional com o objetivo de enfrentar os problemas de Rio Branco.
Ambos já conversaram informalmente sobre a nova relação em três ocasiões. Isnard Leite, 63, assumiu a prefeitura quando o engenheiro Flaviano Melo abandonou o cargo para se candidatar ao governo estadual pelo MDA.
Mantém a equipe de secretários e assessores do começo da gestão, nega que esteja sob influência do candidato derrotado ao governo e volta a anunciar que fará as mudanças que julgar necessárias.
Isnard Leite está pessoalmente interessado em estabelecer parceria com Jorge Viana no sentido de enfrentar os problemas de infra-estrutura e de abastecimento de água da cidade.
O prefeito espera contar com o apoio do governador para a construção de duas pistas elevadas para melhorar o tráfego de carros no centro da cidade.
Ele disse que o MDA está muito debilitado com a decisão da população nas últimas eleições. “Há uma necessidade da rearticulação de forças porque a unanimidade nunca é boa”, afirma.
Leite acha que ninguém pode tomar conta de uma cidade como Rio Branco de forma integralmente satisfatória. “Eu também já fiz parte daqueles que criticavam os prefeitos que por aqui passavam. O problema continua sendo o mesmo: a falta de recursos e não a vontade do prefeito. Por mim, as calçadas seriam de ouro.”
Leia os melhores trechos da entrevista.
Como o senhor avalia o seu desempenho na administração da prefeitura de Rio Branco?
Não fica bem o autojulgamento. Cabe à população me julgar, julgar o trabalho da equipe da prefeitura. Alguma coisa tem sido feita em benefício da população.
A maior dificuldade é gerencial ou financeira?
A maior dificuldade numa administração é financeira, claro. Os recursos financeiros são escassos.
O governador Jorge Viana já deu sinais de que considera importante a parceria do governo estadual com a prefeitura da capital. O senhor vai dar algum passo para consolidar essa parceria?
O governador conversou antes com Flaviano Melo, com quem fez um convênio para ajudar a prefeitura no calçamento de algumas ruas da nossa cidade. Infelizmente esse convênio não prosseguiu. Nós já fizemos a prestação de contas desse convenio ao Estado. O governador e eu já conversamos três vezes. Na primeira, ele fez uma visita de cortesia ao meu gabinete e nas outras duas vezes conversamos rapidamente em Brasília. Estamos agora aguardando a confirmação de uma data para nos reunirmos e tratarmos dos interesses de Rio Branco e do Estado.
Qual a sua opinião sobre o departamento criado pelo governo estadual para cuidar do desenvolvimento urbano das cidades?
Espero que o programa para as cidades seja levado a efeito e que convênios sejam realizados com o governo federal e estadual para que possamos trabalhar em benefício da população.
Esse departamento foi criado para que o governo possa executar obras em cidades administradas pela oposição, que é acusada de ter, no primeiro mandato dele, criado dificuldades para algumas ações em benefício da população. O Parque da Maternidade, por exemplo, foi executado pelo Estado sem autorização da Prefeitura.
Não é que o governo não tenha tido autorização para executar a obra, mas deveria ter cumprido as determinações da lei. São obrigações às quais todos nós estamos sujeitos. Temos que cumprir a lei. Está havendo, por parte de algumas pessoas, interesse em que venha a surgir algum impasse entre o governo e a prefeitura de Rio Branco. Mas nada vai influir no nosso possível entendimento institucional.
Constantemente o senhor tem sido cobrado a promover mudanças no secretariado que foi escolhido por Flaviano Melo. O senhor ainda mantém as promessas de mudanças na equipe?
Tenho dito que vai haver mudanças. A imprensa vem cobrando, mas não sou daquelas pessoas que se sujeitam a imposições. As mudanças que se fizerem necessárias na equipe vão acontecer.
O ex-prefeito Flaviano Melo ainda exerce alguma influência na composição de sua equipe ou o senhor assumiu algum compromisso para manter a equipe nomeada por ele?
O meu compromisso é com minha consciência e com a população de nossa cidade. Existe o MDA, eu faço parte do MDA, mas as decisões na prefeitura de Rio Branco são tomadas pelo Isnard Leite.
Por qual motivo o senhor adia tanto a decisão de promover as mudanças julgadas necessárias?
É para deixar que vocês da imprensa me façam perguntas como essa. Às vezes elas me divertem. Ainda me reportando à sua pergunta anterior, de que eu possa estar sob a influência de alguém, as pessoas podem ver pelo meu comportamento no passado e no presente que eu não me submeti a esse tipo de imposição.
O senhor não avalia que uma parceria com o governador Jorge Viana possibilitaria à sua administração sair da situação em que se encontra hoje?
Não estou em xeque com pessoa alguma...
Mas, do ponto de vista administrativo, sua gestão parece enfrentar dificuldades enormes de operação.
Ouvi uma conversa hoje [ontem] de que existem setores que... Não vou falar disso não. Não vou tocar nesse assunto.
O senhor tem liberdade para falar, prefeito.
Talvez haja necessidade de o governo do Estado pedir pessoas daqui da Prefeitura para servi-lo em alguma secretaria. É num local onde estamos bem e o governo precisa de recursos. Em se tratando de interesse comum, não tem por que não atender a esse pedido. Entendimentos políticos poderão existir entre a prefeitura e o governo estadual. A prefeitura também é política e nessa direção buscaremos o bem comum.
O jornalista Luis Carlos Moreira Jorge, que é seu assessor de imprensa, decretou a morte do MDA. O senhor concorda que o MDA está morto politicamente?
Diz o Luis Carlos que sim. Ele é jornalista e fala isso.
Mas o que o senhor pensa?
Com a decisão da população, nas últimas eleições, eu vejo o MDA muito debilitado. Há uma necessidade da rearticulação de forças porque a unanimidade nunca é boa. É preciso estimular o surgimento de novas lideranças.
A oposição precisa mudar o discurso?
Acho que a oposição precisa mudar não apenas o discurso. Acho que a oposição tem que mudar a forma de se comportar. Acho que tem que haver uma mudança porque a população rejeitou o discurso que foi apresentado. As armas políticas usadas fracassaram. Temos que buscar outros mecanismos para fazer frente à atual situação. O atual governo passou mais de 20 anos lutando para chegar ao poder. Um dia a oposição poderá voltar ao poder. Isso vai acontecer não se sabe quando, mas vai acontecer. Costumo dizer que a política é como o pêndulo de um relógio.
Em que áreas o senhor acha que pode haver nesse momento uma parceria com o governo, para que haja ações em benefício da população?
Teríamos duas áreas. Uma delas é o problema de água. Temos apenas um manancial ou dois, se a gente considerar o igarapé da Judia. Não é o sistema de distribuição que está com falhas. Não se trata disso. A realidade é que o rio Acre poderá se esgotar em breve caso as providências não sejam tomadas com urgência, a partir de agora. O grande problema de água nosso é a fonte e ela está se esgotando.
O senhor agora está tendo uma preocupação típica de um ambientalista?
Sim, claro. Eu sempre gostei da mata e adoro pescar. Teve um determinado período da minha vida que não queria estudar e meu pai me mandou viver num seringal. Eu voltei de lá quando constatei que a vida lá era muito mais pesada do que eu tinha se estivesse estudando. Eu vi que era muito mais fácil estudar do que viver num seringal carregando borracha num varadouro. Daí eu voltei a estudar.
Mas a ameaça de extinção do rio Acre como fonte de abastecimento de água da cidade é um problema grave.
É um problema que teremos que encarar agora, mas que não será solucionado em curto prazo. Hoje, para se despoluir o igarapé São Francisco em seus 26 quilômetros de extensão, não se gastaria menos de R$ 400 milhões. As opções que temos são várias: a despoluição do São Francisco ou manter o igarapé da Judia, mas encarar uma solução para o rio Acre é mais prudente. A Universidade Federal do Acre tem como sugestão a criação de um imenso lago, acima do Amapá.
Em quais outras áreas a parceria com o governo pode ser benéfica para a população?
O problema de Rio Branco é um problema que exige apoio conjunto do governo estadual e federal na área de infraestrutura.
Alguns críticos consideravam o “bebódromo” a pior obra do ex-prefeito Jorge Viana. O senhor decidiu demoli-la por que?
Aquilo foi desvirtuado do projeto original e havia muita reclamação da população. Ninguém cuidava daquilo.
Jorge Viana deixou a prefeitura de Rio Branco com os espaços públicos livres dos invasores. As nossas praças voltaram a ser privatizadas por ambulantes e comerciantes durante a administração de Mauri Sério e agora na sua. Como o senhor encara isso? Vai combate-los?
Eles estão saindo de lá, da praça em frente ao Palácio, até o dia 30. Esse é prazo que têm. Vão sair sem briga.
Tem algum prazo para a retirada do pessoal que invadiu a praça central de Rio Branco, em frente à Prefeitura?
Temos um projeto junto à Suframa para a construção de três praças de alimentação em Rio Branco. No momento que os recursos forem liberados, iremos construir três praças de alimentação na cidade e então começaremos a retirar o pessoal que está ocupando hoje o passeio público. Tenho que cumprir o Código de Posturas. Vamos respeitar a lei.
O que o senhor pretende construir na cidade, mas que ainda não foi anunciado publicamente?
Agora você vai ouvir. Eu vou falar isso pela primeira vez. Pretendo construir até o final do meu mandato dois viadutos [elevados] na cidade. O primeiro no cruzamento das avenidas Getúlio Vargas e Ceará; o segundo, no cruzamento da Ceará com a Floriano Peixoto. Vou conversar com o governador sobre o essas obras. Vai ser um trabalho bonito e, quem sabe, ele resolve participar construindo outro adiante para desafogar mais trânsito no centro da cidade.
O senhor já dispõe dos estudos de impacto dessas obras?
Sim, claro. Está sendo finalizado e nos próximos dias estará em minhas mãos detalhadamente. Hoje não se pode pleitear recursos sem projeto.
Qual será o custo financeiro dessas obras?
Isso não importa nesse instante.
Essas parecem obras de quem sonha com um segundo mandato, embora o senhor tenha afirmado não ter essa pretensão. O senhor mudou de idéia?
É muito cedo pra gente discutir isso. O tempo dirá. Eu nunca pretendi nem estar aqui na Prefeitura. Estou aqui pela ousadia dos que lançaram meu nome e pela ousadia de ter aceitado.
O que o senhor teme?
Tenho medo de uma alagação. A prefeitura não está preparada para isso. Não dispõe de estrutura para cuidar de eventuais desabrigados. Estamos atentos, mas não dispomos de recursos financeiros para assistência.
A sociedade pode ficar tranqüila com as contas da Prefeitua pelo fato de o senhor ser conselheiro aposentado do Tribunal de Contas?
Não me cabe o autojulgamento. Quem vai julgar é o Tribunal de Contas do Estado. Eu posso errar. Pretendo não errar. O que não posso, em caso de erro, é persistir nele. Existem problemas graves aqui que estou me deparando com eles.
Quais são esses problemas?
Problemas administrativos, como a admissão de pessoal levada a efeito erradamente. Isso certamente vai esgotar minha cota com despesa com pessoal. São problemas de 10 ou 12 anos atrás. É um grande desafio soluciona-los.
O senhor teve alguma decepção como prefeito? Achava antes de assumir o cargo que poderia fazer mais do que tem efetivamente está fazendo?
É muito fácil criticar. A crítica é sempre boa e necessária, mas não tem como tomar conta de uma cidade como Rio Branco de forma integralmente satisfatória. Eu também já fiz parte daqueles que criticavam os prefeitos que por aqui passavam, inclusive meu pai que foi três ou quatro vezes prefeito dessa cidade. O problema continua sendo o mesmo: a falta de recursos e não a vontade do prefeito. Por mim as calçadas seriam de ouro.
Colaborou o articulista Elson Martins.