
O Banco Central argentino vai adotar o sistema de metas de inflação. A taxa de inflação anualizada do último trimestre do ano foi de 3,5%, um sucesso diante do tamanho da desvalorização da moeda no ano passado. O BC de lá tomou novas medidas para aumentar a demanda privada do dólar e, assim, evitar que o peso suba. Nos últimos dias, o movimento se inverteu e o dólar subiu.
Existem boas notícias na Argentina neste tempo de recuperação econômica. O ministro Roberto Lavagna disse que os técnicos do Ministério da Economia estão revendo para 3,5% as previsões de crescimento para 2003. Economistas das consultorias não estão tão otimistas, mesmo assim, todos admitem que, no país, o pior passou.
A alta do peso não é completamente uma boa notícia. É, em parte, resultado de um problema: como o país continua em moratória com seus credores privados, não há saída de dólares. A boa notícia é que a Argentina conseguiu, no pior ano da sua pior crise, um saldo comercial de mais de US$ 16 bilhões. Outra boa notícia é que acabou a corrida pela moeda americana. Com isto, se formou um quadro em que há entrada e não há saída de dólares.
O Banco Central tem adotado algumas medidas de flexibilização cambial para aumentar a demanda pela moeda americana. Tem também comprado dólares para aumentar as reservas que estão em US$ 10 bilhões, mas não pode comprar muito devido às limitações impostas no acordo com o FMI.
— O Fundo acha que nós podemos estar caminhando para uma explosão monetária, e nós tememos fazer um aperto excessivo e matar a recuperação que começa a acontecer na economia — me explicou um alto funcionário do governo argentino.
Este foi o ponto da discórdia na negociação do acordo com o Fundo. Os técnicos do FMI têm medo de nova escalada inflacionária este ano. A taxa terminou em 40% no ano passado; a previsão dos economistas do setor privado é que caia à metade este ano. No BC, há mais otimismo. O novo presidente do Banco Central, o jovem Alfonso Prat-Gay tem mostrado, nas suas reuniões com autoridades estrangeiras, os números bem baixos de inflação do fim do ano para provar que eles estão conseguindo vencer o problema.
O BC argentino está, neste momento, fazendo estudos para a adoção do sistema de metas de inflação para que assim tenha um mecanismo de reestabilização da moeda.
— Há muito a fazer, temos que construir um modelo de estimação da inflação, temos que estudar os mecanismos de transmissão dos preços; temos que montar um sistema de comunicação eficiente e transparente para a sociedade — me explicou o funcionário graduado do governo responsável pela preparação destes estudos.
O Banco Central argentino tem que aprender a ser um banco central. Nos últimos doze anos, foi apenas uma caixa de conversão, sem as funções clássicas de uma autoridade monetária, e, só agora, foi iniciado o trabalho de construção institucional. Tem pela frente vários desafios. Um deles é o saneamento do sistema financeiro. Há bancos sólidos, que passaram bem pelo terremoto econômico, e há outros que precisam de capitalização. Outro desafio é a devolução dos depósitos a prazo, que estão ainda prisioneiros do que eles chamam de “corralón”. Pelos cálculos das autoridades argentinas, há mais ou menos 12 bilhões de pesos ou US$ 4 bilhões para serem devolvidos. Muito pior desafio é a incerteza jurídica. A Justiça está ameaçando alterar regras de correção dos depósitos. Mas, de todos os problemas, o mais difícil de lidar é a incerteza política.
Ninguém sabe lá como será a eleição, quem serão os candidatos, quais as regras que vão prevalecer, nem mesmo se haverá eleição. E faltam apenas três meses para a data marcada para o primeiro turno: 27 de abril.
O ministro Roberto Lavagna sonha que haja, na Argentina, uma transição nos mesmos moldes da que houve no Brasil; com o mesmo compromisso por parte dos candidatos de cumprir o acordo com o FMI. O BC tem tomado o cuidado de concentrar vencimentos de papéis em datas posteriores à eleição.
A crise econômica parou de realimentar a crise política. A dúvida agora é quanto tempo vai demorar para a melhora econômica iluminar o quadro político. E ele não é nada bom. Eduardo Duhalde teve vitórias importantes neste fim de semana na briga partidária para saber se haverá ou não internas no Partido Justicialista. Isto enfraquece a candidatura de Carlos Menem, mas não a afasta. Ela vai se somar a outras duas candidaturas do mesmo partido: Nestor Kirchner e Rodriguez Saá. Os outros dois candidatos são de partidos novos sem qualquer estrutura: Elisa Carrió, da esquerda, e Lopez Murphy, da direita. Estão todos eles embolados. Na maioria das pesquisas, Lopez Murphy é o lanterninha. Mas há resultados para todos os gostos.
Há pouco mais de um ano, a Argentina viveu um terremoto político que a levou a ter cinco presidentes em onze dias; um terremoto econômico, o PIB caiu 11%, houve congelamento dos depósitos internos e moratória externa; e um terremoto social, com panelaços, conflitos de rua e dezenas de mortos. Hoje, a Argentina está bem melhor do que previam os melhores cenários. Mas ainda falta muito para que se diga que esta crise acabou.