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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 29 de janeiro de 2003
Lula exportação

O primeiro mês de mandato do presidente Lula vai chegando ao fim e as surpresas não param. A mais desconcertante, por explicável que seja, foi o discutido aumento de juros da semana passada. Mas o que até agora deixa os aliados mais eufóricos e os adversários mais espantados é o sucesso internacional que faz de Lula a novidade de um mundo velho, talvez como a nova terceira via.

As viagens pós-eleitorais à Argentina, ao Chile e aos Estados Unidos foram bem-sucedidas mas protocolares. Na posse do presidente do Equador, há duas semanas, Lula foi a estrela, mas aquela era uma festa basicamente latina. Nesta passagem pela Europa é que a dimensão global de sua liderança pôde ser mesmo aferida, seja pela receptividade da imprensa européia, pela aprovação (sincera ou conveniente) de seu discurso em Davos, pelos salamaleques dos banqueiros, a começar de George Soros, que previu o caos para o Brasil se ele ganhasse. Pragmaticamente, os governantes da França e da Alemanha buscaram aproximar-se do novo presidente deste país emergente e surpreendente, que elege alguém com biografia tão singular, alguém que diz em Davos o mesmo que disse aos esquerdistas de Porto Alegre, que chegaram a pedir “um Lula mundial”. Encontram um aliado contra a guerra de Bush e Schroeder até repôs na mesa das urgências as empacadas negociações sobre a área de livre comércio UE-Mercosul.

No conteúdo, Lula nem disse nada do que já fora dito por Fernando Henrique, que também pregou a globalização solidária, reclamou do protecionismo dos ricos e pediu controles sobre o capital volátil. A diferença vem de sua origem, da natureza de sua liderança e da singularidade do PT, que se fez herdando os sonhos mas não os métodos da velha esquerda.

Na campanha, além das desconfianças do mercado e das críticas à baixa escolaridade formal, o candidato Lula teve também questionada sua capacidade de bem representar o Brasil e seus interesses lá fora. Não só pelo candidato José Serra, do PSDB, mas foi ele que bateu com mais contundência. Um de seus programas eleitorais exibiu uma peça em que desfilavam imagens de George Bush, Gerhard Schroeder, Jacques Chirac, seguidas da pergunta: num mundo competitivo como o de hoje, quem é o mais preparado para negociar com estes senhores? Um outro comercial apresentou um depoimento do ex-presidente americano Bill Clinton elogioso a Serra. Não fez referência negativa a Lula mas a intenção publicitária era comparativa. Lula respondeu mostrando sua participação no comício de encerramento da campanha de Lionel Jospin à presidência da França. Jospin foi derrotado mas a imagem pode ter ajudado a dissolver preconceitos. Na verdade, dizem os petistas, os receios contra o desempenho internacional de Lula vinha do preconceito ou da ignorância. Desde os anos 70, Lula acumula vistos no passaporte em encontros com líderes mundiais. Talvez, mas os primeiros atos de governo, a força da vitória e a exportação de imagens que traduzem apoio popular (como as da festa da posse) ajudaram.

Impacto interno haverá, sobre as elites, o mercado e o novo Congresso e a auto-estima nacional. Mas para dizer que “a Europa ainda se curva”, precisamos dos efeitos práticos.

Desde ontem o PSDB tem oito governadores. A alta tucanagem foi ontem a Palmas para a filiação do governador Marcelo Miranda, eleito pelo PFL, seu partido há sete anos.

Sem trator mas com energia

Resolvido o problema das presidências da Câmara e do Senado, e montada a equipe de líderes, o Planalto prepara-se agora para influir na eleição dos presidentes das principais comissões técnicas das duas Casas, cargos estratégicos para a tramitação das reformas. Mesmo não adotando o estilo “rolo compressor” do governo anterior, na base da negociação o governo vai moldando a estrutura do novo Congresso a seus interesses.

Legítimo, desde que o esforço para tal não deixe seqüelas. No fim da era FH, um baixo clero cansado de enfrentar o trator palaciano já não obedecia mais aos líderes. O PT tem negociado com os velhos atores mas muita gente nova ainda vai aparecer e se afirmar no novo Congresso.

Em entrevista ao programa “Roda Viva”, o governador Aécio Neves avaliou que a eleição do deputado João Paulo Cunha para a presidência da Câmara será uma decorrência natural da força do governo, mas que o Planalto forçou a mão para garantir a eleição de Sarney a presidente do Senado. Os dias, e sobretudo as votações, dirão o quanto houve de erro e acerto.

Falações de Lula

Da Argentina, amigos mandam avisos ao PT. Não é bom que o presidente Lula alfinete muito o ex-presidente Carlos Menem. Ele ainda não é carta fora do baralho na sucessão de Eduardo Duhalde. No discurso de Davos, Lula incluiu Menem entre os ex-presidentes carcomidos da América Latina, ao lado de Fujimori, Collor e Salinas.

Em Paris, o ex-presidente Fernando Henrique teria demonstrado preocupação com alguns excessos de Lula, ao falar contra os planos de guerra dos EUA. No mais, os tucanos adoraram a frase de FH, afirmando que ele e Lula ficaram mais parecidos depois da posse de seu sucessor.

VEM CHIADEIRA por aí. Do interior do Piauí, o deputado pefelista Paes Landim dizia ter sabido pelos jornais que o representante do PFL na Mesa será o deputado Inocêncio e o líder da bancada, José Carlos Aleluia. “Se nem um deputado antigo como eu foi consultado, imagine os novos”.

A CERIMÔNIA de posse dos novos deputados, no sábado, será presidida pelo deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Como o atual presidente da Câmara, Efraim Morais, não renovou seu mandato, o regimento deixa a tarefa para o deputado mais antigo. Henrique não é um ancião. Mas aos 54 anos está no nono mandato.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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