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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 29 de janeiro de 2003
Crianças da periferia fazem da
enchente uma forma de ganhar dinheiro

Menores cobram 25 centavos para fazer de barco a travessia de famílias atingidas pela alagação

Devido à enchente do rio Acre, várias famílias foram obrigadas a desocupar suas casas. Os moradores do bairro Aírton Sena, que todos os anos vivem esse caos, já não sabem mais a quem recorrer. Entra prefeito, sai prefeito e as enchentes no bairro são cada vez mais avassaladoras.

“Até quando teremos que agüentar essa falta de assistência? Será que alguma autoridade abrirá os olhos para ver a triste situação em que vivemos? Eu só não saí daqui ainda porque não tenho para onde ir”, questiona indignado o morador Francisco de Melo, 42.

Francisco, morador do bairro há sete anos, é pai de três filhos. Ele reclama que todos os anos é a mesma coisa: testemunha a saída de várias famílias para as casas de parentes. Os vizinhos fogem para não pôr em risco a vida dos seus filhos.

Ele conta que quando as coisas começam a piorar leva as crianças para a casa de sua mãe, pois teme que algum dos filhos pegue alguma doença. É providencial. Com a enchente, o lixo que é jogado nas margens do igarapé é arrastado pela correnteza e chega a beirar sua residência.

“Em tempos como esse é difícil até pra caminhar aqui. Temos que tirar as sandálias dos pés e andar descalço ou com sacolas de plástico e correr o risco de cortar ou furar o pé em algum vidro, já que as ruas aqui são todas de barro e não temos lixeiras. As sacolas de lixo são jogadas na beira da rua ou do igarapé e os cachorros quando rasgam espalham tudo”, explica.

Para Francisco, o que deveria ser feito é um planejamento para resolver o problema da alagação na área, ou que tire definitivamente as famílias de lá, pois, segundo ele, não adianta tirá-las por um tempo para que depois elas retornem novamente, uma vez que a cena se repetirá no próximo ano.

Correndo perigo nas águas contaminadas

“Muitas pessoas têm que passar por aqui, com isso dá pra tirar uma graninha legal”, afirma sorridente o catraieiro Jardeano dos Santos, 11.

Jardeano é um dos moradores do bairro que enfrenta a situação de enchente, mas enfrenta de uma forma totalmente diferente. Ele faz da situação uma forma de lucrar, pois leva numa canoa os moradores que precisam atravessar o igarapé para chegar ao outro lado.

Ele conta que já chegou a faturar 15 reais e só não faz muito mais porque como está chovendo muito sua canoa não oferece qualquer proteção contra a chuva para seus fregueses.

“Eu cobro 25 centavos por pessoa. Faço isso sempre que o rio enche aqui e o preço sempre é o mesmo há três anos. Esse tempo está bom, porque estou de féria e posso passar o dia todo transportando as pessoas”, diz.

Outro adolescente que também está tirando proveito da situação é Eliton Negreiro, 14. Ele explica que até durante a noite faz o transporte e mesmo com tudo escuro transporta muitas pessoas, principalmente as que estão voltando do trabalho.

“No final da tarde o movimento aumenta, pois as pessoas estão voltando do trabalho e precisam atravessar. Pra dar a volta pela rua é mais difícil porque é mais longe e tem muita lama. Mesmo no escuro, dá pra levar as pessoas, antes não dava porque era muito escuro e os bandidos mexiam com a gente, mas agora de uns tempos pra cá as coisas ficaram mais tranqüilas e já não faz tanto medo”, justifica.

Vantagem para uns, prejuízo para outros

Com essa onda de catraieiros, quem sai perdendo são aquelas pessoas que são obrigadas a pagar para atravessar o igarapé, como é o caso de Miracélia Oliveira.

Ela é moradora do local há nove anos, tem três filhos e reclama que por ter que passar ao outro lado todos os dias para ir trabalhar, tem que pagar para os catraieiros todos os dias os 25 centavos.

“Infelizmente eu tenho que passar por aqui duas vezes ao dia durante toda a semana, sem falar que às vezes os meus filhos têm que ir ao outro lado para fazer alguma coisa importante e tenho que pagar a deles também”, desabafa.

Segundo a moradora, quando existia a ponte que ligava o bairro com o Aeroporto Velho, não tinha esse problema durante as enchentes. A água não alcançava a ponte.

“Naquela época era muito melhor. Podíamos trafegar sem problema algum, mas hoje, além do problema com a lama e enchente, temos que arcar com despesas que eu, particularmente, considero desnecessárias”, ressalta a moradora.

Morador desabafa sua indignação com autoridades

Do ponto de vista do morador José do Carmo Barbosa, 48, seria interessante o governo tomar a decisão de pegar essas famílias e levá-las para um local seguro e que isole completamente a área de alagação. Mas isso, segundo ele, deveria ser feito antes que o rio começasse a encher.

“Eles deveriam tirar todo mundo dessa área durante o ano. Mas não. Quando o rio está enchendo é que o governo decide se reunir para pensar no que fazer. Isso é um desrespeito com a população. As coisas devem ser planejadas para que o problema seja resolvido definitivamente e não só durante um tempo”, desabafa.

Ele explica que tem consciência de que os recursos são sempre escassos, mas afirma que políticos não gostam de gastar naquilo que não aparece. “Se algum deputado, governador ou prefeito resolver fazer alguma coisa, acha que a população vai se esquecer e não votará nele nas próximas eleições. Por isso prefere dar bolsa-escola, fazer reformas em prédios públicos e hospitais. E nós, os excluídos, onde ficamos? Eles preferem sempre fazer vitrine e não o que realmente deve ser feito”, finaliza.

Como prevenir-se para uma
grande enchente nos próximos dias

Segundo a Defesa Civil Estadual, o ideal para quem mora em área inundável é contatar amigos, vizinhos ou parentes, um local para possível ocupação quando houver enchente.

Além disso, atingidos também devem programar com a Associação de Moradores (se houver) ou com vizinhos e amigos o meio de transporte para a retirada de seus pertences.

Conheça a cota de enchente de sua rua e adjacências. Verifique qual o abrigo de Defesa Civil que você deverá ocupar durante a enchente.

“Fique calmo. Não dê importância e nem propague notícias alarmantes ou infundadas. Havendo emergência, a Defesa Civil acionará seu sistema de alerta, mobilizando todo o seu efetivo e equipamento. Acompanhe somente os boletins oficiais informativos da Defesa Civil, pelas emissoras de rádio e TV, que estarão informando a respeito dos níveis do rio e procedimentos a serem adotados”, aconselha o comandante da Defesa Civil Estadual, Sidney Araújo.

Se sua residência foi atingida ou estiver em local onde há previsões de inundação, de acordo com a Defesa Civil, proceda da seguinte forma:

Reúna os alimentos, roupas e documentos e transporte-os para local seguro;
Inicie a retirada dos móveis e eletrodomésticos mais úteis, como fogão e geladeira;
Procure o abrigo da Defesa Civil de sua região, levando consigo alimentos para 24 horas, pratos e talheres, colchonetes, roupas de cama e travesseiros, roupa e material de higiene individual, remédios e objetos de uso pessoal (óculos, aparelho de surdez, dentadura etc).

Como conservar os alimentos

Não consuma alimentos que tenham entrado em contato com a água da enchente, evite consumir alimentos crus e sempre que possível, ferva os alimentos durante 10 minutos.

Dê preferência a produtos defumados e salgados, enlatados em geral, doces e conservas. Verifique se há alteração de cor, cheiro ou sabor dos enlatados. Na dúvida é melhor não ingerir os alimentos.

Evite embalagens sem rótulos ou identificação, rejeite embalagens rompidas, amassadas, enferrujadas ou estufadas. Os vegetais e as frutas, se não forem cozidos, deverão ser deixados de molho e lavados com água contendo hipoclorito de sódio (cinco gotas para cada litro de água).

Dejetos não devem ser jogados na água

Evite que os dejetos (fezes, urina e lixo) contaminem a água, os alimentos e as pessoas. Sempre que possível, utilize caixas, jornais e papéis para colocação dos dejetos, jogando-os posteriormente em buracos abertos especialmente para esse fim.

Na possibilidade de se construir uma privada de emergência, cavar um buraco com 80 cm de largura de 1 a 2 metros de profundidade. Este buraco deverá ser encoberto com tábuas de madeira, destinadas ao apoio dos pés, e deverá ter uma proteção ao redor para evitar a entrada de água de chuva.

Nos abrigos, o lixo deverá ser recolhido em recipientes colocados nos diversos pontos de coleta. Tão logo estejam cheios deverão ser depositados em buracos preparados previamente, e recobertos de terra.

Lembre-se: o destino correto do lixo vai impedir o aparecimento de moscas, ratos, baratas e, portanto, de doenças por eles transmitidas. Em locais impossibilitados da coleta regular, o destino do lixo deverá obedecer os critérios estabelecidos para os abrigos.

Animais mortos

Se a mortandade for grande, lançar cal sobre os mesmos, cobrindo-os com terra. Se o estado de decomposição for adiantado, pode-se queimar os cadáveres, lançando sobre eles álcool ou gasolina e ateando fogo. Enterrá-los sempre que possível.
Importante: Na eventualidade de localizar cadáveres humanos, notificar imediatamente a Polícia, Corpo de Bombeiros (telefone: 190/193) ou a autoridade mais próxima.

Cuidados no retorno à residência

Observe cuidadosamente se a sua residência está em condições de ser habitada (rachaduras, pilares etc.).
Preste muita atenção ao remover os móveis, pois é freqüente a invasão de cobras e outros animais peçonhentos nessas ocasiões. Verifique as fossas e recomponha-as, fazendo a limpeza.
Antes de religar a energia elétrica, efetue a limpeza e secagem dos disjuntores, interruptores, tomadas, bocais, lâmpadas e eletrodomésticos.

Caixa d’água

Esvazie a caixa.
Borrife e escove as paredes com hipoclorito de sódio.
Deixe entrar água limpa, enxaguando as paredes.
Retire a água.
Deixe entrar água limpa.
Adicione hipoclorito de sódio na proporção de 1 litro para cada 1 mil litros de água.
Abra todas as torneiras e registros para limpar a tubulação.
Deixe entrar água limpa.
Se a água não for tratada, adicione uma pastilha de cloro de 10g para cada caixa de 1 mil litros.

Água potável

Se não for tratada, ferva-a durante 15 minutos.
Recolha a água da chuva em recipiente limpo, para consumo.
Para tratar a água, use uma das soluções abaixo:
a) Hipoclorito de sódio: 02 (duas) gotas para cada litro de água;
b) Uma pastilha de cloro, conforme especificação para tratamento de desinfecção da água. Esta pastilha pode ser obtida nos postos de saúde.

Segurança contra raios

Mantenha-se afastado de aquecedores centrais e grandes objetos metálicos.
Não use aparelhos como: ferro de passar roupa, secador de cabelos, televisores, telefone etc...
Não se aproxime de cercas de arame, varais metálicos, linhas de forças e telefones, encanamentos metálicos, torres ou redes elétricas.
No mar, não use vara de pescar com carretilha. Evite permanecer na água ou em barcos pequenos.
Na rua, procure abrigo em edifícios ou estruturas não metálicas.
Se estiver trabalhando com trator ou outros implementos agrícolas, pare e procure abrigo, pois eles são freqüentemente atingidos.
Em viagem, permaneça no interior do automóvel pois ele oferece boa proteção.
Quando não existir abrigos, afaste-se do maior objeto da área, principalmente de árvores isoladas , e deite-se no chão.
Afaste-se do topo de morros ou de áreas abertas, onde você seja o ponto mais alto.

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