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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 30 de janeiro de 2003
Esquerda brasileira conquista
novo veículo de comunicação

“Brasil de Fato” coloca em discussão a relação
entre o poder e a nova ordem mundial no dia-a-dia do país

A esquerda brasileira, a partir do III Fórum Social Mundial ocorrido em Porto Alegre, passa a ter um veículo de comunicação próprio. A idéia é ousada e ganha corpo em um momento histórico delicado do ponto de vista ideológico.

O objetivo do jornal, cujo nome é “Brasil de Fato”, segundo o próprio editor, o jornalista José Arbex Júnior, é que “podemos ocupar um grande espaço, já que a nossa ambição é criar um jornal que não dependa das tramóias palacianas, nem da benevolência das elites, mas do apoio popular. É um desafio difícil, mas é o único caminho para criar uma imprensa realmente independente”, avaliou Arbex.

O depoimento foi dado a Rodrigo Savazoni, da publicação “Ciranda da Informação Independente”, via E-mail, para marcar o lançamento do número zero do jornal, no encontro de Porto Alegre. De acordo com o depoimento do editor, “Brasil de Fato” foi inspirado nos jornais anarquistas do século XIX no Brasil: são exemplos “O Anarquista Fluminense”, de 1835, e “O Grito Anarquial”, de 1848.

As influências continuam a se estender pelo século XX, com o “Voz Operária”, ligado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e, por último, o Brasil de Fato encontra inspiração nos jornais de “comunicação alternativa” dos anos 60 e 70.

De acordo Arbex, a relação do “Brasil de Fato” com o governo Lula não terá uma ligação “programática”. “O jornal não é um partido”, setenciou, “Não tem, nesse sentido, uma posição programática sobre o governo Lula”. O editor completa a avaliação da relação com o novo governo afirmando que “acreditamos que o governo Lula é um governo popular, até que ele prove o contrário, se é que isso vai acontecer”.

O Brasil de Fato terá formato tablóide germânico (mais ou menos do tamanho do jornal Página 20), com 12 páginas e trará textos informativos com linguagem de reportagem. Os artigos mais analíticos, semelhantes aos publicados pela revista “Caros Amigos” não serão prioridade para a nova publicação.

“Brasil de Fato” é recebido com otimismo no Acre

A informação de que o “Brasil de Fato” estaria chegando ao Acre com a proposta de agregar todos os discursos dos partidos de esquerda agradou às principais lideranças regionais.

“Considero boa a idéia de agregar os discursos mais plurais possível”, afirmou o presidente do PT no Acre, o futuro senador, Sibá Machado. A única ressalva que o presidente faz é em relação ao conselho editorial do periódico. “É importante que seja formado por pessoas das mais diferentes linhas políticas formadoras da esquerda brasileira para garantir o mínimo de equilíbrio às notícias”, sugeriu.

Márcio Batista, presidente de um dos maiores e mais importantes sindicatos do estado, o Sinteac (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Acre), afirmou que a vinda do “Brasil de Fato” é boa para estabelecer “o embate de idéias que muitas vezes não é uma prática corriqueira dos veículos de comunicação de massa”. Batista também ressalta a importância de se ter um conselho editorial mais equilibrado.

“É interessante a imprensa operária ter que buscar o próprio espaço”, avaliou Luiz Brasil, um dos principais representantes da corrente petista “O Trabalho” no estado do Acre. Brasil afirmou não estar informado sobre “os objetivos do jornal” lançado em Porto Alegre, e exemplificou com o jornal da própria seção petista a qual pertence a importância de se ter um veículo de comunicação para “saber o que pensam as diversa linhas políticas em atuação no país”.

Jornalista quer democratização
na distribuição do jornal

O professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília (Unb), Francisco Dandão, reconheceu a importância de um veículo como o “Brasil de Fato”, mas fez uma série de ressalvas para que os objetivos da publicação sejam alcaçados.

“É preciso que a distribuição do periódico seja boa para garantir que o jornal chegue às mãos do povo”, setenciou. “Não adianta fazer um jornal para que a informação circule somente entre quem detém o poder.”

Dandão fez duas considerações sobre a publicação. A primeira diz respeito especificamente à importância do novo jornal para dar relevância à atuação da esquerda no poder; a segunda consideração guarda ligação com a democratização da informação enquanto um processo de construção coletiva: dar voz a quem não tem.

Essa é uma discussão acadêmica que ganha nova dimensão com a chegada do “Brasil de Fato”. A notícia sempre foi um instrumento utilizado para a divulgação das idéias de um determinado grupo. Quando o editor do “Brasil de Fato”, José Arbex Jr., afirma que o jornal “não é um partido”, ele quer demonstrar independência em relação a qualquer grupo político. E é exatamente aí que a chegada do “Brasil de Fato” se torna interessante.

A julgar a coerência do trabalho de Arbex, o novo veículo pode ser um canal para a discussão da atuação da esquerda em toda a América Latina. Se os partidos que hoje estão no poder central do Palácio do Planalto estão preparados para agüentar um “jornal independente” com linha editorial declaradamente “de esquerda”, é um fato ainda a se concretizar. Como o próprio Arbex afirmou em entrevista, “tornou-se urgente ter um jornal nacional independente do grande capital”.

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