
Aldo Nascimento *
Uma vez inaugurada tamanha desordem emocional, os mortais, agora tolos, deixam de ser senhores de suas vidas. Perdem-se. Se há destino, ele é confuso. Eros, sabemos, é criança, por isso que os apaixonados não sabem para aonde vão.
Sem rumo, à deriva de hipérboles e de sinestesias, perdem a fala dos homens normais para serem individualidades solitárias entregues ao fracasso e à morte. Mas não, nunca, uma morte vulgar.
Quem não assistiu à morte de Cyrano? Quem não viu o fim de Selma, em Dançando no Escuro? Quem não tocou o olhar no personagem André, do filme Lavoura Arcaica? Por meio deles, (des)cobrimos que se apaixonar é morrer.
Mas não quero morrer. Sei, não vale a pena, porque a minha alma é pequena. Desejo, antes, a neutralidade das emoções e a frieza do juízo. Submeto-me ao limite.
Por isso, tornei-me vulgar como muitos. E, por estar no meio de muitos, no lugar comum, estou seguro. Protegido. Que bom, sou mais um com aquelas falas ordinárias sobre a vida em um bar de Rio Branco. A mediocridade me conforta.
Já não desejo transformar, alterar o curso reto de meus passos. Quero tão-somente pagar minhas contas e garantir, no final de cada mês, o meu salário, porque sei que a maior utopia deste século é sobreviver. A Paixão me desviaria.
Sobrevivo, portanto, em sala de aula quando leciono da maneira mais vulgar, isto é, mais superficial, impossível. Em O Catecismo Positivista, Comte sabe que a verdadeira liberdade é quando o indivíduo permanece adequado à ordem externa ou ao mundo objetivo.
Para que levar, então, o novo às aulas de Língua Portuguesa? Para que buscar idéias novas em uma Redação de jornal? Para que serve o gesto autêntico e a crítica sincera ao poder? O que ganhamos quando somos verdadeiros?
Sei que o melhor caminho é “ficar na sua” para não perturbar a ordem das coisas. Por isso, mantendo-me distante da Paixão, minha salvadora virtude agora é a virtude da indiferença pelo novo, pela transformação, pelo autêntico.
Meu nome é Apatia e, no canto de meus olhos, ainda sobraram remelas de um egoísmo ético, que é cuidar de minha própria vida da forma mais medíocre.
Todo domingo, por exemplo, já assisto à TV Globo e morro de rir com as pegadinhas repetitivas do Domingão do Faustão. Para que a vida fique ainda mais emocionante (kkkkk), voto pela Internet e escolho alguém que está no paredão.
Algum leitor pode achar isso depressivo ou irônico, mas, acalme-se!, existe esperança, e ela aparece sempre na forma de uma novela sem qualidade. Será que Maria ficará com Toni?
Nietzsche disse, certa vez, que não conseguiria imaginar a vida sem música. Bem, os acreanos não conseguem imaginar a vida sem o Belo amanhã.
Já vejo aqueles bracinhos para o alto, embalados por paixão a preço populacho. Eu adoro a música do Belo. Irei com esposa e filha.
Aceito tamanha domesticação cultural. Submeto-me, alegre, a essa ordem exterior. Esse, afinal, é o preço da liberdade. E ela é tão vulgar...
* Jornalista