
Comerciantes se retiraram, mas ameaçaram: centro de Rio Branco virará pandemônio com a ocupação do novo espaço
O final da tarde de ontem parecia anunciar um período de turbulência para quase 150 famílias de camelôs no centro de Rio Branco. Por determinação de uma Ação Civil Pública, os pequenos comerciantes que trabalham nas calçadas da Praça Eurico Dutra, em frente ao Palácio Rio Branco, tiveram que se retirar com todos os produtos e barracas para cumprir a ordem judicial.
O Ministério Público Estadual, por meio da 1ª Vara da Fazenda Pública, e com articulação direta da promotora Alessandra Marques, moveu uma ação contra a Prefeitura de Rio Branco exigindo que fossem retirados os comerciantes da praça púbica. O Sindicato dos Camelôs e Feirantes de Rio Branco foi notificado há dez dias, mas, mesmo sabendo da situação a ser enfrentada, a realidade das famílias ali representadas pela venda de carros, lanternas e guarda-chuvas chocava pela dramaticidade.
“O Fome Zero começa com trabalho”, afirmou o presidente do Sindicato dos Camelôs e Feirantes de Rio Branco, José Carlos dos Santos Lima, mais conhecido como “Juruna”. A alusão ao programa do Governo Federal é uma maneira de sensibilizar a população para o problema social em que estão envolvidos.
Atualmente, o sindicato representa exatos 1.360 camelôs de toda a capital e tem força para fazer barulho. Em reunião feita após a retirada das barracas do local, o grupo decidiu que se em três dias “as autoridades competentes não tomarem um encaminhamento razoável para a nossa situação, nós vamos invadir outra rua para trabalhar”, afirmou o sindicalista.
Problema tem natureza social e não urbanística
O contexto em que estão envolvidos os comerciantes da Praça Eurico Dutra é de natureza especificamente social antes de ser um problema que atrapalha o embelezamento da cidade. Juruna não se esquivou de procurar o diálogo. “Nós queremos dialogar até o nosso limite”, afirmou o sindicalista, “mas nós temos que ter uma posição concreta em relação a esse problema que é um problema social antes de ser um problema urbanístico”.
Em conversa com o governador Jorge Viana, na manhã de quarta-feira, o prefeito Isnard Leite aventou com a possibilidade, em uma ação conjunta com o Governo do Estado, de transferir todos os comerciantes da região para as imediações do Terminal Urbano de Rio Branco.
Nenhum entrevistado acredita que o tempo de concretização do novo espaço para a reunião do grupo será suficiente para sanar as necessidades imediatas, por mais que se emprenhem o Governo e a Prefeitura Municipal. “Naquele espaço, vão pelo menos quatro meses de trabalho”, afirmou o camelô João Felício de Souza, “e enquanto isso eu vou viver do quê”, perguntou. Souza está na Praça Eurico Dutra desde 1997. Veio de Boca do Acre com a esposa, Fabíola de Souza Martins. Agora chegou o filho e o aluguel depende das vendas diárias dos produtos.
“Nasci para trabalhar”, diz ex-seringueiro
A decisão judicial, cujo prazo terminou ontem, trouxe um panorama de incerteza e choro entre os comerciantes da região. Todos são remanescentes do quarteirão das imediações do atual Palácio das Secretarias. Quando da reforma do prédio, todo o grupo foi transferido para a Praça Eurico Dutra. Com o panorama de crise econômica, o número foi aumentando a cada temporada.
Hoje, a renda de cada família garante apenas a sobrevivência. Como a maioria dos produtos vendidos pelos camelôs é importada e com a alta do dólar, a venda nos últimos meses diminuiu sensivelmente. Mesmo com todas as dificuldades, as pequenas bancas de venda com dois metros por um e meio eram responsáveis até ontem pela sobrevivência da família do ex-seringueiro Osvaldo Ferreira Jardim, 65.
Há 10 anos, depois de uma das piores crises do mercado do látex, o veterano Jardim resolveu se despedir da vida iniciada nas margens dos rios Macuã e Purus. Veio para a capital “tentar a vida na cidade”. Não demorou muito e percebeu que a única saída para garantir o que comer era vender enfeites de geladeira, guarda-chuvas, porta-moedas e outros produtos importados à beira das calçadas.
A pequena banca de ferro garante a sobrevivência da família de sete pessoas. E o pagamento da R$ 3 por mês ao sindicato garante o poder de organização necessário nesses momentos de crise. “Eu preciso trabalhar”, afirmou quase chorando, “e, na minha idade, não me resta outra solução senão a sina do trabalho porque o roubo não é do meu feitio”.
Sem as bancas, grupo se reúne hoje na praça
O grupo de 148 famílias de camelôs da Praça Eurico Dutra se reúnem hoje pela manhã nas imediações do Bar Municipal, na mesma praça com o objetivo de fortalecer a união entre eles e pressionar uma tomada de decisão “por parte das autoridades constituídas”, como afirmou o presidente do Sindicato dos Camelôs e Feirantes de Rio Branco, José Carlos dos Santos Lima, o “Juruna”.
O sindicalista informou que a assessoria da Casa Civil recebeu o sindicato na tarde de ontem e prometeu continuar o diálogo hoje para resolver a situação de forma conjunta com a Prefeitura de Rio Branco. “Juruna” fez questão de reforçar a idéia de que “a situação tem que partir do princípio de garantia da sobrevivência de quase cento e cinqüenta famílias”, afirmou.