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Amazônia já vive seu ciclo econômico sustentável Seringueiros do Cachoeira, em Xapuri, ganham independência e vivem na modernidade manejando as riquezas da floresta |
![]() A borracha é a mais antiga matéria-prima do novo ciclo econômico da Amazônia |
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Assim como foram pioneiros em promover uma Revolução Armada no início do século passado e frear o avanço da pecuária sobre a floresta a partir da década de 70, os seringueiros acreanos revolucionam novamente a história da Amazônia promovendo, segundo historiadores, o quarto ciclo econômico da região. De caráter absolutamente sustentável, o novo ciclo econômico começa em Xapuri, no Vale do Acre, com o uso múltiplo de algumas riquezas da floresta, como borracha, castanha, madeira, açaí e ecoturismo, que estão gerando muita renda para os seringueiros do Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, mais conhecido como seringal Cachoeira. A reportagem especial de oito páginas, a seguir, feita no seringal Cachoeira, mostra que, além de manterem a floresta em pé, contribuindo para o equilíbrio ecológico do planeta, os seringueiros já contam com renda média mensal da ordem de R$ 1,3 mil, valor superior ao que a maioria de seus pais e avós conseguia obter no passado depois de um ano todo de trabalho. Com tal nível de renda, a maioria dos seringueiros daquela região dispõe hoje de motocicletas, veículos, TV colorida, DVD, freezer, fogão a gás, liquidificador, bebedouro, chuveiro elétrico e outros equipamentos domésticos modernos, que lhe permitem ter o mesmo conforto dos habitantes da cidade. A reportagem também mostra que o novo ciclo econômico e social da floresta amazônica se dá com o apoio decisivo do governo acreano, que vem consolidando no Estado, nos últimos anos, um processo industrial novo, que valoriza, antes de tudo, a floresta e o povo que nela mora. Tal processo permitiu a construção de fábricas de preservativos, de tacos e decks, de beneficiamento de castanha, de frangos, de móveis de madeira e de móveis de bambu, que começam a transformar as matérias-primas da floresta em produtos procurados e cobiçados pelo mercado nacional e internacional.
“Estamos dando a volta por cima na história”, diz Duda Mendes “Nós estamos dando a volta por cima na história”, diz, sorrindo, o seringueiro Antônio Teixeira Mendes, 47, enquanto percorre o interior de sua casa mostrando o que ele, a esposa e as cinco filhas dispõem hoje para viver com o que há de mais moderno no mundo dos eletrodomésticos. Com ar de satisfação, Duda Mendes, como é mais conhecido, mostra a televisão colorida, o DVD, o freezer, o fogão a gás, o liquidificador, o bebedouro, o banheiro com chuveiro elétrico e outros equipamentos menores adquiridos nos últimos anos, que funcionam perfeitamente com a abundância da energia disponibilizada pelo programa Luz para Todos. Na varanda da casa, o sorriso de Duda se amplia. Ali está sua motocicleta Honda, seminova, que adquiriu em maio de 2006 para se deslocar pelos ramais e para as cidades mais próximas. A casa de Duda Mendes não é a única que reflete a melhoria das condições de vida entre os seringueiros do Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, localizado no antigo seringal Cachoeira, com sede a 15 da cidade de Xapuri e a pouco mais de 30 quilômetros de Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. No Cachoeira, assim como Duda Mendes, as demais 85 famílias de seringueiros, filiadas a duas associações de produtores, vivem hoje um novo tempo social, coroado pelo sucesso do manejo sustentável de algumas das inúmeras riquezas naturais existentes na maior floresta tropical do mundo. Chamados hoje de manejadores florestais, os seringueiros do Cachoeira já desfrutam não só eletrodomésticos modernos, mas até caminhonetes D-20, como a que o irmão de Duda, Nilzomar Mendes, trouxe para casa na primeira semana de dezembro passado, data em que foi feita esta reportagem. Nas reuniões periódicas da primeira associação do seringal Cachoeira, é comum ver alguns carros e mais de 20 motocicletas novas e seminovas estacionadas, enquanto seus donos discutem lá dentro novas formas de avanço do manejo florestal comunitário, aquele que vem dando a eles uma independência econômica e social totalmente distinta da vivida no passado, em regime de quase escravidão, por seus pais e avós. O novo boom econômico do seringal Cachoeira, que está mexendo com o comércio, a indústria e os ânimos dos habitantes das cidades do Vale do Acre, vem se consolidando com as atividades econômicas desenvolvidas pelos seringueiros a partir da borracha, da castanha, da madeira, de frutas tropicais, do ecoturismo e até de animais silvestres. Isso tudo somado tem dado aos seringueiros rendas mensais que chegam hoje a mais de R$ 1,3 mil, cifra superior ao que a grande maioria deles ganhava no passado durante todo um ano de trabalho. A fantástica multiplicação de ganhos dos seringueiros do Cachoeira tem sido possível graças à luta que eles empreenderam nas últimas décadas para manter a floresta em pé e aos estímulos e incentivos, dados nos últimos anos, pelo governo acreano - um governo que é dirigido há nove anos por ex-companheiros do sindicalista e ecologista Chico Mendes, morto em 1988 justamente por lutar para que todos os povos da floresta pudessem desfrutar o que já desfrutam agora seus primos Duda e Nilson Mendes e os demais moradores do Cachoeira. Os estímulos e os incentivos do governo vieram com a instalação da fábrica de camisinhas, da fábrica de tacos, de usinas de beneficiamento de castanha e do frigorífico de frangos, entre outros empreendimentos industriais que já foram ou estão sendo implantados na região, agregando valor à produção local e aumentando a renda e o número de empregos para os habitantes do meio rural e das cidades da região.
Melhora econômica e social vem com borracha, castanha, madeira, açaí e ecoturismo “Nós estamos melhor do que os antigos patrões seringalistas, que tinham muitas coisas, mas deviam muito por fora. A gente não deve nada”, declara Duda Mendes, ao detalhar a renda familiar que teve no último ano manejando atividades econômicas nos 446 hectares de florestas que couberam à sua família dentro da área total de 24 mil hectares que formam o Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes. Para chegar à renda que lhe permitiu trazer a modernidade e o conforto para dentro da floresta, Duda Mendes, primo de Chico Mendes, desenvolveu basicamente as atividades de extração de borracha, de coleta de castanha e de retirada da madeira pelo sistema de manejo sustentável. Com a borracha produzida e comercializada na fábrica de camisinhas, situada na Estrada da Borracha, que dá acesso à cidade de Xapuri, a menos de 20 quilômetros da sede do projeto extrativista, Duda apurou R$ 2,5 mil. A castanha, vendida para a Bolívia, para as cooperativas de Xapuri e Brasiléia e para compradores de Rio Branco, resultou em outra renda em torno de R$ 6 mil. E a madeira, comercializada em grande parte na fábrica de tacos, situada na BR-317, a poucos quilômetros da sede projeto, ultrapassou os R$ 6,7 mil. Tudo isso somado deu uma renda anual para Duda Mendes de mais de R$ 15,2 mil e uma renda mensal de cerca de R$ 1,27 mil, que representam 3,3 salários mínimos. Outros seringueiros do Cachoeira tiveram renda ainda maior do que a de Duda porque também produziram açaí, que vem tendo grande procura na região por ser um fruto amazônico de alto teor energético, com ampla e crescente aceitação no mercado nacional e até internacional. Se a renda de Duda Mendes e da grande maioria dos seringueiros do Cachoeira já garante boa parte da florestania (cidadania na floresta) a que eles fazem jus, as perspectivas econômica e social no projeto extrativista só tendem a ser mais favoráveis no futuro aos guardiões da floresta. Isso vai acontecer porque já começa a entrar em operação, próximo à sede do antigo seringal, uma quarta atividade sustentável que vai gerar ainda mais renda para aquela comunidade de extrativistas. Trata-se do ecoturismo, que já em dezembro estava sendo praticado no Cachoeira a partir da inauguração recente de uma bonita, ampla e confortável pousada ecológica construída na floresta pela Associação de Moradores e Produtores do Projeto Agroextrativista Chico Mendes, a Ampepai-CM, também com apoio do governo do Estado. Um grupo de 40 turistas internacionais, interessados em conhecer a floresta por onde andou Chico Mendes, já movimentava a pousada tão logo ela foi inaugurada no fim do ano passado. A pousada oferece quartos individuais e coletivos e até uma suíte de dois andares. Depois de um café-da-manhã com frutas e iguarias regionais, os hóspedes podem pescar em pequenos açudes pelo sistema pesque-pague e, acompanhados de guias formados por seringueiros, também podem caminhar durante horas por trilhas limpas e bem desenhadas dentro da mata fechada. “Todos gostam de caminhar por dentro da mata, pois tudo que há dentro dela é muito bonito”, diz Nilson Mendes, outro seringueiro primo de Chico Mendes, que também participa do comando da primeira associação e atua como guia florestal. Nos “castanha-tour” ou no “látex-tour”, como podem ser chamadas as caminhadas nas trilhas que seguem antigas estradas de borracha, é possível passar por nascentes de igarapés, admirar árvores gigantescas e seculares e apreciar diversos animais silvestres e muitos pássaros com cantos que encantam qualquer um. Além de ganharem com a venda de frutas e animais domésticos, consumidos no confortável e arejado restaurante da Pousada Ecológica Seringal Cachoeira, as famílias dos manejadores de floresta ainda recebem, a partir da associação, um percentual do lucro obtido pelo empreendimento turístico. Na pousada do Cachoeira, os empregados são filhos e filhas de seringueiros treinados em Rio Branco para atender até turistas internacionais. O ecoturismo, aliás, só tende a se expandir no Acre nos próximos anos com a conclusão, até dezembro do próximo ano, da pavimentação da Rodovia Transoceânica, que vai ligar o Estado, a partir do Peru, com os países banhados pelo Oceano Pacífico. Outra atividade sustentável que vem sendo tentada no projeto extrativista do Cachoeira é a do manejo de animais silvestres, como a paca e a capivara. Um primeiro projeto já foi tentado há dois anos, mas faltou acompanhamento técnico, o que não foi suficiente para a associação desistir da idéia, que pode ser outra fonte de renda capaz de fortalecer ainda mais os seringueiros para continuarem cuidando bem da floresta.
Independência quase completa dos produtos de fora O quarto ciclo econômico da Amazônia em que vivem os moradores do Cachoeira se completa com a quase total independência que os seringueiros têm em relação aos produtos que consomem hoje para viver. Duda Mendes, por exemplo, diz que só tem precisado comprar fora do seringal, nas cidades vizinhas, o açúcar, o sal, o sabão e a pólvora. “Aqui eu produzo o arroz, o feijão, a mandioca e o milho, e crio diversos animais domésticos. Vez por outra, mato um para comer ou compro a carne do boi que alguém da comunidade matou e vende a todos. Amanhã mesmo vão matar um boi ali e já mandaram recado para eu ir lá comprar cinco ou dez quilos de carne”, diz Duda, proprietário ainda de mais de três dezenas de cabeças de gado. Ele diz que “corre léguas” de quem lhe sugere voltar a morar na cidade. “A gente come bem, vive bem e não tenho inveja de quem vive na cidade. Eu morei sete anos na cidade [Xapuri] e não quero voltar de maneira nenhuma.Vou lá só para passear”, completa Duda, olhando da varanda de sua casa de quatro quartos para o terreiro cheio de galinhas, patos, porcos e outros animais domésticos. A alimentação da família de vez em quando é completada por uma saborosa carne de caça. Ora viajando de moto para as cidades ou de cavalo para visitar um parente ou os velhos companheiros que moram mais ao fundo do seringal, Duda é a expressão da simplicidade e do otimismo quando chega para a entrevista, que concedeu na varanda de sua casa. Das atividades do manejo florestal, que hoje lhe permite viver bem com a família, o primo de Chico Mendes só tem a reclamar da demora e da burocracia que ocorreu no ano passado na liberação pelo Ibama da venda da madeira manejada que cada seringueiro do projeto pode explorar em dez hectares por ano. Ou tendo direito a produzir 100 metros cúbicos no mesmo período. Segundo Mendes, na hora de fazer a liberação da madeira, os servidores do Ibama estavam em greve e quando o movimento acabou fizeram uma série de exigências de documentos e não deu para a comunidade atender a tempo. “Quando vieram liberar a madeira, já era inverno”, diz Duda, ao lamentar que a burocracia acaba atrapalhando até quem quer o bem da floresta. O resultado foi que os seringueiros estavam correndo o risco em dezembro de ver a madeira estragar. “Estamos sendo prejudicados porque não podemos trabalhar.” Apesar de o Ibama “emperrar o negócio”, conforme diz Duda, a associação não tem problemas maiores para comercializar a madeira, que quando é dura é vendida para a fábrica de tacos instalada pelo governo bem próximo ao projeto, e quando é branca é comercializada para a madeireira Triunfo, de Rio Branco. “Nossa cooperativa vende bem a madeira porque tem vários clientes, inclusive de São Paulo”, informa. Duda Mendes diz que chegou ao Cachoeira em 1969, aos nove anos, vindo do seringal Santa Fé, onde nasceu. “Meu pai era um cearense que gostava muito de trabalhar em busca de vantagens e melhorias para a família. Por isso, morou em mais de vinte ‘colocações’. Mas quando chegamos aqui, ele disse: ‘Daqui não saio’, pois o patrão da época, dos ruins era considerado o melhor”, destaca Duda. Segundo Mendes, na época de seu pai e de seu avô, a maioria dos seringueiros acreanos era tratada como “porco” pelos patrões seringalistas. “Era assim como eles [seringalistas] consideravam todos nós seringueiros. Era como se a gente vivesse dentro de um chiqueiro, sem identidade, sem direitos”, completa ele, no único momento de tristeza no olhar, ao lembrar os sacrifícios que seus antecedentes tiveram que passar para sobreviver e defender a floresta.
Conquistas do novo ciclo se devem a muita luta e muito sangue Mesmo estando com dez anos de idade, Duda Mendes lembra bem o início, em 1970, do grande movimento de resistência dos líderes seringueiros contra a derrubada da floresta pelos fazendeiros que compraram os antigos seringais acreanos. Entre eles, Duda destaca Wilson Pinheiro, Chico Mendes e outros. “Era o Chico Mendes junto com o João Maia, da Contag. Lembro muito bem as reuniões aqui no Cachoeira para iniciar a luta. Em seguida, foi criado ‘O Varadouro’ [jornal alternativo da época, editado por jornalistas que apoiavam os seringueiros na sua luta contra a derrubada da floresta]”, lembra Mendes. Segundo o seringueiro, “era um jornalzinho que os patrões tinham o maior ódio de ver naquela época”. “Esse jornal e a Igreja [católica] ajudaram muito o nosso movimento”, lembra Duda, que já rapaz se engajou na luta liderada por Chico Mendes e João Maia para fazer os “empates” das derrubadas de floresta, que os fazendeiros queriam fazer na marra para plantar capim e criar gado. Naquela época, os conflitos foram intensos e o Acre chegou a pegar fogo, cheirando mesmo a pólvora, com mortes de ambos os lados e muito mais baixas do lado dos seringueiros e trabalhadores rurais. No fim do conflito, duas décadas depois, os dois lados se aquietaram, com os seringueiros sendo beneficiados com a Reserva Extrativista Chico Mendes, de quase um milhão de hectares, e os fazendeiros derrubando a floresta para criar gado nas terras às margens da BR-317, que em quase toda sua extensão, de Rio Branco a Brasiléia, jamais lembram um local situado na Amazônia, mas um lugar semelhante às grandes pradarias norte-americanas. Apesar de saber que a emancipação econômica e social do Cachoeira ainda é um oásis em meio à pobreza que cerca os povos da floresta em outras regiões do Acre, principalmente no Vale do Juruá, região de densa floresta, onde a pecuária e a febre de biocombustíveis que toma conta do país sempre podem representar uma séria ameaça, Duda Mendes mostra-se otimista com relação ao papel benéfico que a floresta amazônica pode representar para o Brasil e o mundo. Nesse sentido, o seringueiro revela ter um plano simples que pode, segundo ele, ajudar a salvar a Amazônia. O plano seria o governo juntar o dinheiro que gasta atualmente com o programa Bolsa Família e com o salário maternidade para pagar meio salário mínimo (cerca de R$ 160) para cada família que vive no interior da Amazônia cuidar da floresta, evitando o seu desmate e a sua queimada. E o que o mundo ganharia com isso? Duda responde: “O mundo iria ganhar muito porque melhoraria a questão climática de toda a Terra”. Nesse ponto, ele faz uma revelação que é um grande achado prático para a análise das conseqüências que o aquecimento do planeta vem provocando na Amazônia. “Antigamente, a gente ficava no roçado até meio-dia, mas hoje a gente não agüenta ficar nem até as 11 horas por causa do calor e do sol quente”, diz Duda Mendes, ao concluir sua conversa dando outra dica importante que pode dimensionar os prejuízos do aquecimento global, causado no Brasil principalmente pelos desmatamentos na região amazônica. “Tem igarapé em nossa região que está secando em setembro e nunca tinha secado antes nesse mês do ano.”
Há recursos para investimentos, mas faltam mais projetos e assistência técnica O boom econômico que vem do manejo sustentável das riquezas da floresta, tanto no seringal Cachoeira quanto em outras áreas extrativistas da Reserva Chico Mendes, está definitivamente animando as pessoas e fazendo circular mais dinheiro nas praças de Xapuri, Brasiléia e outras localidades menores da região do Vale do Acre. “Percebo que a população está bastante animada. A gente vê o otimismo nos olhos das pessoas”, diz o gerente do Banco do Brasil de Xapuri, Fernando de Oliveira Júnior, ao revelar que só no município, nos últimos três anos, a instituição investiu mais de R$ 3 milhões em empréstimos para pessoas jurídicas, que buscam o dinheiro principalmente para capital de giro, aquele a que os empresários mais recorrem para ampliar suas atividades. O BB também está investindo em projetos sustentáveis de produção de borracha, de castanha, de madeira, de animais silvestres e até de ecoturismo, devido ao potencial que a região de floresta representa para o país e o mundo. No caso dos empréstimos de Xapuri, há um detalhe importante que o gerente revela em primeira mão: o percentual de inadimplência nos pagamentos dos empréstimos de sua agência tem sido zero, contra a média de 3% registrada nacionalmente pelo banco. “É quase inacreditável, mas nossa taxa de inadimplência com relação aos empréstimos em Xapuri é zero. Isso significa que as pessoas estão acreditando no potencial econômico da região e os empresários, passando a investir mais no município”, relata o gerente do BB. Segundo ele, os dois investimentos fortes no município (fábricas de camisinha e de tacos) “estão fazendo as pessoas acreditarem mais no futuro e podem ser a redenção econômica da região”. Só a fábrica de camisinhas, que custou R$ 30 milhões ao governo federal, em parceria com o governo do Estado, está comprando a R$ 3,40 o quilo da borracha seca produzida por 700 famílias de seringueiros da reserva extrativista Chico Mendes. No auge do funcionamento, a fábrica vai gerar 150 empregos diretos, consumir 500 toneladas de látex in natura por ano e produzir anualmente 100 milhões de preservativos, reduzindo a necessidade de importação quase total que o país tem hoje em relação a esse produto. Por sua vez, a fábrica de tacos e decks, que custou cerca de R$ 35 milhões, financiados pelo governo do Estado junto ao BNDES, também vai gerar cerca de 150 empregos diretos e consumirá, preferencialmente, a produção comunitária de madeira manejada por mais de 600 seringueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, inclusive no Cachoeira. O gerente do Banco do Brasil revela que há seringueiros hoje procurando o banco para abrir conta corrente e saber das linhas de crédito que a instituição oferece por meio de seu programa de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS). O BB também está trabalhando com recursos do Programa de Agricultura Familiar (Pronaf) no âmbito da fábrica de camisinhas e de tacos. Para o gerente, dinheiro para ampliar a economia da região não é problema, mas o que falta ainda são projetos e assistência técnica. “Dinheiro não falta no Banco do Brasil. Aqui em Xapuri, sobra dinheiro. O que falta são projetos e assistência técnica”, diz ele, ao revelar que só de recursos para assentamento de produtores rurais nos projetos do Incra existe hoje uma oferta de mais de R$ 4 milhões.
Novo processo industrial valoriza e aposta na floresta “O que se vê hoje no seringal Cachoeira é o início do quarto ciclo econômico da Amazônia, que é o do desenvolvimento sustentável”, diz o historiador Marcos Vinicius das Neves, presidente da Fundação Cultural Garibaldi Brasil, de Rio Branco, fazendo fé para que a nova fase, que implica a manutenção e valorização da floresta, não perca espaço para a pecuária, que ainda é, segundo o historiador, muito forte tanto no Acre quanto no resto da Amazônia. O historiador explica que o quarto ciclo econômico da região de maior floresta tropical do planeta sucedeu o ciclo da pecuária, iniciado na década de 1970, quando, com a ajuda dos governos federal e estaduais e dinheiro do Banco do Amazônia, essa atividade quase sufocou o extrativismo da borracha, que hoje é ainda a base mais forte do manejo de uso múltiplo florestal que inicia o quarto ciclo presente no seringal Cachoeira. O segundo ciclo econômico, segundo Marcos Vinicius, deu-se durante a II Guerra Mundial, que permitiu fortalecer o extrativismo da borracha para ele enfrentar e conseguir sair vivo do massacre da pecuária em cima dos seringueiros e da floresta. O primeiro ciclo econômico da região remonta à época da Revolução Industrial, quando a borracha surgiu como âncora para a diversificação e o consumo dos produtos no mundo. Para o ex-governador Jorge Viana, em cujo governo de oito anos se valorizaram a borracha, a castanha, a madeira e se conceberam justamente projetos estratégicos para o quarto ciclo econômico que se inicia agora na Amazônia, “os povos da floresta merecem viver esse novo ciclo econômico e social porque foram seus maiores guardiões ao longo da história”. O governador Binho Marques está dando seqüência à estratégia do desenvolvimento sustentável que vem sendo empreendida no Estado de acordo com os ideais de sustentabilidade defendidos por Chico Mendes. Para idealizar e pôr em prática o propalado conceito de florestania (cidadania na floresta), os governos da Frente Popular do Acre contam com a colaboração direta de outras personalidades de proa da política acreana, como os senadores Tião Viana e Marina Silva (hoje ministra do Meio Ambiente), que demonstram, com muita competência, ao cenário político nacional a importância e a estratégia de desenvolver a Amazônia de forma sustentável para o bem do clima e da humanidade. “Esperamos que esse quarto ciclo econômico resulte em breve em não termos de derrubar mais nenhuma árvore em nosso Estado e em toda a Amazônia”, apregoa Tião Viana, ex-presidente e atual vice-presidente do Senado Federal. A grande maioria das bancadas federal e estadual do Acre também comunga com os mesmos ideais de sustentabilidade da floresta. Outra figura de grande importância para o surgimento do novo boom florestal do Estado foi o engenheiro Gilberto Siqueira, que há nove anos planeja e gerencia o crescimento da economia acreana em bases absolutamente sustentáveis. Como secretário de Planejamento e Gestão, Siqueira e sua apurada equipe de economistas, engenheiros, arquitetos e profissionais de diversas outras áreas vêm fazendo ao longo de todo esse tempo a ponte executiva com Brasília, o Brasil e o mundo para o Acre continuar despontando como principal modelo de desenvolvimento sustentável para toda a Amazônia. “O início desse quarto ciclo econômico da Amazônia aqui no Acre mostra o potencial efetivo da floresta. Mostra também que, se houver oportunidades e desenvolvimento tecnológico, a floresta pode gerar muitas riquezas”, diz Siqueira. Para ele, “o desenvolvimento sustentável é um pêndulo que ganha sinergia na medida em que agrega a todos e contempla o passado, o presente e o futuro”. Gilberto Siqueira também faz questão de frisar que os seringueiros e outros povos da floresta entram no quarto ciclo da economia amazônica integrados a um processo industrial novo, que valoriza a floresta. “Esse processo mostra ao Brasil, que sempre desprezou a floresta, que é possível fazer uma economia forte, limpa, saudável, que pode incluir produtos de futuro, como são os fármacos”, completa. Além da biotecnologia, o secretário também aposta no biomimetismo, que são as diferentes formas da natureza, onde se pode, por exemplo, segundo ele, “desenhar um grande avião copiando a anatomia de um grande inseto da floresta”.
Novo ciclo atende os ideais de Chico Mendes Pelo que vimos na presente reportagem, a semente do quarto ciclo econômico da Amazônia está definitivamente instalada na terra de Chico Mendes e ela foi plantada exatamente da forma pela qual o ecologista tanto lutou e sonhou: incluindo o seu povo da floresta. “O Chico ingressou na luta para mudar a situação do homem da floresta”, diz o seringueiro Duda Mendes, o personagem que foi aleatoriamente escolhido para que, conhecendo sua casa, bebendo a água limpa da floresta no bebedouro elétrico de sua cozinha e conversando algumas horas em sua varanda, pudéssemos reportar a quantas andam, de fato, os verdadeiros e seculares guardiões da floresta, que o mundo quer e tanto precisa ver conservada para o bem das futuras gerações e da vida na Terra. Para nossa surpresa, pudemos constatar que Duda e seus companheiros vão bem, pois estão totalmente incluídos num processo industrial novo e revolucionário, que contempla, talvez pela primeira vez na história do mundo, a floresta como principal aliada do avanço da humanidade, que sempre precisou de um abrigo para se proteger das intempéries do clima e de uma sombra para avistar melhor seus horizontes no tempo. No Acre, além de sombra, a floresta está mostrando que, se for bem tratada, pode dar borracha, castanha, madeira, frutas deliciosas, água, remédios, adornos, cosméticos e até paz, muita paz, para quem se dispõe a caminhar por dentro dela para sentir de perto a energia vital de bilhões de seres que nela habitam, voam, rastejam, escalam, gritam, cantam e encantam. Hoje, a inclusão dos povos da floresta está sendo possível graças à instalação de fábricas de camisinha, de tacos, de móveis, de frango (em construção em Brasiléia) e de móveis de luxo de bambu ou taboca (em início de operação em Assis Brasil), além de muitas pousadas ecológicas que vêm sendo construídas na região para receber turistas do mundo inteiro. São turistas que descerão os Andes peruanos pela Rodovia do Pacífico ávidos por dormir, comer e caminhar dentro da maior e mais rica floresta tropical do globo. No futuro, quem sabe, os povos da floresta podem até ser chamados ao mundo para dar aulas de simplicidade, de solidariedade e de viver em harmonia com a natureza.
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