| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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Porque dizer algo implica... Por que dizer algo? De que necessidade surge o ato de escrever? A comunicação? Mas essa resposta não nos basta, pois comunicar é uma ação tão geral que, a respeito dela, nada pode ser definido com segurança, pois se poderia perguntar novamente qual o motivo da comunicação. Para agradar, provocar, esclarecer, refutar ou adular outras pessoas? Ou para fazer tudo isso, só que em relação a você mesmo? Na verdade, não é possível responder, pois a alma humana é tão vasta e cheia de pudor que é raro que ela consiga responder algo sem criar uma versão de si mesma ao invés de explicar. As explicações de nossos próprios atos são invenções que têm em conta a intenção de racionalizar a posteriori. Toda explicação é uma justificativa frente a um valor, a uma pessoa, a nós mesmos e nunca uma verdadeira explicação. Para tudo que importa, ou seja, para todas as ações cuja identificação de razões utilitárias não é possível, onde incluímos os escritos de filosofia, a arte, a loucura, a justificativa é uma invenção ao lado de uma criação. Eu sei que escrevo uma carta avisando que não vou poder comparecer a um compromisso, por motivos determinados, mas os escritos de filosofia não obedecem a essa lógica, pois é freqüente, na história da filosofia, percebermos que não há ouvidos para os seus dizeres e que a obra não tinha sentido informativo; ou quando percebemos que a melhor e a mais radical “informação” de um sistema filosófico é dito de forma tão obscura que se pode dizer que o filósofo quis mais esconder alguma verdade do que informá-la; ou ainda quando uma filosofia tem uma linha de opacidade, onde o principal diz respeito ao não dito antes que ao dito . Por que escrever então? Devemos entender essa pergunta como uma incitação à invenção e a recolocação dos mesmos problemas com outras palavras e, por vezes, com outro ritmo. Não é possível estabelecer de forma geral e definitiva os motivos pelos quais alguém escreve algo. Mas os textos de filosofia podem pelo menos exibir algum indício da atitude que norteia, uma parte pelo menos, da sua lavra. Claro que do ponto de vista psicológico aquelas intenções de inter-subjetividade estão sempre em questão, ou seja, sempre está aderida à obra uma certa conta a respeito da recepção e reação à publicação, mas ela não esgota ou não explica uma obra de filosofia. Um texto de filosofia é geralmente uma maquina de guerra! Mas uma guerra que ninguém consegue ver ou ouvir de fato. Não há sangue, nem disputas calorosas, mas no campo de significação pura, onde os conceitos estão em sua forma mais selvagem, ou seja, com toda a sua potência não ainda diminuída pelo regramento, a filosofia intervém de forma impiedosa. Num momento parece que nada mudou só que o tempo (que pode ser um tempo geológico ou um tempo mais acelerado) faz com que fiquem marcados os saberes antigos que subitamente não satisfazem as novas questões e começam a ruir. É uma potência negadora, destruidora que anima e dá sentido para uma malha de conceitos cujo sentido vem de fora dessa mesma malha. A filosofia nasce assim de uma impossibilidade que por um acaso fica evidente para alguma pessoa que depois será batizada de filósofo. Uma espécie de princípio organizador, de conceito central ou mesmo de uma instância apenas insinuada, mas que acaba conseguindo angariar seguidores, que não pode continuar a pretender ocupar o lugar central que ocupa. Eis o germe de um livro de filosofia! Mas a nova filosofia nunca tem a exata dimensão da destruição que ela empreende. Ela queria destruir ou alargar uma porta, mas acaba destruindo a casa toda e depois se dá conta de que o princípio sobre o qual a casa tinha sido construída tinha algum erro essencial. O que antes era uma dúvida localizada vai, com o tempo, se transformando numa dúvida generalizada e o que era um pequeno retoque acaba tendo a necessidade de ser a reconstrução a partir do zero. A partir daí, ele entra num campo muito pouco pisado, um mundo do quase em todos os sentidos, pois não é visto e muito menos compreendido. Apesar de todo o misticismo envolvido no conhecimento (até mesmo no matemático), a formação de um filósofo não tem nada de místico. Ela se dá de forma lenta, angustiante, pois não se pode ter certeza de que se chegará à meta, ou seja, de que a planta que se cuida se tornará realmente um filósofo. Mas não há alternativa, aprender e se embrenhar nessa selva só é possível através dos caminhos já trilhados pelos filósofos clássicos. Todo o filósofo só tem uma chance de se tornar o que ele é por meio da leitura detida e árdua dos textos clássicos de filosofia. Apenas a história da filosofia pode formar um filósofo. Só a submersão controlada nas profundidades insuspeitadas de um texto de filosofia pode educar um apreciador, um técnico, um crítico e, em casos raros, um filósofo como expressão máxima naquela escala. Para algumas profundidades, entretanto, apenas alguns poucos têm pulmões suficientemente fortes para suportar a pressão, a solidão, apenas esses casos raros tem algum motivo para se aventurar em terreno impróprio, ou melhor, apenas alguns vêem ali um caminho e uma opção, mas esse abismo que é toda a base das filosofias é às vezes visitado... |
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Mestre em Filosofia |
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