| OPINIÃO | ||
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Elson Martins * |
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| O que mete medo Alguns candidatos que se opõem ao Governo da Floresta prometem aos eleitores que vão acabar com o medo que, segundo eles, toma conta do Estado. Com freqüência voltam ao tema com declarações enfáticas. Mas que medo é esse de que tanto falam? Será medo do governador? Ou medo de perder algum cargo? Talvez o medo de ser assaltado em sua mansão protegida com cerca elétrica! Ou medo de perder as eleições? Essa história do medo parece mal contada. O governador Jorge Viana não parece assustador, tanto que as pesquisas indicam que ele conta com a simpatia de 80 por cento da população do Estado. O Binho Marques, seu provável sucessor como candidato da Frente Popular tem uma história inquestionável de afabilidade e respeito junto aos segmentos menos favorecidos da sociedade. Como jornalista veterano sou testemunha de que o medo tomou conta do Acre na política e fora dela, mas em outros tempos históricos. Nos anos setenta e em boa parte dos anos oitenta do século passado, foi quando isso aconteceu. O Acre de fato metia medo, não às elites, mas ao povo desprotegido das cidades e da floresta. Seria bom que os jovens com menos de 30 anos e as famílias que chegaram ao Acre após os anos noventa procurassem se inteirar de como era a realidade econômica, social, política e ambiental nesses tempos sombrios. Podem começar indagando como agiam os governos antes do PT chegar ao poder! Esclareço que não sou filiado a nenhum partido, embora tenha torcido pelo PMDB durante a vigência do golpe militar de 1964 que cassou os direitos elementares do cidadão durante mais de 20 anos. Vi o medo como cena do cotidiano: medo de ser preso por nada, medo do vizinho, medo do policial da esquina, medo do chefe de algum setor público, medo do taxista dedo-duro, medo da fome, do desemprego, da falta de liberdade. Em 1980 ajudei a criar o PT. Por conta do poder instalado sob o medo coletivo, o Acre virou terra de grileiros, advogados e juizes corruptos; de policiais que se colocavam a serviço de latifundiários; de políticos que procuravam tirar proveito do cargo sem se importar com a situação das famílias que viviam nos seringais e estavam sendo escorraçados à bala. Os fazendeiros metiam medo quando se diziam novos donos da floresta acreana e quando derrubavam a mata ateando fogo nela. Mais de setenta por cento dos acreanos - índios e não índios - que viviam na floresta e ao longo dos rios, secularmente, foram solenemente ignorados. Os estrangeiros que se diziam novos proprietários dos seringais mandavam aviso através de pistoleiros armados: “Saiam das terras! Não queremos saber de borracha ou castanha”. Quem socorreu à enorme população ameaçada e aflita? Muitos chefes de famílias foram arrancados de suas colocações e levados a presença de um delegado para assinar acordos abrindo mão de sua terra. Como conseguiram escapar dessas armadilhas e em seguida criar as reservas extrativistas, demarcar as áreas indígenas, garantir mais de 50 por cento da floresta para estudos, pesquisas e manejo como proposta de ocupação sustentável? Por que e como foram criados os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, o Conselho Nacional dos Seringueiros, o governo dos Povos da Floresta, e por que o Acre se insurgiu como pólo de discussão ambiental repercutindo no país e no mundo? A oposição não toca nesse assunto tão presente porque, supostamente, convém fazer de conta que nada aconteceu ou está acontecendo como conquista desse povo que se expressa com ou sem tropeços, através da Frente Popular que governa o Estado. Opor-se a essa história como estratégia de campanha política significa subestimar a consciência e resistência desse povo. Isso sim, mete medo! De outra forma, o medo só pode existir em quem fala sem compreender a alma de quem ouve. O povo da floresta precisa temer cada vez mais, como defesa de seu futuro, quem não valoriza a floresta e não respeita a cultura de quem vive nela, explorando-a e preservando-a com respeito, afeto e identidade. * Jornalista |
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