OPINIÃO
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Socorro Camelo *

 

 

O papel do jornalista

Opinião é feito navio: a gente não abandona, afunda com ela se for preciso. Pensava isso quando era criança e levava a vida na base do “repete, se for mulher!”, heroicamente agarrada àquele ponto de vista. Tola crença infantil!

Hoje, percebo que os trilhos da vida nem sempre são paralelos, mas ainda vejo que, para muita gente, idéias velhas são absolutamente confortáveis tais quais um chinelo que o pé já conhece. Vi muito isso durante os debates que presenciei no XVI Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Comunicação (ENJAC), realizado em Fortaleza, de 29 de março a 1º de abril último. Discussões acerca do trabalho do assessor de comunicação e principalmente a postura ética e a credibilidade.

Ouvi opiniões, muitos argumentos alegando que quem trabalha em assessoria não obedece ao princípio da pluralidade e, portanto, não pode ser considerado jornalista, ao passo que o jornalista que atua numa redação “tem liberdade” para ouvir os dois lados. Por sorte essas discussões não são da maioria. Até mesmo porque, se fosse considerado este princípio, não haveria mais jornalistas neste país, pois, tanto quem atua na assessoria, quanto quem atua nas redações, está submetido a uma linha editorial.

Mas em que pese o esforço que se faz (distância e despesas) para participar de um encontro como esse, vale muito a pena. Estar no meio de discussões sobre ética, oportunidades de mercado, formação profissional de qualidade compensa qualquer esforço.

Quando comecei no jornalismo aos 18 anos ouvia que escrever para jornal era bobagem. No outro dia o jornal acabaria sendo utilizado para embrulhar peixes no mercado. Sabia e sei que nada impede realmente que o peixe seja embrulhado numa folha de um jornal. Mas penso sempre que mesmo assim essa folha tem que ser feita com rigor. Acredito que o futuro do jornalismo passa, na verdade, pela qualidade. Qualidade do trabalho, qualidade dos temas e da forma de os abordar; qualidade dos critérios e da responsabilidade.

Agora, já há algum tempo atuando em assessoria de comunicação não me sinto menos jornalista do que quando estava na redação. Acredito que o aspecto mais importante a respeito do nosso trabalho, em qualquer que seja a sua atribuição, é o foco de sua função: garantir a sociedade um dos seus direitos fundamentais: o direito à informação. Essa é uma questão ética, no sentido de como servir melhor a sociedade desse bem tão valioso, a informação, e de caráter prático, no que se refere aos meios para fazer com que o discurso sobre a ética no jornalismo seja praticado de fato.

Não se trata só de fazer a posologia da ética, indicando seu uso três vezes ao dia, depois de agitar bastante. É necessário saber usá-la de fato e em qualquer lugar onde se esteja atuando.

O mau jornalismo é aquele que fere a ética. Prefere a rapidez da apuração em troca de uma divulgação espalhafatosa de um fato não inteiramente checado. E, vale dizer, o mau jornalismo sempre existiu. Continua a existir E tem de ser combatido.

Liberdade de imprensa é um dos mais caros componentes da democracia, mas não se pode aceitar que o mau jornalismo iluda a população e ofenda qualquer cidadão. O que compromete a credibilidade de qualquer profissional é, ao meu ver, a pressa na investigação ou a total ausência desse procedimento. E é nesse aspecto que muitos precisam deixar o velho estágio primitivo caracterizado pela boa preguiça, em troca de novos hábitos, como o da apuração, por exemplo. O jornalista é um questionador que está sempre repensando as coisas e procurando novos ângulos de visão. Precisa, é claro, de dados.

É buscando o conhecimento que consolido e comprovo minha sensibilidade. É buscando o conhecimento que construo argumentos, armo o quadro e escolho as minhas tintas.

Tendo fé em mim, tendo os dados e a capacidade de análise, que não me falte ainda assim a humildade de pedir explicações. Não entender ou entender mal, é direito do qual não abro mão.E é contingência da qual não devo me envergonhar. Quando uma verdade ou suposta verdade for servida em um belo prato, nunca é bom começar a comê-la sem antes verificar os ingredientes de que se compõe.

Assim talvez seja mais possível o acerto nessa galeria de espelhos que o mundo se esmera em fabricar para nós. Assim, pelo menos, mesmo errando, poderei chegar a uma conclusão que seja minha, e que eu tenha não só forças, como prazer em defender.

* Jornalista (065 DRT/AC) e Assessora de Comunicação do Ministério Público Estadual

 
 
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Rio Branco-AC, 25 de abril de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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