A carne pela hora da morte
Faz pedaço que ganhei a lapa, mas por todo lugar que passei investi minhas apologias às coisas da Minha Terra. Da farinha de Cruzeiro ( tão boa, que agora estão cheirando!) ao caldo-de-caridade como santo remédio pra cachaça; do pôr-do-sol à costela de tambaquí com baião-de-dois.
Eu elogio até o que não presta, eu sei!
Mas o gosto da nossa carne bovina emparelhava com o preço da bicha, ambos razões dos meus mais efusivos comentários nas rodas de comensais, mesmo em São Paulo, conhecidíssimo por sua Gastronomia.
Andei nesses dias por Rio Branco. Vim ver a Mamãe, passar meu Aniversário - que Deus quis celebrar no dia 21 de Junho, seis dias depois do Aniversário da Autonomia do Acre. Parido em 1962, sou filho da Elevação, de que me orgulho, também.
Nasci e cresci ouvindo falar de gente como José Guiomard dos Santos, de quem vi fotos e sobre quem ouvi relatos de sinais, milagres e prodígios, um dos quais o desembarque de vacas e garrotes pra povoar os verdes campos do meu lar.
Ora, se o chão do Acre é bom pra abacaxi gigante também é pra braquiarão e, nele, crescerão viçosos tanto o bezerro quanto o cupuaçu, que, aliás, aqui abunda.
Pra mim, acostumado à “Cobrinha”no mercado, chupar um tutano ou um cabilouro sempre deu tanta emoção quanto assar uma picanha ou remelar os olhos no Aeroporto diante do pessoal de terra das companhias aéreas, eu, com o isopor tufado de bribôtes e carne do Acre, querendo passar um catrepe no excesso de peso.
Não era qualquer um que poderia abrir minha Frigidaire em Copacabana e comer meus filés do Acre, que, baratos, eu levava às rumas, pra deleite da Fatinha, da Mariana, do Luiz e, agora, do Natan, o pessoal lá de casa, quase dependente dum bife ao alho e manteiga. Crente, eu sempre avisei à minha esposa: - Essa carne do Acre é pros irmãos! Pros irmãos nem verem.
Ela decodificava logo: - Deixa, que eu escondo!
Pois nesses dias fui assaltado.
Não entendo de Economia, nem sei explicar porque que o quêbe de arroz custa o mesmo que o de macaxeira nem jamais me interessei por entender o preço final ao consumidor do charuto e o copo de garapa, este último atualmente em víeis de alta, por causa desse negócio de álcool verde.
Entupido de banana comprida frita, pois, eis que me arrumo pra pegar o avião pro Rio de Janeiro e qual não é minha surpresa: o quilo do filé está mais caro no Acre do que nos supermercados da Cidade Maravilhosa!
É inevitável que eu me interesse pelo tema abastecimento, afinal eu sempre me orgulhara de comer a melhor e mais barata carne do Brasil. Mas o meu orgulho está pela hora da morte!
Capiongo, brinco com o magarefe: - Agora eu vou comer é índio! O que ele, prontamente, me desaconselha.- O pessoal da Funai não aceita concorrência! Humorista convertido, mudo de assunto, pra não pecar.
No entanto, acabo descobrindo que os caminhões estão saindo de Rio Branco entupidos de reses e desmamados em geral, que os nossos fazendeiros estão vendendo pro Sul e Sudeste.
O cabiluoro da Minha Terra finalmente foi globalizado e em breve será vendido em Cobija, e alguém preso na BR será apenado como um assassino de paca, sem fiança, dó nem piedade, com algum quilo e meio de bisteca não-declarado à Receita Federal.
Ano que vem, nos nossos 47 anos, penso em trazer um isopor com picanha da Argentina e uns mandins do Rio de Janeiro pra comer em casa. Ou vou trazer aquela grugunhanha que se come lá pra vender aqui e investir o lucro no ramo da marretagem de muamba em Brasiléia.
Juro, nunca imaginei que o negócio do boi tomasse essas dimensões. Mas, como eu disse, eu não entendo de economia.
* Jornalista acreano e, por medida
de economia, vai ser vegetariano
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