ESPECIAL
   ENTREVISTA

Tião Maia *

Nilson Mourão

O homem do fusca vermelho

Nilson Mourão, o deputado cuja vida se confunde com a história do PT no Acre, torna-se vice-líder e chefe da tropa de choque de Lula na Câmara

Marcos VicenttiAntes mesmo de ser eleito parlamentar e quando o sonho de o PT chegar ao poder ainda parecia muito distante, ele já era conhecido no país inteiro como um dos petistas mais ferrenhos e mais aplicados na construção do projeto político atualmente em curso no país. Afinal, era dele o fusca vermelho que, mesmo caindo aos pedaços, lideranças petistas, como o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, utilizavam em suas andanças pelo Acre nos encontros para afirmação das idéias de que um dia governariam o Brasil.

Em 1982, na primeira eleição que o PT disputou, lá estava ele, mesmo sem a menor chance de vitória, emprestando seu nome como candidato a governador, disputando com ninguém menos que seu primo, o candidato do PMDB, Nabor Júnior - que aliás foi o vencedor daquele pleito.

Sociólogo com mestrado em teologia, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Nilson Moura Leite Mourão, deputado estadual por duas vezes e no segundo mandato de deputado federal, destaca-se como um dos mais atuantes parlamentares na defesa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem é amigo pessoal. Sua histórica militância no PT e a simbiose de seu mandato com o atual governo são os principais fatores que acabam de alçá-lo à condição de vice-líder do PT na Câmara dos Deputados. É sobre este e outros assuntos que o deputado fala na entrevista a seguir.

Deputado, não sei se é o caso de lhe parabenizar por esse novo cargo porque o senhor assume num momento em que essa bancada está sob pressão e se contrapondo ao histórico discurso de CPI para tudo. Como é o que o senhor está se sentindo a frente do cargo nessas circunstâncias e como é que fica a sua relação com a sociedade, uma vez que o senhor é reconhecido como um militante dos movimentos sociais e agora está na contra-mão do que defendem esses movimentos?

A bancada do PT na Câmara tem 92 deputados federais. Pela quantidade de pessoas envolvidas e pelas mais diferentes regiões do país e das mais diferentes tendências, não é simples conduzir essa bancada, levando-se em consideração, como você lembrou, que é a bancada do Governo e do partido do presidente da República. Por tudo isso, tenho consciência de que não será uma condução simples. Mas eu tenho me destacado na bancada – e aí talvez esteja a explicação da minha indicação – tentando mostrar para os companheiros a importância de apoiarmos o governo Lula e de termos absoluta confiança na condução que ele vem dando aos destinos do país e também por defender que a bancada tem que ter unidade de ação. Não podemos ser a bancada do Governo somente para as coisas boas e simpáticas. A bancada do Governo tem que agir como tal nos momentos bons e também nos momentos difíceis. O que eu digo à bancada é que a gente tem que compreender o processo de mudanças de um determinado país e, de um país complexo como o Brasil, só se faz dentro de um processo longo e difícil. Minha atuação, portanto, será no sentido de, na Câmara, destacar cada vez mais a agenda positiva do Governo Lula.

Como é que fica então a sua relação com os movimentos sociais, dos quais o senhor é egresso? Como foi ver uma fotografia sua num outdoor como um deputado que votou contra os trabalhadores, no caso da Reforma da Previdência – aliás, uma prática bem comum dos seus tempos de militantes em relação a parlamentares adversários?

Eu não posso negar que é uma situação incômoda e delicada, complexa. Mas devo dizer que a política nos envolve de certo modo também nessas questões. Sou servidor público federal, sou professor da nossa Ufac (Universidade Federal do Acre), mas na condição de deputado da bancada do PT, participei da Comissão Especial que analisou a Reforma da Previdência, sugeri coisas e votei favorável tranqüilamente. Eu entendo que a Previdência Social no Brasil, sobretudo a previdência pública, precisava ser alterada porque continha muitas distorções. Eu e grande parte dos militantes do PT e militantes dos movimentos sociais fizemos isso de forma clara, divulgando o nosso posicionamento, e agora conosco está ocorrendo exatamente aquilo que fizemos com os outros. Isso faz parte da opção que fizemos. Optamos em sermos Governo e nessa condição levamos também os programas que esse Governo tem e é claro que as decisões de Governo nem sempre são simpáticas ao povo. Mas devo dizer que só acompanho decisões definidas pela bancada em cima da unidade de ação, mas que eu também esteja em princípio de acordo com ela. Portanto, se de um lado me incomoda um pouco, do outro eu estou com a minha consciência tranqüila de que atuei de forma correta, lícito e defensável.

Inclusive agora quando o PT trava uma verdadeira luta para barrar a CPI do Caso Valdomiro?

Inclusive agora. A questão do caso Valdomiro já está sendo devidamente apurada. A Polícia Federal está apurando os fatos e o Ministério Público tem toda a liberdade de apuração. Trata-se de um caso que ocorreu antes do Governo Lula, restrito à Loteria do Rio de Janeiro, que o Valdomiro dirigia, e a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro já instaurou uma CPI com o apoio da bancada do PT no Rio. Por isso nós consideramos desnecessário se fazer uma CPI no plano federal no de eleição. Nesse segundo ano do Governo Lula o que nós temos que fazer é avançar rumo a outros desafios, como a transição do modelo econômico e criando uma agenda positiva para enfrentar os graves problemas sociais enfrentados pela sociedade brasileira.

Como um deputado com o seu perfil, que é essencialmente político, pode contribuir concretamente com o país e em particular com a sociedade de seu Estado, que está ávida pela viabilidade de um modelo de desenvolvimento que lhe propicie emprego, renda e uma vida melhor? O que o senhor faz para contribuir com esses processos?

Eu entendo que a questão da política econômica, sobretudo do modelo do desenvolvimento implantado no Brasil, precisa mudar. O presidente Lula tem consciência disso e nós não teremos como dar sustentabilidade a um modelo econômico que de certo modo leva a economia à estagnação e à crise. Somos contra esse modelo ortodoxo e conservador porque sabemos que isso precisa mudar e trabalhamos para mudá-lo. Essa é a minha participação com o meu partido. O diretório nacional do PT já fez observações críticas e o presidente Lula está no caminho correto quando discute com os principais líderes mundiais e das instituições financeiras multilaterais no sentido de mudar os métodos e os critérios de relação e cooperação comercial entre os vários países. O Acre participa desse processo. Somos uma economia totalmente depende do Governo Federal. Portanto, seu desenvolvimento depende em grande parte de mudanças na política do Governo Federal, que é o que estamos trabalhando. O Governo precisa fazer grandes investimentos, inclusive aqui no Acre. O governador Jorge Viana tem se empenhado nisso e nós da bancada, eu dentro desse processo, temos trabalhado no sentido de dotar o Estado do Acre de um modelo de desenvolvimento econômico baseado na agricultura, na pecuária, nos recursos florestais que só nós temos e no conjunto de atividades econômicas que dêem sustentabilidade ao processo da economia da nossa região. Uma coisa é certa: o Acre não pode continuar sendo um Estado onde só haja servidores públicos. O Acre tem que ter uma base produtiva e essa base não pode ser outra que não o desenvolvimento rural.

O Governo do Estado enfrenta duras críticas em relação ao modelo de desenvolvimento que está posto, mas, no entanto, não é apresentada uma alternativa. O que o senhor diria desse comportamento da oposição?

Acho que a oposição no Acre não tem bandeiras, não tem uma visão, não tem um projeto nem tampouco propõe ou constrói. Nós temos esses projetos e defendemos a economia florestal, o desenvolvimento sustentável, a agricultura baseada na agroindústria, defendemos a manutenção da pecuária como ela está hoje, sem precisar fazer mais desmatamentos. Nós defendemos este modelo de desenvolvimento baseado nesta forma. Estamos trazendo para o Acre, além de novos empreendimentos, uma nova concepção junto aos trabalhadores e o resultado disso é que temos proprietários, pequenos e médios produtores, com uma nova visão produtiva. Então é isso que nós defendemos. Eu entendo que a oposição, quando não tem exatamente uma visão da economia acreana, por não ter um modelo - aliás, o modelo que a oposição defendeu até recentemente era o modelo de derrubar a floresta, da destruição, atira no escuro. Nós somos contra esse modelo porque não podemos permitir que todas as riquezas que nós temos sejam transformadas em pasto para gado. Por isso a oposição precisa amadurecer e criar alguma bandeira se quiser de fato se contrapor ao nosso projeto.

Mas, com projeto ou não, o discurso da oposição contra o Governo tende a se acirrar este ano por causa do calendário eleitoral. Como o senhor e seu partido vão responder a isso?

Vamos responder com responsabilidade e com candidaturas compromissadas com este modelo que nós recebemos. Aqui em Rio Branco mesmo eu acredito que a candidatura do deputado Raimundo Angelim, nosso secretário das Cidades, hoje se colocar num novo patamar. O Angelim hoje é conhecido do povo, foi eleito deputado estadual com uma magnífica votação e está muito mais amadurecido do que antes. Além disso, a população está vendo que um prefeito da Capital, articulado com as políticas que estamos realizando nos governos do Estado e em nível federal, tem condições de colocar a nossa capital num novo patamar, como nós colocamos o Acre. As candidaturas de oposição que estão colocadas, particularmente a do ex-deputado Márcio Bittar, estão evidentes em caminhos opostos a isso que defendemos. A candidatura do ex-deputado Márcio Bittar tem o agravante de ser uma candidatura trampolim, cujo resultado a gente já viu e não gostou. O ex-prefeito Flaviano Melo, por exemplo, disse que o que mais gostou na vida foi de ser prefeito de Rio Branco. Ganhou às eleições, passou um ano como prefeito e simplesmente renunciou para ser candidato a governador. Tenho a impressão de que o projeto do ex-deputado Márcio Bittar é exatamente esse: tentar ser prefeito de Rio Branco para, na verdade, tentar fazer uma escadinha rumo ao Governo. Isso o povo de Rio Branco não vai mais tolerar e com certeza dará a resposta à altura e a resposta certa. Em relação à candidatura do deputado estadual José Bestene o que posso avaliar é que ele pode oferecer sua plataforma à população porque é um parlamentar conhecido, que já disputou o cargo de prefeito algumas vezes e perdeu as eleições. É uma candidatura que está colocada e que todos nós vamos avaliá-la no momento adequado.

E essa especulação de uma possível coligação da Frente Popular com o PMDB? O senhor tem interesse nisso?

Eu, como deputado federal, procurei o deputado federal João Correia, dirigente do PMDB, no plenário na Câmara, sobretudo porque o PMDB deixou de ser um partido que apóia o governo do presidente Lula para ser um partido que compõe o governo do presidente Lula com dois ministérios. Procurei o deputado para mostrar a ele a importância para o Acre de que ele também cerrasse fileiras ao lado do governo federal na medida em que o PMDB faz parte deste Governo. A partir daí foi permitido que a gente avançasse em relação a outras conversações. Estamos conversando sim e iniciamos um processo de avaliação. O deputado foi muito transparente e que sua tomada de decisão iria se dar nos fóruns internos do PMDB e nós estamos esperando e respeitando esse processo. Ele ficou de me informar à posição oficial do partido no devido momento.

O senhor acha que é possível superar aquelas escaramuças entre militantes? Aquela troca de acusação entre dirigentes e parlamentares do PMDB e do PT ou da Frente Popular?

A minha intenção, na minha relação com o deputado João Correia, era trazê-lo para a base do Governo Federal. Com relação às articulações aqui no Acre, particularmente para a Prefeitura de Rio Branco, existe um grupo de trabalho eleitoral, o GTE, conduzido pelo diretório regional do PT que está fazendo as conversações de composição de alianças para as eleições municipais. Eu não estou acompanhado de perto esse debate, mas entendo que nós devamos aguardar as discussões internas que o PMDB está travando e a partir daí definirmos a nossa posição. Eles têm toda a liberdade de escolher a posição deles e o PT e a Frente Popular têm, também, experiência e amadurecimento político suficiente para definir a posição que vai tomar. Quanto a mim, já fazia o trabalho de atração de parlamentares para a base de apoio ao Governo, e agora, como vice-líder da bancada, vou trabalhar ainda mais para aumentar nosso leque de apoio.

Qual a perspectiva do PT em relação às eleições deste ano? Na sua avaliação, o partido sairá de oito prefeituras para quantas e como será a relação dentro da Frente Popular, uma vez que a natureza dos partidos é o seu crescimento e a chegada ao poder?

A Frente Popular se consolidou. O Grupo de Trabalho Eleitoral e a coordenação da Frente vêm fazendo um trabalho magnífico de unidade, de discussão e de resolução das divergências internas e de forma amadurecida. Não tenho dúvidas de que nós saltaremos de sete prefeituras para no mínimo 14 a 15 prefeituras e chegaremos, no âmbito da Frente Popular, a 16 ou 17 prefeituras. Chegaremos a isso pelo trabalho que o Governo desenvolveu, pelo amadurecimento da Frente e porque este é o nosso momento.

 

 
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Rio Branco-AC, 26 de março de 2004
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