COTIDIANO

Presa mentora de megaquadrilha de falsários

Funcionários de Detrans eram aliciados para colaborar com o esquema de fraudes na emissão de carteiras de motorista

Marcos Vicentti
Leide era quem mantinha contato
com os funcionários dos
Detrans e negociava as carteiras


Edmilson Ferreira

A Polícia Civil do Acre prendeu esta semana, em Salvador (BA), a ex-funcionária pública Edileide Barreto de Almeida, a Leide, possivelmente a número dois de uma megaquadrilha de falsários infiltrada nos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans) em todo o país. A Polícia Federal participou das investigações em diferentes regiões.

O bando, que age aliciando servidores nos Detrans, emitiu, de forma fraudulenta, cerca de 30 mil carteiras de habilitação ao longo dos dois últimos anos em seis Estados e faturou mais de R$ 15 milhões. O grupo se utilizava muito de ligações telefônicas para instalar-se no Detran. No Acre, Leide fez o primeiro contato no começo de janeiro deste ano. O funcionário que atendeu, lotado na seção de cadastro, manteve a correspondência e, antes de participar do esquema, denunciou Leide à diretora-geral do órgão, Arnete Guimarães, que acionou o delegado Walter Prado, diretor-geral de Polícia Civil.

Durante mais de um mês foram realizados rastreamentos, inclusive telefônicos, para localizar o eixo da quadrilha. As provas foram levadas ao juiz Francisco Djalma, da 3ª Vara Criminal, que acatou o despacho da promotora Alessandra Marques, do Ministério Público Estadual, e mandou prender Leide e outras 16 pessoas, todas beneficiárias do esquema. Com a falsa conivência do funcionário, Leide e seus falsários chegaram a produzir 20 cadastros de CNH, os quais eram disponibilizados no sistema nacional de emissão de carteira de motorista. Assim sendo, a partir do Acre um beneficiário poderia retirar “segunda via” de “sua” CNH em qualquer parte do país. Para isso, remunerava a quadrilha de Leide em R$ 800 e R$ 1,5 mil.

SEM EXAME – O beneficiário não passava por nenhum tipo de exame – daí a raiz da falsificação. Desde o Acre, segundas vias de CNH foram emitidas em Rondônia, Bahia, Espírito Santo, Paraná e Amazonas, onde a polícia diz que há “fortes ramificações” da quadrilha.

Walter Prado esteve várias vezes na Bahia antes de conseguir o mandado de prisão contra Leide. Nas investigações, descobriu que Leide é ex-funcionária da Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) em Jequié e é “bem articulada” no sistema de trânsito. Na Ciretran, desenvolveu a técnica que acabou potencializando a quadrilha em todo o País. A polícia acredita que mais de 100 beneficiários ativos estejam envolvidas na fraude nos Estados.

Esquema dava vida de luxo para Leide

Para a polícia, Leide é uma mulher rica, apesar de estar desempregada. Em Salvador, a equipe de Prado e agentes baianos ficaram espantados com o apartamento de luxo em que vivia a ex-funcionária da Ciretran local, em condomínio de classe média alta no Edifício Iemanjá, no bairro Assaba.

Em Recife, outro endereço de Leide, a polícia se deparou com outro apartamento de alto padrão. Desde Alagoas, vários contatos foram feitos para início de novas fraudes. O maior número de fraudes, entretanto, foi detectado em Minas Gerais, para onde a Justiça acreana expediu 12 mandados de prisão. “Nos apartamentos apreendemos vários documentos que interessam às investigações”, disse o delegado Walter Prado.

A apuração prossegue visando identificar os funcioná-rios dos Detrans envolvidos no esquema. Na Bahia, a polícia instaurou o segundo inquérito do caso - o primeiro foi aberto no Acre - e nos próximos dias serão conhecidos outros integrantes da quadrilha.

A polícia esforça-se para manter Leide no Acre, apesar do “batalhão” de advogados que ingressaram com ações na Justiça baiana tentando evitar sua remoção.

“Esperamos que ela colabore e preste mais informações”, disse Prado. Ontem, Leide nada quis falar. Respondeu a uma única pergunta dos jornalistas, informando que é solteira.

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Rio Branco-AC, 27 de março de 2004
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