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Castanha globalizada Grupo boliviano Tahuamanu aproxima relações com o governo do Acre, promete instalação de indústria de beneficiamento em 15 meses e quebra monopólio explorador centenário da paraense Mutran |
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A partir de agora, a castanha extraída nas matas do Acre e do Departamento de Pando, na Bolívia, terão investimentos dos dois lados da fronteira. Aliás, esse foi um dos pedidos feitos pelo sócio-diretor da Tahuamanu, Dom Henrique. “Precisamos alagar as nossas fronteiras”, pediu Dom, fazendo uma referência à “desburocratização” na conclusão de negócios e na diminuição dos impostos. “Na Bolívia, principalmente na região de mata, há escassez de mão-de-obra ligada ao extrativismo e esse problema nós não temos”, afirmou o deputado estadual Ronald Polanco. O grupo boliviano é ligado ao mercado da castanha e só no Departamento de Pando já investiu mais de US$ 10 milhões. Diretores da Tahuamanu conversaram com o governador Jorge Viana, acompanhados pelo deputado estadual Ronald Polanco, e pela Secretária Estadual de Extrativismo e Produção Familiar, Denise Garrafiel e pelo Secretário Executivo de Extrativismo, Jorge Fadell. A instalação da nova indústria na capital está prevista para 15 meses. A informação foi mantida por um dos três diretores que visitaram o governador Viana. O diretor de operações do grupo, Oscar Farfan assegurou que já existem condições iniciais para bancar o projeto de entrada no parque industrial do Acre. “Temos aproximadamente 25% do capital necessário para o investimento”, informou Farfan, que não quis adiantar o valor envolvido no novo negócio. “Estamos em busca de fortalecer a idéia de que é possível criar uma espécie de OPEC, Organização dos Estados Produtores de Castanha”, sugeriu em tom descontraído, comparando com a Organização dos Estados Produtores de Petróleo (OPEP). Com o investimento feito em Pando de mais de US$ 10 milhões, a Tahuamanu emprega diretamente 300 funcionários e faz com que mais de mil famílias tenham geração de renda garantida. A busca pelo apoio político encontrou boa aceitação na Casa Rosada, residência oficial do Governo do Estado do Acre. “O que nós estamos buscando é a consolidação do mercado da castanha na região envolvendo o Departamento de Pando e o Estado do Acre”, disse Jorge Viana. Com a aproximação da Tahuamanu e a possibilidade de instalação de uma grande indústria de beneficiamento, Viana mostra a desenvoltura que foi capaz de quebrar o monopólio tradicional da Mutran, empresa paraense que explorou o extrativismo do Acre por praticamente cem anos. Durante todo esse tempo, a Mutran não investiu em beneficiamento do produto no próprio Acre: extraia o produto do Estado e levava para o Pará. O modelo de desenvolvimento desenhado pelo atual governo do Acre quebrou no calcanhar os projetos exploratórios da Mutran na região. “Com essa medida, nós contribuímos para consolidar um tripé fundamental para o projeto de governo dirigido por Jorge Viana: política fiscal forte, atrelada à indústria e à conservação”, pontuou Jorge Fadell, secretário Executivo de Extrativismo. Sócio diretor da Tahuamanu quer melhorar qualidade da castanha acreana Após a reunião com o governador Jorge Viana, o grupo da Tahuamanu foi conhecer o parque industrial do futuro empreendimento, localizado no Novo Distrito Industrial de Rio Branco. Mesmo com todos os incentivos da instalação do negócio no Acre, o sócio-diretor da Tahuamanu, Dom Henrique, enfatizou a necessidade de melhorar a qualidade do produto vendido no Brasil. “A qualidade pode ser melhorada e o preço final diminuído”, comentou Dom. O diretor lembrou que o preço do quilo da castanha comercializado em São Paulo chega a R$ 50 em quanto o quilo do produto é vendido no Acre por R$ 12,5. “Essa margem de diferenciação no preço pode ser melhor trabalhada por todos nós, inclusive na busca de novos mercados”, disse Henrique. A diretoria também reclamou dos preços cobrados na entrada do produto em território brasileiro. Um dos principais insumos das indústrias de chocolate brasileira, a castanha da Tahuamanu já tem tradição de ser a fornecedora da empresa Garoto, no Brasil. Só que, segundo um dos diretores, o preço da “lata” de castanha (cada lata produz 3 quilos da amêndoa) chega a custar até R$ 11 na entrada em solo brasileiro. Indústrias de Xapuri e Brasiléia ganham reforço com chegada da Tahuamanu As cidades de Xapuri e Brasiléia já possuem duas usinas de beneficiamento de castanha e estão em fase de conclusão das instalações dos equipamentos. A Secretaria de Extrativismo e Produção Familiar estima que com a chegada da Tahuamanu no Acre um mercado que normalmente movimenta R$ 45 milhões por ano, diretamente, pode ganhar novo fôlego e ultrapassar a marca dos R$ 60 milhões, com uma estimativa de produção baseada em mais de 10 mil toneladas. O grupo de diretores afirmou ainda que as indústrias de Xapuri e Brasiléia podem contribuir com a dinamização se trabalharem em um sistema de pré-beneficiamento. Eles dizem ter visitado as novas instalações nos dois municípios e asseguram que o perfil delas estaria mais adequado a fazer uma parte da escala de beneficiamento. A Seprof está avaliando todas as variantes para o início dos trabalhos. Os fatores estratégicos da instalação da Mutran no Acre Parte dos recursos necessários à instalação da Tahuamanu será investimento brasileiro. Tudo faz parte de uma lógica de desenvolvimento regional e integrado. Os principais fatores que contribuem para rápida vinda do grupo boliviano e a quebra da exploração centenária da Mutran são: 1) O presidente Lula quer o fortalecimento do comércio na região de fronteira; 2) Jorge Viana tem se apresentado como o interlocutor direto de Lula na Amazônia (o Encontro de Pucalpa, no Peru, comprovou isso); 3) O governo do Acre tem respaldo financeiro garantido tanto por parte de organismos como o Banco da Amazônia (Basa), cuja função se enquadra perfeitamente no projeto de instalação da nova indústria, quanto por organismos como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); 4) A instalação de uma indústria de beneficiamento da Tahuamanu no Acre, além de quebrar o ciclo de exploração da empresa paraense Mutran no estado, mostra o grau de articulação política da equipe liderada por Viana. O governador do Acre não poderia perpetuar a situação de exclusão concretizada pela indústria paraense por colocar em xeque todo o discurso envolvendo o processo de desenvolvimento sustentável defendido pelo governo. Garantir o respeito às Populações Extrativistas e aquecer a economia local estão entre os principais objetivos traçados com a aproximação do novo grupo empresarial. Concorrência com amêndoas norte-americanas e espanholas Na conversa que manteve com o deputado estadual Ronald Polanco, o grupo de executivos da Tahuamanu afirmou que os principais concorrentes da castanha amazônica são a amêndoa norte-americana e a espanhola. Segundo um dos diretores, esses insumos industriais são colhidos em um período de seca, enquanto a castanha amazônica tem 30% de umidade. Outro fator que diferencia os insumos norte-americanos (feitos na Califórnia) e europeus é a produtividade. Segundo Oscar Farfan, enquanto aqui são necessários 100 hectares de terra para se extrair 1 saco com 60 quilos, nos países desenvolvidos se consegue com meio hectare. Mas isso, adianta o diretor, não tem nenhuma relação com a tecnologia utilizada, mas sim ao componente natural. A castanha é mal distribuída na mata e isso dificulta o processo. |
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