OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Plácido de Castro



n Com a aproximação do centenário da morte de Plácido de Castro é necessário aprofundar os diversos aspectos históricos que cercam a construção deste personagem. Até porque, ainda que não se reconheça a figura dos heróis engendrados pela história das civilizações, é necessário reconhecer que PLácido de Castro, por sua atividade na questão do Acre, se tornou mais que um homem comum, se tornou um sujeito coletivo e sua história é também a história de muitos.

No dia 12 de dezembro de 1873, nascia na cidade de São Gabriel, próxima da fronteira com o Uruguai, o primeiro filho do casamento do Capitão Prudente da Fonseca Castro com a Dona Zeferina de Oliveira Castro. O menino recebeu o nome de seu avô paterno, José Plácido de Castro, que a exemplo de seu pai e de seu bisavô (Joaquim José Domingues) também havia sido militar. Com isso o menino parecia predestinado a seguir a carreira militar que já a três gerações consecutivas marcava os homens daquela família. Mas a morte do pai quando Plácido tinha quase 12 anos, dificultou a formação do menino que se viu obrigado a trabalhar para ajudar no sustento dos seis irmãos e da mãe.

Trabalhou em diversos ramos de atividade, desde então. O primeiro emprego foi em uma loja de fazendas, a seguir foi aprendiz em uma ourivesaria e finalmente se transferiu para a cidade de São Francisco de Assis, onde um irmão paterno lhe ofereceu um emprego em seu Cartório. Algum tempo depois Plácido foi para Bagé de onde retornou para sua cidade natal, São Gabriel, onde novamente se empregou no comércio, até completar a idade de 16 anos, mínima para começar a carreira militar.

Foi, portanto, no ano de 1889, que Plácido assentou praça no 1º Regimento de Artilharia de Campanha, mais conhecido como “Boi de Botas”, para logo em seguida ingressar na Escola Tática de Rio Pardo de onde retornou, já no ano de 1892, como 2º Sargento ao regimento de onde saíra. No ano seguinte conseguiu uma vaga na Escola Militar de Porto Alegre na qual permaneceu até que começaram os conflitos da Revolução Federalista que assolou todo o país durante a presidência de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro. Entre os Pica-paus, republicanos partidários de Floriano Peixoto, e os Maragatos, que reunia federalistas e monarquistas, Plácido acaba por se alinhar aos últimos e luta em diversos combates alcançando rapidamente o posto de Major. Porém, apesar dessa fulminante ascensão, a derrota dos Maragatos leva Plácido de Castro a abandonar a carreira militar, ainda que tenha sido anistiado, como todos os outros revoltosos, num dos episódios menos compreendidos de sua biografia, uma vez que ele parecia realmente acalentar o sonho da carreira militar.

O ano de 1896 assiste a chegada do jovem Plácido ao Rio de Janeiro onde se empregou no Colégio Militar. Mais uma vez ele ascendeu rapidamente, melhorando de posto ao passar de Guarda de 2º Classe para Inspetor de Alunos até que, ao brigar com um dos professores do Colégio, novamente se viu na contingência de procurar outras ocupações longe da caserna. Foi parar, desse modo em São Paulo, em 1898, onde trabalhou na Doca de Santos como forma de juntar recursos para empreender uma longa viagem até Manaus onde alguns amigos lhe acenavam com a possibilidade de rápida fortuna.

Seguindo seu tortuoso caminho, Plácido logo chegou em terras amazônicas. Começou então a trabalhar como agrimensor na demarcação daquelas terras ainda tão pouco exploradas pelo homem branco e que com a riqueza proporcionada pela borracha rapidamente se viu cobiçada e intensamente explorada. A virada do século encontrou Plácido de Castro, aquele gaúcho vindo das frias terras do sul, sofrendo com os rigores do clima amazônico e que logo se tornou mais uma vitima do impaludismo que tanto assustava e depauperava os novos exploradores daquela região.

O ano de 1900 já estava próximo de seu final quando Plácido, que se encontrava no Seringal “Boca do Pauini” fazendo mais um de seus trabalhos demarcatórios, foi localizado por um grupo de homens que se dirigia as terras acreanas afim de realizar uma revolta armada contra os bolivianos. O Objetivo deste grupo era convidar Plácido de castro para participar daquele empreendimento que necessitava de homens experimentados nas artes da guerra. Seja em função de seu precário estado de saúde, seja porque já percebia o desatino daquela aventura a que se lançavam homens mais devotados ao copo e a boêmia, recusou o convite que lhe foi feito e assistiu a partida da Expedição Floriano Peixoto, que depois ficaria mais conhecida como a Expedição dos Poetas no rumo de Puerto Alonso onde seria derrotada pelas forças bolivianas.

Pouco mais de um ano depois, Rodrigo de Carvalho, acompanhado de dois outros grandes seringalistas que não desistiam da idéia de formarem uma força suficiente para expulsar os bolivianos das terras acreanas, procuraram Plácido de Castro para lhe propor um movimento armado definitivo. Depois de ouvir os motivos e ponderações de Rodrigo de Carvalho, Plácido mostra-se favorável a participar daquela revolta, mas para tanto apresenta três condições indispensáveis (Lima, 1973, pág.81 e 82):

1 - “Tudo se fará à margem de qualquer interferência do Sr. Silverio Nery”. Com isso Plácido se acautelava contra o Governador do Amazonas que já havia lhe causado um prejuízo na forma de um trabalho realizado, mas não pago.

2 - “Será estabelecida uma junta revolucionária, mas esta, uma vez desencadeada a revolução, se dissolverá automaticamente, ficando todos os poderes atribuídos ao chefe militar, que os senhores propõem que seja eu. A mim, pois, caberá o direito de exercer uma autonomia absoluta durante a revolução”. Plácido já deixava assim entrever sua linha de ação que incluía a absoluta centralização de comando que julgava necessária para o sucesso da empreitada.

3 - “Finalmente, a terceira, mas fundamental, condição: Deve ficar assentado que, firmadas as condições, quem faltar aos compromissos será sumariamente passado pelas armas”. Com isso deixou claro que não toleraria traição e que sua reação seria a mais dura possível.
As condições impostas foram aceitas e Plácido de Castro começou a preparar a luta que marcaria toda a sua existência.

REVOLUÇÃO

Não iremos aqui nos debruçar sobre os diversos episódios que caracterizaram a Revolução comandada por Plácido de Castro e a quarta ocorrida na região que futuramente constituiria o Acre. Faremos somente algumas considerações mais gerais sobre a participação de Plácido neste movimento.

Muito tem sido dito sobre o papel de Plácido de Castro na vitória revolucionária contra os bolivianos. As manifestações mais comuns se dedicam a traçar páginas do mais puro heroísmo épico que visam criar uma imagem até certo ponto romântica acerca desse homem e de seu destino. Do nosso ponto de vista, parece mais correto buscar alguns dos aspectos mais relevantes na vitória da Revolução Acreana, deixando de lado a visão ufanista dos fatos.

É preciso considerar que a quarta revolução ocorrida no Acre foi até certo ponto curta em sua duração. Começou em 6 de agosto de 1902 e terminou a 24 de janeiro de 1903, ou seja, apenas seis meses de confrontos mais agudos o que facilitou em muito o seu desfecho favorável. Talvez o principal fator do sucesso desse movimento armado tenha sido que pela primeira vez se procurou formar um exército organizado. É verdade que era composto por seringueiros sem experiência militar, mas a organização implementada foi suficiente para direcionar corretamente os esforços e ações daquelas centenas de homens. Nesse aspecto foi fundamental a experiência que Plácido já possuía em sua vida na caserna, onde disciplina e obediência são condições primárias do funcionamento de um agrupamento militar. Neste ponto, o comandante em chefe do exército acreano era radical, não admitindo atos de rebeldia ou o descumprimento de suas determinações. Alguns o acusam, inclusive de ter sido até duro demais no exercício do comando, mas esse era seu modo de conseguir a coesão daquele grupo tão desigual, no que obteve sucesso, apesar dos exageros e injustiças que possa ter cometido.

Um outro fator de peso no resultado do movimento armado foi o forte apoio obtido dos grandes seringalistas, especialmente dos proprietários de terras do rio Acre. Isso lhe deu o suporte necessário para a formação e manutenção de um exército como ainda não havia existido por estas plagas. Durante os longos dias de cerco e combate às posições bolivianas, não faltaram suprimentos, munição e armamentos para o exército acreano, apesar de aqui e ali o próprio Plácido de Castro ter se queixado, em seus apontamentos escritos após a revolução, das provações passadas nos dias de marcha forçada quando faltavam provisões para alimentar seus soldados. É certo que ao final da revolução o exército acreano havia acumulado uma grande divida junto aos fornecedores dos gêneros e armas, mas que foi facilmente paga pelo butim tomado ao exército boliviano.

Falta-nos espaço aqui para aprofundar ainda mais estas reflexões. O certo é que apesar do exagero tão comum nos livros que tratam da revolução acreana, onde Plácido de Castro foi pintado com cores quase sobrenaturais, é preciso reconhecer que ele foi um dos principais responsáveis pelo sucesso do movimento armado que tornou o Acre brasileiro.

* O envio deste artigo para o jornal só foi possível graças ao pessoal do Programa de Inclusão Digital que está trabalhando na ExpoAcre, a quem agradeço imensamente.

 
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Rio Branco-AC, 27 de julho de 2008
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