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Rio Branco - Acre, sábado, 1 de fevereiro de 2003
Nem sempre adversários

Renan Calheiros *

Todo processo democrático precisa ter regras claras, de preferência estabelecidas de maneira consensual, acordadas sobre parâmetros regimentais ou da tradição política, para que se evitem esgarçamentos de toda ordem, no dia seguinte da peleja política. Tais regras não devem ter efeito meramente figurativo. Servem para disciplinar o jogo e manter as manobras estritamente no campo democrático. No caso da eleição para as Presidências da Câmara e do Senado, que acontecem no início do mês que vem, esta premissa tem tamanha importância que do seu cumprimento dependerá diretamente a futura relação entre os Poderes ou, para ser mais específico, ditará a convivência entre o Legislativo e o Executivo.

Diante disso, assumi imediatamente que minhas responsabilidades como líder estariam acima das minhas responsabilidades como pré-candidato. Na liderança, tenho procurado buscar a convergência e o respeito ao direito da minoria se manifestar. Mas esta deve entender que a vontade da maioria deve prevalecer. Minha candidatura à Presidência do Senado nunca foi um projeto pessoal. Sempre pertenceu à bancada do PMDB e a escolha do indicado pelo partido tem de acontecer em clima de pacificação. Num momento decisivo para os rumos do País e para a construção de uma base parlamentar, nenhuma decisão pode estar acima dos interesses da sociedade. E, neste contexto, o papel das instituições tem de ser preservado, mesmo que haja eventuais divergências provocadas por interesses particulares ou regionais. A desunião do partido não serve a ninguém. Todos perdem com a falta de coesão, principalmente o País. A busca da reunificação deve ser vista como um projeto comum às forças políticas que integram o partido. Unido, o PMDB terá um papel ainda mais relevante no processo de aprovação das reformas necessárias.

E construir a unidade significa apostar no entendimento das forças políticas para afastar o risco de seqüelas indesejáveis. Temos de preservar a independência dos Poderes para manter a tradição e as regras do jogo democrático. Admitir a independência não quer dizer que o Executivo seja proibido de articular para que seu ponto de vista prevaleça. Significa que ele deve respeitar as correlações políticas existentes nos outros Poderes, mesmo que estas eventualmente contrariem a sua vontade.

Quando você aproxima lados que estiveram em posições opostas, ganha a democracia, ganha o País e ganha o povo brasileiro. Além de ser um gesto de desprendimento, conceder faz parte da vida política. Todo gesto na direção do entendimento tem de prevalecer sobre as diferenças. A arte de ser ora audacioso e ora prudente é a verdadeira arte de vencer. A paciência traz mais frutos que a força. E nem sempre os adversários o são em todas as circunstâncias. A hora é de superarmos divergências, deixarmos de lado as vontades para trabalharmos pela reunificação do partido e pelo Brasil.

* Líder do PMDB no Senado e ex-Ministro da Justiça

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