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Rio Branco - Acre, sábado, 1 de fevereiro de 2003
Sistema de saúde ganha seus
primeiros mestres em medicina

Idéia é que, nos próximos quatro anos, o Acre disponha de pelo menos 60 especialistas em diversas áreas

Tião Maia

O Acre ganhou ontem a primeira leva de uma mão-de-obra qualificada e genuinamente acreana no serviço público de saúde. Onze médicos e enfermeiros receberam, no auditório da Fundação Hospitalar, em Rio Branco, seus diplomas. Quatros receberam diplomas de mestres e outros sete foram diplomados como especialistas em cirurgias clínicas e geral, após concluírem a residência médica.

Todos eles são concludentes do programa de especialização e formação profissional na área de medicina no Estado do Acre. Isso significa dizer que, além de passar a ter profissionais de saúde absolutamente especializados, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac) também passará a contar com professores do mais elevado conhecimento técnico.

Mas, para que o curso de medicina seja completo, a Ufac vai precisar contratar, ao longo dos próximos quatro anos, entre 59 a 61 profissionais, todos com o título de mestres.

Os onze primeiros formandos receberam seus diplomas ontem pela manhã, numa emocionante e histórica solenidade que contou com a participação do governador Jorge Viana, que ali compareceu representando o senador Tião Viana (PT-AC), seu irmão, o principal articulador das mudanças que vêm sendo processadas ao longo dos últimos quatro anos no sistema de saúde do Acre.

“Eu tenho um desejo: que a sociedade, a imprensa em particular, possa aprofundar o debate sobre o que está se vivenciando na área de saúde do Estado do Acre”, disse o governador Jorge Viana, ao se desculpar pela ausência do senador no ato de diplomação dos novos mestres e especialistas em medicina.

“O presidente Lula e o meu partido deram ao senador Tião Viana a enorme missão de levar a cabo as tarefas de construção de um novo Brasil. É por isso que ele não pôde estar aqui. É por isso que ele, um amante da medicina, não está entre vocês. Mas, como o conheço bem, sei que ele se realiza como médico em poder ajudar e tornar possível o sonho de seus colegas de se qualificarem ainda mais para a prática de uma medicina mais justa e mais humana”, disse o governador.

Dos onze mestres, seis fazem parte da residência médica do Acre. Os outros concluíram o mestrado em medicina e saúde através de parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a pioneira no Brasil. Na solenidade de diplomação, foram apresentados 12 novos alunos de residência médica cujas atividades começam no mês que vem.

Até agosto de 2003, incluindo os mestrandos de ontem e os outros 12 que começam as atividades a partir de hoje, a Faculdade de Medicina contará com 23 mestres. Até o final de 2004, esse número terá que ser acrescido de mais 18 profissionais.

“Essa construção e formação de docentes tem que ser contínua porque, ao longo do tempo, as pessoas se aposentam, falecem, se mudam. Nós temos que manter essa atividade acadêmica porque, quando estiverem próximos da conclusão do curso, os atuais alunos de medicina terão que contar com todo o corpo docente”, disse o professor-doutor José Tavares-Neto, da Universidade Federal da Bahia, coordenador do curso de mestrado em medicina e saúde mantido por convênio entre o Governo do Acre, através da Fundação Hospitalar, e a UFBA.

Trabalhos científicos de médicos
acreanos são publicados até no exterior

Os 11 médicos diplomados ontem já apresentaram suas dissertações e algumas delas já foram publicadas ou estão sendo encaminhadas para publicação no Brasil e no exterior. O programa de residência médica é desenvolvido no Estado com recursos próprios do governo desde o ano 2000, quando oito alunos foram aprovados. Outros 12 médicos ingressaram no curso em 2001. Além de qualificar os médicos do Estado, o programa também prepara os profissionais para atuar nas áreas de pesquisa. Pelo menos 13 trabalhos científicos realizados pelos profissionais do Acre já foram apresentados em congressos de medicina de caráter nacional e pelo menos dois deles foram premiados como primeiros colocados. Outros 21 trabalhos foram publicados em revistas de pesquisas médicas e todos procuram apresentar resultados que tenham aplicabilidade na realidade local em saúde pública.

Abaixo, a lista, com os respectivos títulos, dos mestrandos que apresentaram suas dissertações no ato de diplomação de ontem.

Item Nome Título do Trabalho
01 Denise Duizit Collin - Prevalência de infecção por HTLV-I/II em      doadores de sangue da cidade de Rio Branco-Acre
02 Elaine Soares Leal - Freqüência das patologias do colo uterino em      mulheres de 15 a 29 anos no município de Rio Branco- Acre
03 Kátia Lima Andrade - Avarena Acuña Avaliação do Estado     nutricional de adultos internados em hospital público do Acre
04 Leonardo José Rangel Diel - Uso do poliéster-uretano como     reparador de dura-mater
05 Margarida de Aquino Cunha - Gestação na adolescência e      recém-nascidos de baixo peso em uma maternidade pública de Rio      Branco-Acre
06 Maria Helena Guimarães - Inquérito soropiedemiológico de      dengue em duas populações do Estado do Acre, fronteira      Brasil-  Bolívia
08 Nilton Ghiotti de Siqueira - Doença hidática policística pelo      echinocus vogeli - revisão sistema da literatura
09 Osvaldo de Souza Leal Júnior - Evolução histórica dos casos de     malária de Plácido de Castro (Acre) e o tratamento da malária     falciparum não-complicada com quinino associado a doxiclina
10 Regina Coeli Duarte Moreno Jarude - Malária em gestantes de     uma maternidade pública de Rio Branco (1996 a 2001)
10 Renaldo Duarte Moreno - Alterações oculares na hanseníase –     observações em pacientes ambulatoriais da cidade de Rio Branco  

Jorge Viana diz que Acre será referência na medicina

O curso de graduação em medicina, assim como a residência médica e o mestrado, compõe parte do plano do governo do Estado de transformar o Acre num centro de excelência de saúde pública, revelou Jorge Viana. Segundo ele, a implantação desses projetos é resultado da atuação do senador Tião Viana em Brasília. “Outros governadores me perguntam como é que, no Acre, um Estado pobre, nós conseguimos trazer para cá um curso de medicina e, a partir do que está acontecendo aqui, com esse elevado padrão técnico. A minha resposta é que, além do interesse e da boa vontade da classe médica, eu tenho em Brasília um aliado que, antes de ser meu irmão, é um amante da medicina e um visionário de que o Acre pode vir a ser o centro do debate internacional sobre a medicina social”, disse Viana.

A convivência com Tião Viana na condição de médico, segundo Jorge Viana, tornou-o sensível em relação à área médica. “Eu sei o que significa para uma médica ou para um médico chegar em casa e ter a certeza de que perdeu um paciente”, disse. “ E o que um político pode fazer para que esse profissional possa ir fundo na sua luta contra a morte?”, indagou, para logo em seguida responder: “É fazer o que estamos fazendo aqui. O que está acontecendo aqui muda a lógica da medicina no Acre, que era apenas de tratar o paliativo”.

Por mudar a lógica, segundo Jorge Viana, deve ser entendido que o Acre, apesar de não possuir grandes equipamentos e tecnologia avançada na área de saúde, pode vir a ser um centro de excelência no que diz respeito à medicina social, a chamada saúde da família. “Eu não me conformo em ser apenas bom. Só podemos pensar em sermos apenas bons quando tivermos resolvido problemas como a miséria, a fome, a violência. Quando fizermos isso, aí todo mundo fica fazendo só sua parte e aí seremos bons. Na atual circunstância, eu só me conformo se formos excelentes. Esse é meu objetivo para a área de medicina no Acre”, afirmou.

Tião Viana: diplomação mostra
que vale a pena sonhar

Em Brasília, onde vem atuando como um dos principais operadores políticos do presidente Lula no Congresso Nacional, o senador Tião Viana (PT-AC), líder do Governo no Senado, falou ontem, por telefone, sobre a diplomação dos primeiros mestres em medicina do Acre.

O que significa esse fato para o senhor?

“É a concretização de um sonho. É a concretização de que sonhar vale a pena. Quando dizíamos que iríamos implantar uma faculdade de medicina no Acre, havia uns céticos - não sei se mal-intencionados ou simplesmente descrentes mesmo - que nos chamavam de lunáticos, de utópicos. Diante do que está acontecendo hoje, com a diplomação dos primeiros mestres que serão os docentes da faculdade de medicina, tenho a sensação de que valeu a pena lutar tanto.”

O que o senhor acha da corrente que continua a duvidar da qualidade técnica do curso de medicina do Acre?

“Trata-se de um preconceito absurdo. Os professores passaram por treinamentos da melhor qualidade. São pesquisadores, cientistas que estão estudando faz pelo menos quatro anos para obterem a habilitação a fim de ensinarem medicina. Dizer o contrário é desconhecimento ou má-fé. Daqui há sete anos, quando for formada a primeira turma de médicos genuinamente acreanos, essa gente vai ter que rever seus conceitos da mesma forma que os que não acreditavam na nossa capacidade de implantar a faculdade de medicina tiveram que rever.”

E agora? O que se espera do sistema de saúde do Acre?

“É claro que temos que fazer muito ainda. O Acre viveu muito tempo perdido, sem investimentos. Nos últimos quatro anos, trabalhamos em vá-rias direções para que o nosso povo pudesse ter a crença de que é possível construir um Estado-cidadão, um Estado decente. A saúde agonizava. Investimos em equipamentos, em qualificação da mão-de-obra e na criação da faculdade de medicina. Mas isso não é tudo. Nós temos que formar mais e mais profissionais de saúde que tenham a realidade acreana na sua alma. Só um médico com o conhecimento das mazelas do nosso povo é que vai, com essa sensibilidade, lutar para diminuir o sofrimento da nossa gente. É preciso investimento, é preciso dinheiro, mas é preciso, sobretudo, mais humanização dos profissionais para que a gente chegue ao patamar com que todos sonhamos.”

Um senador da medicina

É impossível desconhecer que o senador Tião Viana, médico de reconhecida sensibilidade e seriedade profissional, tem feito a diferença na área de saúde do Acre. Quando de sua eleição para o Senado, em 98, houve quem dissesse que o Acre, com Tião no Senado, sofreria enormes prejuízos porque perderia um médico de qualidade. É necessário se fazer justiça: o Acre ganhou muito com o médico Tião senador da República.

Não fosse sua luta, o Acre não seria agraciado com a implantação de uma Faculdade de Medicina e não teria essa enorme perspectiva de que, daqui por diante, as coisas serão menos difíceis. Tião Viana não esconde que sua pretensão é fazer com que o Acre seja, em nível regional, uma referência em ensino na área de saúde. Depois do curso de medicina, virão o de odontologia e outros da área.

É por tudo isso que as pessoas que costumam analisar e pensar política sem paixão não têm dúvidas de que, se resolvesse daqui por diante não fazer mais nada, Tião Viana já teria entrado para a história como um grande senador. Sua atuação na área de saúde, sem prejuízo das demais atribuições de um senador, é algo que orgulha os acreanos e nos mostra o caminho do tipo de políticos que doravante devemos eleger. (Tião Maia)

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