
LENDAS DA REVOLUÇÃO
A história é curiosa. Ela se constitui numa das ciências mais antigas da humanidade. Não há sociedade que não cultive e não crie sistemas de transmissão do passado comum. É como uma cola que une muitas pessoas diferentes, com pensamentos divergentes, com personalidades discordantes, em uma coletividade, uma única identidade social.
Nacionalismos, regionalismos, racismos, etnocentrismos, não importa a forma escolhida para fomentar e utilizar uma determinada identidade coletiva. Ela sempre está presente, de uma forma ou de outra.
Nem o fim dos séculos, nem os fins de milênio, são capazes de decretar o fim da história. Simplesmente porque os calendários e as datas são meras invenções enquanto a história é condição essencial da existência humana. Isso foi claramente demonstrado há alguns anos atrás pelos protestos generalizados de todos os cantos do planeta quando os teóricos do neo-liberalismo pretenderam vislumbrar o fim da história.
A quem interessa uma sociedade global que compartilha das mesmas idéias, mesma lingua, mesmo pensamento, mesma informação? Como George Orwell já deixou claro, um futuro televisivo, computadorizado, homogeneizado, pode ser extremamente perigoso. Pode levar à escravização completa da raça humana, sob o domínio de uma minoria detentora do capital que nos globaliza.
Não, o capital também não é essencial. A história é.
Só a história pode ser continuamente reinventada. Só a história perdurou ao longo de tantas revoluções e modos de produção. Por onde andaria a liberdade em tempos de cólera, se não refugiada nos subterrâneos da história ?
A consciência e a liberdade de um povo podem, assim, ser medidas por sua capacidade de escrever a própria história. Eis o que promove a multiplicidade cultural, a pluralidade ideológica, a diversidade social que nos enriquece a todos. A Índia com seus Vedas, os hebreus com seus testamentos, os Persas com seu Maniqueismo, os orientais com suas religiões filosóficas, os Muçulmanos com seu Islã guerreiro, os acreanos com seus hinários. Eis a fonte da criação.
Que sociedade chata e superficial nos tornaríamos se houvesse alguma chance dos Estados Unidos implementar seu programa expansionista determinando a existência de todos os outros países e culturas. Hamburguer e besteirol a cabo. Grande progresso !
Em troca do real, a realidade digital, virtual. Tá bom !
Contra todas as opiniões emitidas pelos abalizados analistas. O mundo não caminha para a globalização. A humanidade sempre foi global. Desde, pelo menos, há 15.000 anos atrás que o homem passeia livremente por todos os cantos do planeta. O que mudou foi a consciência da presença humana na face da terra. O século XVI marcou o autoconhecimento da humanidade. A terra é redonda, gira em torno do sol e estamos em todos os lugares, vamos interliga-los, vamos explorar suas riquezas, vamos vender, comprar, trocar, dar valor ao bom e ao belo de cada terra.
Globalização da humanidade qual nada. Ela já é planetária a muito tempo. O que se globalizou foi o capital das grandes corporações transnacionais, nada mais. Essa é a real ameaça.
O que deveria preocupar a humanidade não é a disputa entre judeus e palestinos, já que esta é milenar e não se resolverá com meia dúzia de bombas teleguiadas, mas sim a prepotência do capital transnacional em querer impor suas próprias soluções aos diferentes. Mas não é isso que vemos nos noticiários internacionais. Invasão do Iraque, ameaça à Coréia do Norte, manutenção do bloqueio a Cuba, atentado da Al Qaeda no Afeganistão, aids dizimando a população africana, entre outras “cositas más”. Diante disso tudo não é possível não se indignar.
É preciso acordar. Lembrar que temos nossa própria história, que possuímos múltiplas raízes históricas, que o que desperta a imaginação criadora é a multidão de deuses, culturas, línguas e homens e não uma pretensa homogeneidade dos povos.
A Utopia ainda vive, como sempre viveu, ao lado da história. Um planeta consciente, que compreende e racionaliza sua necessidade de diversidade, que particulariza as ações aproveitando as brechas deixadas pela hegemonia do capital transnacional, que faz revoluções regionais lenta e quase imperceptivelmente. Por isso, voltemos nossos olhos para a história do Acre como a única que nos vale a pena agora.
Uma das lendas mais recorrentes da Revolução Acreana é que ela foi um movimento circunscrito somente ao vale do rio Acre. Se, por um lado, não resta duvida que aquele rio foi o palco principal dos acontecimentos revolucionários. Por outro é preciso levar em consideração que os outros rios acreanos não permanecerem indiferentes e incólumes as consequências da guerra. Até porque a Revolução dizia respeito a todo o território acreano e os resultados do conflito também determinariam o destino dos vales do Purus, do Tarauacá, do Juruá e outros; Como ficaria comprovado após a assinatura dos Tratados de Petrópolis e do Rio de Janeiro.
Além disso, não são poucas as informações que nos dão conta da mobilização de homens e armas no Purus, no Iaco e nos outros rios próximos do rio Acre. Já apontávamos isso em 1997 no livro “O Capitão e as seringueiras” que trata da vida do Capitão Ciriaco que no ano de 1903 foi comissionado por Plácido de Castro para ir ao Iaco recolher contribuições financeiras e mobilizar homens para lutar, em caso de necessidade, no exército acreano. Mas ainda não havíamos encontrado dados mais concretos sobre a posição dos seringueiros e seringalistas do Juruá ou do Tarauacá durante o desenrolar do movimento revolucionário acreano.
Até que, nesses dias, ao lermos a cópia de um livro que o Dr. Arquilau - com sua inquietude criativa, havia conseguido localizar na biblioteca do Senado Federal - fomos surpreendidos por uma passagem eloqüente que descreve a reação de seringueiros do rio Tarauacá frente às noticias da revolução:
“Com a noticia das vantagens de Redenção, o povoamento se intensificou de rio acima, por toda parte. O cearense atrevido assenhoreou-se até às cabeceiras. Alguns deixaram a vida naqueles confins de mundo em troca de umas quinze ou vinte curvas do rio já transformado em igarapé. Pouco importava que morressem, outros lhes iriam suceder. Era preciso engrandecer, dilatar a superfície da pátria e assim evitar que o peruano surgisse pela divisão das águas no Urubamba e se apossasse primeiro. Por isso morria um e chegavam cinco para o substituir.
Para aumento de revezes estourara no rio Acre a luta do seringueiro com a Bolívia, encabeçada por Plácido de Castro. O governo cruzou os braços sem o menor auxilio, sem enviar pelo menos um paneiro de farinha e uma saca de açúcar para a chibé daquela gente.
As praças de Manaus e de Belém, que tinham seus capitais espalhados naquele rio, viram-se forçadas a socorrer e ajudar, clandestinamente, com munição de boca e de guerra o seringueiro que, num ímpeto de rebeldia cívica, insurgira-se não consentindo o estrangeiro tomar pé em suas terras.
A luta agravara-se de mais a mais com tendência a periclitar a situação dos brasileiros, ou melhor dos cearenses.
Plácido de Castro vendo as coisas um pouco turvas enviou ao Tarauacá um emissário com poderes de requisitar forças dando patente de capitão para os donos de seringal que conduzissem pelo menos vinte homens.
Todo o rio acelerou-se, todo mundo queria ir.
Meu irmão e outros proprietários trataram de organizar elementos combatentes para seguirem à linha de frente.
Íamos sair quando chegou um outro emissário para comunicar que as hostilidades haviam cessado com a rendição incondicional dos bolivianos.
Fato curioso é que, naquela época, segundo ouvi dizer – não tenho certeza – esteve por lá o “colega” Getúlio Vargas (colega na idade e na espingarda) incorporado às forças do coronel Antônio Olímpio da Silveira, veterano da Guerra de Canudos, de Antônio Conselheiro, na Bahia. Entretanto os batalhões do coronel não tomaram parte ativa durante os combates da revolução acreana. Ele, o coronel, lá esteve, de fato, mas para garantir a ordem e as fronteiras.
(Justifico chamar Getúlio Vargas de “colega”, porque também estive incorporado a um batalhão de seringueiros, no rio Tarauacá, quando chegaram notícias da rendição dos bolivianos a 24 de janeiro de 1903.)
Terminada a guerra, os combatentes proclamaram a independência do rio em Republica Acreana. Adotaram um pavilhão como símbolo da pátria e outras coisas mais.” (Alfredo Lustosa Cabral, Dez anos no Amazonas (1897-1907), 1949, págs. 53 e 54)