
Em clima de festa, deputado do PMN entra para a história como o único a comandar o poder por três mandatos consecutivos
Leonildo Rosas
Aos 43 anos, Sérgio Petecão (PMN) já entrou para a história. É o primeiro deputado, nos 40 anos de Assembléia Legislativa, a comandar o Poder por três mandatos consecutivos. Por 20 votos a 3, os demais parlamentares decidiram reconduzí-lo, na manhã de ontem, ao cargo de presidente por mais dois anos. Apenas o deputado José Vieira (PFL) deixou de comparecer à solenidade de posse porque está se recuperando de uma cirurgia em Goiânia.
Como já havia anunciado anteriormente, o deputado Luiz Calixto (PMN) votou em si mesmo. Seu voto foi acompanhado por N. Lima (PSC) e Tarcísio Pinheiro (PPS).
A 1ª secretaria e a vice-presidência também continuaram inalteradas: o petista Ronald Polanco e o tucano Helder Paiva permaneceram onde estavam. Os demais cargos, de maneira inédita, foram ocupados por deputados debutantes no Parlamento.
Somente Ronald Polanco e Moisé Diniz (PC d B), candidatos a primeiro e segundo secretários, respectivamente, obtiveram todos os 23 votos. “Fiz questão de pedir o apoio de cada um parlamentar”, revelou o comunista.
A eleição de ontem foi apenas a homologação de uma negociação que vinha sendo comandada na semana passada pelo líder do governo, Edvaldo Magalhães (PC do B), o assessor político Francisco Afonso Carioca Nepomuceno e o próprio Sérgio Petecão.
Para convencer os parlamentares, os negociadores utilizaram o argumento de união da Frente Popular. Também inovaram ao fazer as negociações abertas com a presença da imprensa e em restaurantes, onde o cardápio político foi reforçado por galinha caipira e moqueca capixaba.
Com as galerias lotadas, já como “tripresidente” eleito, Sérgio Petecão agradeceu o apoio dos deputados e aproveitou para fazer um desabafo por não ter conseguido a união do seu partido em torno de sua candidatura. “Esta eleição é a mais difícil da minha vida aqui no Parlamento. Em 1999, fui eleito por unanimidade. Dois anos depois, ganhei por apenas um voto. Mas agora, tive que enfrentar a oposição dentro do meu partido”, desabafou.
Petecão comentou que o PT, por ter cinco deputados, poderia pleitear a presidência. Mas, segundo ele, foi o sentimento de amizade e lealdade que norteou todo o processo. “As minhas palavras são de agradecimento. Quero pedir a todos que me ajudem a continuarmos o trabalho de moralização e reforço da imagem do Legislativo junto à população”, concluiu.
Calixto critica e diz que vai continuar no PMN
Cumprindo o que vinha afirmando anteriormente, o deputado Luiz Calixto ignorou a decisão do PMN e votou em si mesmo para a presidência da Assembléia. Na sua opinião, o Parlamento precisa melhorar muito a sua imagem porque está desgastada, não se faz auto-afirmar e é comandada por fora.
“Vou lutar bravamente contra isso. Durante o meu mandato farei uma oposição inteligente e consistente aos desmandos e à falta de cumprimento do regimento interno da Casa”, disse.
Calixto afirmou que também vai procurar denunciar à população o que classifica de “subserviência do Legislativo ao Executivo”. Mesmo mostrando-se revoltado, ele disse que respeita o resultado porque já o conhecia antecipadamente.
“Desejo ao presidente Sérgio Oliveira sucesso na nova empreitada e que ele cumpra o que prometeu aos seus eleitores-deputados.”
Sobre a sua permanência no PMN, Calixto disse que continua no partido e vai lutar para mudar a estrutura partidária, que, na sua opinião, tem a prevalência de uma estrutura familiar de Petecão. “Tenho a certeza e a absoluta convicção de que estou tomando a posição correta.”
População mostra força
do
discurso na posse de deputados
Enquanto os novos deputados tomavam posse em uma cerimônia sempre cheia de pompa e cordialidade, a população fez questão demonstrar também a parcela de participação, além do voto. Os cartazes, as camisetas e as pequenas faixas mostravam a coerência de um discurso cujo resultado estava representado ali nos 24 parlamentares empossados.
Emídio Lessa foi um dos principais organizadores da comitiva de 100 pessoas que vieram apoiar a posse de Moisés Diniz. Todo o grupo vestia uma camiseta estilizada do novo parlamentar. Um grupo de 20 pessoas fez questão de vir de Tarauacá para prestigiar a posse de Diniz.
Esmeralda Rodrigues saiu cedo do bairro Cidade Nova para “dar uma força” ao deputado Sérgio Petecão. Com o cartaz “Obrigado por votarem no homem certo”, fazendo alusão ao presidente reeleito da Aleac, desde a semana passada, Esmeralda já pensava em fazer o cartaz “para todos verem quem o povo quer na principal liderança da Assembléia”, disse.
Outro admirador de Petecão é o morador do bairro Santa Cecília, no quilômetro nove da BR-364, Agostinho Coelho de Souza. “Fiz questão de estar desde cedo aqui para mostrar como queremos a presidência dessa casa”, sugeriu, erguendo a cartolina com a frase “O bairro Santa Cecília pede Petecão presidente”.
Deputados calouros entram com vontade de trabalhar
Na legislatura que se iniciou ontem, 10 deputados nunca tiveram qualquer contato com a Assembléia Legislativa. Para familiarizá-los com a casa, o secretário-executivo do Poder, Carlos Augusto Coelho, disse que todos foram submetidos a um pequeno curso, no qual lhes foram mostrados a missão do Legislativo e seus direitos e deveres.
Além disso, a direção da casa vai promover treinamento para todos os assessores, para que ele possam auxiliar os deputados com mais agilidade e conhecimento de causa.
Para conhecer o que pensam os deputados, o Página 20 procurou ouvi-los. Veja o que cada um promete fazer no Parlamento nos próximos quatro anos.
“A minha expectativa é a melhor possível, principalmente porque estou vendo transparência desde essa eleição da mesa diretora. Nosso partido tem dois deputados: um foi para a mesa diretora e o outro pode ser líder de bloco. Pretendo, a exemplo do deputado federal Zico Bronzeado e do senador Sibá Machado, ambos do PT, tentar rediscutir a questão da vilas Extrema e Califórnia, uma região onde tive muito voto. Também penso em estudar a possibilidade de propor ao governo a criação de um restaurante popular para atender os trabalhadores.” - José Luiz Tchê (PSDC), 42 anos, eleito com 2.684 votos.
“Nosso partido ficou honrado de poder participar de um processo de mudança tão grande na sociedade acreana. Pretendo, junto com os demais partidos da Frente Popular, viabilizar projetos que possibilitem a melhoria de vida da população mais carente.” - Chico Viga (PSDC), 37 anos, eleito com 2.100 votos.
“Minha luta para chegar aqui começou há vários anos. Em 1998 deixei de entrar por 27 votos de legenda, quando concorri pelo PMN e obtive 1.894 votos. Mesmo assim, continuei trabalhando. Pretendo na Assembléia desenvolver projetos voltados para a geração de emprego e renda, por meio de pequenos negócios, mas sem esquecer á-reas importantes como saúde, educação e segurança pública.” - Nilson Areal (PL), 40 anos, eleito com 2.739 votos.
“Comecei na política em 1990, como coordenador da campanha do governador Edmundo Pinto, em Sena Madureira. Em 1992 fui candidato a vereador e perdi por quatro votos. Em 2000 fui eleito o vereador mais bem votado. Ganhei a eleição para deputado porque trabalhei com as famílias pobres, dando presentes em datas comemorativas. Vou continuar fazendo trabalho social para ajudar os mais carentes.” - Hélio Lopes (PL), 40 anos, eleito com 2.156 votos.
“Tenho toda uma responsabilidade pelo Estado. Mas vou priorizar minhas ações para a região de Brasiléia, onde obtive a maior parte da minha votação. Tentarei viabilizar a ampliação da malha de emprego e renda porque a abertura da Estrada do Pacífico está proporcionando mudanças profundas nas cidades do Vale do Acre. Acredito muito no turismo e na agroindústria para gerar a renda e os empregos necessários.” - Delorgem Campos (PSB), 49 anos, eleito com 1.642 votos.
“O slogan da minha campanha foi ‘direção e segurança’. O governador Jorge Viana me convidou justamente para a Secretaria de Segurança Pública, que tem a responsabilidade de garantir o compromisso que assumi na campanha. Acredito que, como secretário, poderei dar uma contribuição muito grande porque já fui titular do cargo, onde acumulei grande experiência.” - Fernando Melo (PT), 44 anos, eleito com 3.829 votos.
“Está no Parlamento é ter a oportunidade de discutir a sua verdadeira função, que é o de discutir os grandes temas de interesse da população e de atuar junto aos demais poderes para contribuir com o desenvolvimento político, social e econômico do nosso Estado.” - Raimundo Angelim (PT), 47 anos, 6.266 votos.
“A população me elegeu para ser oposição, mas uma oposição responsável. Vou cobrar ações de saúde, segurança e educação do governador Jorge Viana, principalmente para o Vale do Juruá, que é onde está minha base eleitoral.” - Antônia Sales (PMDB).
“Acredito que a religião não pode estar fora da vida social. Vou procurar ser um elo entre os excluídos e o poder. Ouvindo os setores mais carentes, acredito ser possível diminuir a violência, que é fruto da desatenção das autoridades com os humildes.” - Padre Walmir Gomes Figueiredo (PT), 49 anos, eleito com 2.909 votos.
“Pretendo reforçar o trabalho moralizador do poder implantado pela mesa diretora, mostrando para a sociedade que há políticos sérios e honestos, que têm no seu trabalho político um trabalho voltado para o bem comum.”- Moisés Diniz (PC do B), 39 anos, eleito com 3.072 votos.
Os suplentes
Mesmo não tendo sido eleitos no primeiro momento, dois suplentes calouros deverão assumir na Assembléia Legislativa. São os petistas Juarez Leitão e Taumaturgo Lima, que ocuparão as vagas deixadas por Fernando Melo e Raimundo Angelim, convidados para compor a equipe do governador Jorge Viana. Veja os que suplentes pensam.
“Minha expectativa é fortalecer a Frente Popular do Acre e defender os projetos de interesse da população, principalmente do Vale do Juruá.” - Taumaturgo Lima, 45 anos, que obteve 2.591 votos.
“Vai ser uma experiência nova na minha vida. Mas não temo desafios. Com 20 anos saí do seringal, no rio Jurupari, para presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Feijó. Depois, fui presidente da Fetacre. Em 1998 fui eleito presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros, onde permaneci até dezembro do ano passado. Minhas principais bandeiras são a defesa do extrativismo e do desenvolvimento sustentável.” - Juarez Leitão, 37 anos, 2.701 votos.
Composição da mesa
Presidente:
Sérgio Petecão (PMN)
1º secretário:
Ronald Polanco (PT)
1º vice-presidente:
Helder Paiva (PSDB)
2º secretário:
Moisés Diniz (PC do B)
2º vice-presidente:
Nilson Areal (PL)
3º secretário:
Chico Viga (PSDC)
4º secretário:
Delorgem Campos (PSB)
* Colaborou Itaan Arruda Dias