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Rio Branco - Acre, terça-feira, 4 de fevereiro de 2003
Revoada bancária

Os bancos estrangeiros de investimento estão indo embora, vendendo suas carteiras ou diminuindo seus negócios no Brasil. Nos bancos de varejo, há menos mudanças, mas só alguns têm intenção de ficar no país. É o fim da onda que começou em 94. Dois ex-presidentes do Banco Central, Gustavo Loyola e Gustavo Franco, acham que nem tudo se deve à crise brasileira.

O Dresdner vem reduzindo drasticamente suas operações de banco de investimento e vai sair do pais. Seu presidente no Brasil, Winston Fritsch, estaria indo, segundo comentário de mercado, para a Rio Bravo, de Gustavo Franco. Nenhum dos dois quis confirmar isto ontem, mas o mercado dá como certo.

O espanhol BBV vendeu suas ações para o Bradesco. O alemão BBA também foi vendido para o Itaú. O americano JPMorgan vendeu toda a sua carteira de administração de ativos para o Bradesco. Os portugueses já tinham saído antes, quando a Caixa Geral de Depósitos e o Grupo Espírito Santo venderam o Boavista e o Bandeirantes.

O Sudameris só não saiu porque não encontrou a porta. Foi iniciada a negociação para a venda para o Itaú e, depois, os dois discordaram sobre valor do negócio e as negociações iniciais foram rompidas. O Bank of America também está de malas prontas.

Estão reduzindo suas operações, inclusive com demissões, a Merrill Lynch, Deutsch Bank, o Bank Boston e o Barclays. O Bank Boston teve pesados prejuízos na Argentina e está diminuindo toda a sua operação na América Latina. O Barclays já saiu da Argentina e da Colômbia.

E quem fica? O Citibank, que tem uma antiga e sólida operação no Brasil. O Santander, que fez várias compras no mercado brasileiro de varejo como Noroeste, Meridional, Bozano e Banespa. O HSBC, que comprou o Bamerindus. O ABN Amro, que comprou o Real. Todos na áreas de varejo.

Dois ex-presidentes do Banco Central que estavam nos cargos quando houve a onda de desembarque acham que a revoada se deve a uma soma de fatores, vários deles que têm a ver com o que acontece nos países de origem e nas próprias sedes dos bancos.

— A maioria dos bancos estrangeiros de investimento vinha se concentrando apenas nas 15 ou 20 maiores empresas do Brasil. Várias destas empresas começaram a enfrentar problemas de dívida com a desvalorização. Mas o que se passou nas matrizes também alterou fortemente os negócios aqui. Veja o Patrimonio, que foi comprado pelo Salomon, que foi comprado pelo Chase, que foi comprado pelo JPMorgan, que enfrenta muitos problemas com a crise dos balanços das empresas americanas. E que, aí, decidiu vender sua carteira de administração de recursos no Brasil para o Bradesco — conta Gustavo Franco.

— É uma soma de dois motivos básicos: crise na economia americana e aumento do risco-Brasil. Isto tornou pouco atrativa a operação no país. Muitos destes bancos também sofreram com episódios como o da Enron e da Worldcom. O aumento do risco percebido fez reduzir o fluxo de capitais para o país. Eles sofreram enormes perdas em alguns países emergentes como a Argentina e vários acreditaram na teoria da catástrofe no Brasil com a vitória da oposição — explica Gustavo Loyola.

Houve também, contam, vários casos de avaliação errada sobre a complexidade de se operar no Brasil.

O HSBC, por exemplo, permanece; mas a confiança exibida nas primeiras declarações, logo após a compra do Bamerindus, desapareceu.

Houve casos em que, simplesmente, as aquisições lá fora mudaram o foco do banco. Os alemães que compraram dos austríacos o BBA não têm negócios na América Latina e não tinham interesse em manter o banco aqui apesar de a operação ser lucrativa.

O Bank Boston teve pesadas perdas na Argentina e está diminuindo seus negócios. A Merrill Lynch passa por um enxugamento brutal na matriz. Já mandou embora 20 mil funcionários lá fora. É natural que reduza aqui também. Já vinha fazendo isso há dois anos, quando vendeu sua carteira de administração de recursos.

Há analistas que acreditam que, mesmo entre os que ficam, há aqueles que podem ter seus negócios, na matriz, comprados.

— A situação não está fácil para ninguém, o mundo está em crise. E, se eu quiser manter alguma coisa no Brasil, tenho que diminuir — afirmou um dirigente de um dos bancos que não saíram.

— Não somos nós que estamos diminuindo. O mundo é que encolheu — disse outro presidente de banco estrangeiro.

— O volume de negócios no mercado de ações mundial caiu a um terço do que era. Isso faz com que os bancos de investimento estejam em crise no mundo inteiro — afirmou outro banqueiro ouvido.

Gustavo Franco acha que há outra razão para a saída dos bancos:

— Bancos que têm boas operações no Brasil têm que sair do país para melhorar sua classificação pelas agências de risco. Perdem aqui só para ter o ganho com alta de ação pela reclassificação. É impressionante a destruição de riqueza provocada pelas agências de rating e suas análises preconceituosas.

O ÍNDICE de Preços no Varejo da Fecomércio-SP atingiu a sua maior alta em um mês de janeiro desde 1996. Foi registrado um aumento de 4,68% nos preços na região metropolitana de São Paulo. No entanto, o IPV caiu em relação a dezembro, quando fora de 5,27%.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão
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