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Rio Branco - Acre, terça-feira, 4 de fevereiro de 2003
Claudionor Fonseca

Altino Machado

Invasores demarcaram os lotes e agora
esperam negociar com a prefeitura

“Saco vazio não fica em pé”

Na sexta-feira, enquanto os camelôs eram retirados da invasão em frente ao Palácio Rio Branco, o potiguar Claudionor Fonseca, 40, pai de cinco filhos, improvisava uma barraca para vender caldo-de-cana numa pequena faixa destinada aos pedestres, na frente do muro da casa de prostituição Momentus, na Estrada Custódio Freire.

Depois dele, outros 13 pais de famílias, todos desempregados, também demarcaram seus lotes ou ergueram toscas barracas com cobertura de lona. Eles assumiram entre si o compromisso de não vender bebida alcoólica no local.

Claudionor Fonseca precisou da ajuda de um amigo para comprar a engenhoca para moer cana por R$ 100,00. O último emprego dele durou 15 dias como servente de pedreiro.

“Se não tivesse montado essa barraca estaria passando fome com meus filhos. Parado ninguém pode ficar. A gente tem que procurar um meio de vida pra viver. Saco vazio não fica em pé”, afirma Claudionor, que estuda a 5ª série com três filhos na escola Ismael Gomes.

Leia os melhores trechos da entrevista:

O senhor decidiu ocupar uma área pública, destinada aos transeuntes, com um negócio particular. O que acha disso?

Rapaz, o que acho é que essa é a melhor área que encontrei para trabalhar e não morrer de fome. Estou desempregado, sem ter o que fazer, e preciso fazer alguma coisa, arrumar um meio de vida para dar de comer aos meus filhos.

O senhor sabe que poderá ser retirado desse local pela fiscalização por ocupar uma área de domínio da Prefeitura?

Sim, claro, eu sei disso. Estamos esperando os fiscais chegarem. Nós queremos negociar. Queremos saber o que eles poderão fazer pela gente.

A questão das invasões de espaços públicos para fins comerciais parece não ter fim em Rio Branco. No mesmo dia em que os camelôs deixaram a praça em frente ao Palácio Rio Branco vocês fizeram essa invasão.

Fui o primeiro a chegar aqui. Eu inventei isso aqui porque não tenho emprego. Não estou na frente do Palácio, mas num local bem mais reservado e distante. Isso só vai acabar quando for resolvido o problema do emprego. São milhares de pais de família na mesma situação.

O senhor nasceu no Rio Grande do Norte, viveu doze anos em Brasília e há 20 anos se mudou com seus pais para viver como colono no projeto de assentamento Humaitá. Por que mudou para a cidade?

A terra pertencia a meu pai. Eu me casei e mudei pra cidade com a família porque não tinha terra pra morar.

Na cidade o senhor não tem outra fonte de renda?

Não, não tenho e não posso ficar parado. Consegui montar isso aqui a duras penas, com a ajuda de um amigo. Foi ele que se compadeceu da minha situação com a família e decidiu comprar a engenhoca por R$ 100,00. O negócio é meu e dele, mas o interesse maior dele é mesmo me ajudar. Dando para comprar o pão das crianças, para mim ta bom demais.

Onde foi seu último trabalho?

Durou 15 dias, na Albuquerque Engenharia. Trabalhei como servente de pedreiro, mas fui despedido antes do final do ano passado.

Qual a sua opinião a respeito da política, especificamente sobre a administração do governador Jorge Viana?

Pode ser um bom governo. O que a gente espera é que ele faça alguma coisa. Ele prometeu trabalhar em benefício da pobreza. Nós estamos esperando que ele faça alguma coisa.

O governador tem anunciado a disposição de reinventar o governo, para que possa fazer um segundo mandato melhor que o primeiro. O que o senhor acha que o governo precisa fazer para melhorar?

Acho que precisa melhorar muita coisa mesmo no governo.

Altino Machado

Claudionor Fonseca: “Eu inventei
isso aqui porque não tenho emprego”

O que, por exemplo?

A oportunidade de emprego é essencial. Dizem que tem vários empregos, mas não ta tendo emprego não. Tenho rodado por aí e não tenho achado muito fácil emprego não. Tem que ter diploma, não sei mais o quê, nível superior. Para o pobre viver ta muito difícil. O saber ta difícil e então pro pobre viver fica complicado. Me diga o que um pai de família, sem diploma e sem curso de nada, com cinco filhos, vai fazer diante de uma situação dessa? Vai cruzar os braços e passar fome?

O que o senhor acha que o presidente da República, o governador do Acre ou o prefeito de Rio Branco podem fazer para mudar isso?

Eles podem fazer muita coisa. Eles têm que criar terreno para todo mundo trabalhar. Nós invadimos esse terreno e estamos esperando a prefeitura aparecer aqui para negociar. Se a gente não pode ficar aqui, tudo bem, mas tem que dizer onde a gente pode se instalar para trabalhar.

O senhor concorda que vai faltar espaço público na cidade se todo mundo que necessitar de trabalho decidir invadi-lo?

Não, não. Claro que não é com invasões que vamos conseguir, mas a gente espera que eles providenciem um local onde possamos trabalhar. O importante é que não empatem nosso trabalho, que a gente não volte a ficar de cara pra cima, sem ter o que fazer.

O senhor foi o primeiro a invadir essa área e já existem outros 13 invasores. A sua situação já melhorou desde a invasão?

Sim, melhorou demais. Estou vendendo caldo-de-cana a R$ 0,30 o copo. Se não tivesse montado essa barraca estaria passando fome com meus filhos. Parado ninguém pode ficar. A gente tem que procurar um meio de vida pra viver. Saco vazio não fica em pé. Preciso comprar material escolar para os cinco filhos, inclusive material escolar para mim. Estou estudando a 5ª série com meus filhos na escola Ismael Gomes.

O senhor tem esperança de que a vida vai melhorar no país?

Eles prometem que vai melhor. Então a gente tem que esperar que vai melhorar. Já que eles fizeram tanta promessa de que vai se bom, vamos esperar que seja bom. Se é da gente pensar o contrário, é melhor a gente pensar positivo.

O senhor acha que o Acre, apesar
de tudo, um lugar bom para viver?

É um lugar bom, sim. É o melhor lugar para o pobre viver, se virar. Se o pobre colocar pra ganhar a vida, ele consegue.

Altino Machado


 

altinoma@uol.com.br
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