
Jorge Tufic
Inicialmente cabe perguntar: como fazer poesia se ela, a poesia, já existe independentemente da palavra e do poema? Colocada nestes termos, a poesia se manifesta no homem, como necessidade de expressão e comunicação de estados psicológicos, emoções, sentimentos, etc. As sociedades agráfas, impregnadas de sentido místico e sobrenatural, utilizavam recursos fonéticos, gestos, danças, movimentos, rituais, inclusive a sonoridade por meio de instrumentos de sopro e percussão, para transmitir e ‘guardar’ o seu mundo riquíssimo em tradição, poesia, ciência e artesanato, dos quais se utilizavam, também, para as utilidades domésticas.
A poesia, nas sociedades tribais ou primitivas, encontra sua mais alta forma de expressão através do lendário e da mitologia que informa sobre o modo como surgiram, incluindo-se, aí, a terra, os bichos, as águas, os homens, seus deuses e seus heróis. Aliada ao sonho e à natureza de que se alimentam as visões e a fantasia, ela traduz a sabença que intui dos mistérios, dos valores e das grandezas físicas do Universo. A linguagem é indireta ou metafórica, mas sua qualidade poética reside, sobretudo, na adequação do linguajar da criança ao senso de medida que empresta aos fatos narrados uma situação mágica da própria realidade. Melhor explicando, as noções convencionais de espaço e de tempo, peso e volume, se anulam face ao imaginário acumulado e transmitido pelos narradores de estórias. Os índios, assim, representam o pleno exercício físico e vocal da poesia, antes da cultura e da palavra escrita.
Os povos indígenas contam seu mundo. Uma parte dessa “literatura” dos primórdios da Amazônia acha-se recolhida nas obras de Antônio Brandão de Amorim, Barbosa Rodrigues, Elmano Stradeli, Nunes Pereira, Theodor Koch Grunberg e outros. A língua geral do Amazonas ou Nheengatu (= nheen (língua), catu (bonito), falar bonito) orquestrada pelos missionários jasuítas como primeiro passo da cataquese, servira ao mesmo tempo para contornar a fechada barreira dos falares e dialetos existentes na região, facilitando, posteriormente, a coleta daquele material etnográfico: lendas, costumes, puçangas, mistérios e testemunho. Saberiam, por acaso, os cientistas que tesouro poético traziam para a cultura do branco? Sobre este fato inusitado escreve Raul Bopp: “Os nhengatus, colhidos genuinamente nas malocas do Alto Urariquera e na região do Rio Negro, eram de uma enternecedora simplicidade. Por exemplo: Há muito, já, no princípio do mundo, contam, desceu do céu uma moça, de lindeza de rosto”, etc. Ou então: “Nos tempos de antigamente...” O tuxaua acreditava na sua origem cósmica quando dizia: “Aquela estrela que me gotejou...” Nos diálogos afetivos, usavam o diminutivo dos verbos: estarzinho, esperazinho, adoçazinho etc. Para dar ênfase a certos episódios, recorriam ao processo de repetição do vocábulo, como pula-pulavam, vira-virando etc. (Raul Bopp, “Putirum”, ed. Leitura S.A, Rio, 1968).
Língua postiça, importada, artificial e imposta, legou-nos contudo, o nhengatu, a riqueza e a plasticidade de um vocabulário singular, dentre o qual substantivos, adjetivos e verbos que detém a fragrância, a tônica e o toque mágico na fixação da paisagem e dos fenômenos que movem, e se movem, em planos, emaranhados e acidentes geográficos de cada pedaço habitado pelas diferentes nações, ou tribos autóctones. Temos, assim, Panãpanã (borboleta), Catui (bonzinho), Yúri (água corrente), Cuari (buraquinho), Ypixuna (água preta), Puranga (bonito), Andirá (morcego), etc. Dos verbos que transmitem carinho, amizade, conforto e segurança: estarzinho, dormezinho, fazer doizinho, adoçazinho, etc.; inclusive muitos outros, somente traduzíveis para qualquer idioma mediante recursos estilísticos habilidosos.
Com certa estilização no arranjo das linhas, que passam da forma prosaica para versos e poemas, transcrevemos, a seguir, as lendas Macuxi, do Rio Negro.
Lenda Macuxi (Rio Branco)
No princípio era o canto.
A lua cantava pelo céu, todos ouviam
seu canto bonito.
Por cima dos galhos macacos cantavam.
Todos os animais da terra
- répteis, aves e peixes –
também cantavam.
Antes a noite era grande, vazia.
Da carne das frutas comidas pelo homem,
nasceram os animais.
Das sementes brotaram cabas, formigas,
lacraus e aranhas.
Lançadas ao rio, estalaram seus peixes.
A árvore que falava, disse ao homem:
- Come a carne da furta,
depois enterra a semente.
Mas ele esqueceu-se do que a árvore lhe disse,
passou a estragar tudo,
espantou-se do que fez.
Embaixo das árvores os bichos e animais
aumentavam de número e tamanho.
As sementes deixadas nos galhos
Cantavam saracura, guariba e outros.
No rio jacaré, sucuriju, piraíba,
outras espécies cantavam também.
Ele ficou espantado: nenhuma árvore
lhe respondia mais onde estava
nem de onde vinha esse barulho.
O homem quedou-se triste,
e já não tinha (já) como de onde fugir.
* Escritor acreano