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Rio Branco - Acre, domingo, 9 de fevereiro de 2003
Era dos falcões

Se os Estados Unidos têm razão e o Iraque tem armas de destruição em massa, bactérias e gases em doses industriais, a guerra não será curta. Se a guerra será curta, o Iraque não é tão poderoso como afirma o governo americano. Afinal, o país vem sendo avisado há um ano que a maior potência do mundo vai atacar seu território. Acuado, Saddam usaria, então, seu arsenal.

Nas análises feitas nos últimos tempos e que sustentam a convicção quase consensual de que a guerra será um breve episódio, há esta inconsistência. O ataque bacteriológico que Saddam Hussein pode fazer produziria, em pouco tempo, uma epidemia de varíola nos Estados Unidos, por exemplo, ou espalharia mortes e destruição em Israel. A idéia de que Saddam fique esperando ser destruído pelos Estados Unidos não combina com o retrato pintado pelo próprio governo americano sobre o presidente iraquiano e seu arsenal químico, biológico e, quem sabe, atômico.

Dentro do governo americano, há uma maioria silenciosa que discorda dos métodos, da avaliação, e da estratégia do presidente George Bush e de seu conselho de falcões. O único a contestar publicamente era o secretário de Estado Colin Powell, que, nos últimos dias, mudou de lado e de discurso. Sua mudança de posição foi tão abrupta que virou assunto de análises em vários órgãos da imprensa mundial. Ele é apontado como o pombo que virou porta-voz do falconismo. E suas declarações, de ontem e de hoje, são publicadas lado a lado, para mostrar a radical alteração das suas convicções sobre vários pontos desta crise.

Para ouvidos mais apurados, o pronunciamento de Powell trouxe algumas lacunas interessantes. Ao não se centrar nas acusações de coligação entre Bagdá e o grupo terrorista de Osama Bin Laden e ao não sustentar que o território americano está sendo ameaçado, ele teria enfraquecido a idéia de “preemptive action”, que justifica o ataque como ação de defesa preventiva.

Isto não significa desistência da ação militar. Longe disso. Todos os sinais são de que o país está rumando em direção ao conflito. O pronunciamento do presidente George Bush, na quinta-feira, não deixou dúvidas: os EUA querem uma nova resolução da ONU, mas, se não a tiverem, vão atacar assim mesmo.

Seria melhor, no entanto, se o país pudesse fazer isso com o apoio do Conselho de Segurança e da maioria da opinião pública internacional. Por enquanto, não tem esse apoio. Uma pesquisa feita pelo Le Monde Diplomatique, nos atuais e futuros países integrantes da União Européia, mostra que, se houver decisão das Nações Unidas para intervir, na maioria dos países, a opinião pública é favorável ao conflito. Dos ingleses, 79% concordaram com a participação da Inglaterra nestas condições; 67% dos franceses também acham que a França poderia entrar e, na Alemanha, 45%. Mas a opção de que os Estados Unidos intervenham sem uma decisão favorável das Nações Unidas tem um apoio francamente minoritário: 27%, na Inglaterra; 13%, na França e 10%, na Alemanha.

Neste ambiente de incerteza e volatilidade, o Brasil está começando um novo governo. Para os governantes que chegam nada poderia ser pior do que um cenário imprevisível. Tudo pode acontecer, inclusive ser mesmo uma guerra curta, sem maiores efeitos na economia. Mas e se for um conflito mais longo? As conseqüências serão a redução do fluxo de capitais, quando o Brasil estava voltando ao mercado; o aumento dos preços do petróleo, quando o país luta para inverter a curva da inflação; a redução do crescimento mundial, quando precisamos exportar mais e reduzir o déficit em transações correntes. Menos fluxo elevará o câmbio, num momento em que a valorização do real estava sendo arma importante para a queda da inflação e, no futuro, dos juros.

A ameaça da Coréia do Norte de usar seu poderio militar, a sessão do Conselho de Segurança sobre uma guerra contra o Iraque, a preparação dos Estados Unidos para um ataque e o atentado de 11 de setembro, tudo mostra como a situação internacional se deteriorou nos últimos dois anos. A tensão, o conflito, o aumento do risco nuclear voltaram à ordem do dia. Durante uma década, o mundo viveu em um ambiente oposto. A queda do Muro de Berlim inaugurou uma época de ouro em que o otimismo e a racionalidade pareciam prevalecer. O desmonte do Império Soviético, a independência de países antes prisioneiros de uma união forçada, a reunião das duas alemanhas, a união da Europa, o fim da chantagem recíproca entre as duas potências da lógica bipolar da guerra-fria pareciam estar conduzindo o mundo a uma era de ouro. Melhor exemplo daqueles tempos foi o movimento que ficou conhecido com o delicado nome de “Revolução de Veludo”, na antiga Tchecoslováquia, que tirou da prisão o teatrólogo, intelectual e humanista Vaclav Havel e o instalou no Castelo de Praga. Havel presidiu, racionalmente, o processo de separação amigável entre os tchecos e os eslovacos e governou seu povo sabiamente por 13 anos. O exuberante efeito do que a paz e a liberdade podem produzir é visto nas ruas da Praga de hoje; ao mesmo tempo moderna e clássica. É difícil imaginar nas belas ruas de Praga — com seus prédios medievais preservados, seu intenso turismo, sua alegria, sua boa cerveja, seu amor à música — a brutalidade dos tanques soviéticos de 68. Havel deixou o poder dias atrás ao encerrar o período em que constitucionalmente poderia exercer o cargo. Saiu de forma discreta e charmosa como ícone de uma era em que o mundo sonhou com o predomínio da inteligência sobre a barbárie. Nos últimos tempos, o mundo voltou a ser dos falcões e dos senhores da guerra que não se constrangem diante de Guernica; preferem mandar a ONU encobrir a obra prima de Pablo Picasso e assim abafar seu grito.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão
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