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Rio Branco - Acre, domingo, 9 de fevereiro de 2003
O bilhete do artilheiro

Francisco Dandão

Por alguma razão que eu não sei determinar com exatidão (talvez por não ser mesmo assim tão necessária a busca da razão nesse mundo muito louco em que a gente vive), aos domingos eu gosto de contar histórias. Fatos que fazem parte do nosso folclore esportivo, mas carecem de registro.

Pois nessas de contar histórias, eu mal sento na cadeira defronte ao computador, provavelmente por já vir com essa intenção narrativa, vou logo lembrando de um fato acontecido na década de 1960 envolvendo o saudoso professor Almada Brito, o maior dos dirigentes do Vasco da Gama local.

Quem me contou foi o Bidu, de apelido Eduardo César (mas só para os íntimos), filho do professor Almada, que, aliás, ultimamente, desde que eu publiquei que o pai dele chamou uma boliviana para dançar na hora do hino de los hermanos, só vive me contando novas aventuras do “velho”.

Desta vez a história tem como personagem principal um certo Quinari, centroavante negão que fazia o maior sucesso lá pelas bandas de Senador Guiomard, artilheiro desses de não passar um só jogo sem marcar gols (às vezes, vários), um verdadeiro terror dos zagueiros caipiras.

Um jogador com tamanhas qualidades não poderia de jeito nenhum desperdiçar o seu talento nos campos interioranos. E vai daí que, um belo dia, lá se foi o professor Almada buscar o tal Quinari para reforçar o Almirante da Fazendinha. A chegada em Rio Branco foi triunfal, com banda de música e tudo.

Uma semana e meia dúzia de treinos depois veio a desilusão. Com um par de chuteiras nos pés o cara mal conseguia andar, praticamente não saía do canto. Haviam esquecido de dizer ao professor Almada que o Quinari só jogava descalço. O jeito foi dispensar o homem e mandá-lo de volta.

Foi nesse momento que começaram os problemas. Já acostumado às delícias da metrópole (para alguém do interior, a capital é sempre metrópole), o negão não queria mais ir embora, mas de forma alguma. O professor Almada só vislumbrou uma saída: suspender a alimentação da criatura.

Um mês depois, inocente do desenrolar dos fatos, o professor Almada recebe uma enorme conta do restaurante. Ao interpelar a dona do estabelecimento, percebeu o golpe. Um bilhete (escrito pelo negão, claro) dizia: “Dona minina, dê cumida para o rapaize. Assina, Profeçor Omada”.

Saldo do artilheiro: jejum de gols e muito churrasco de graça.

fdandao@zipmail.com.br
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